Thereza Eugênia
Thereza Eugênia

Livro reúne fotos de bastidores de artistas da MPB nos anos 1970 e 1980

Imagens de Caetano Veloso, Roberto Carlos, Elza Soares e outros músicos foram clicadas por Thereza Eugênia

Danilo Casaletti, Especial para o Estadão

15 de setembro de 2021 | 05h00

Em 1970, a lendária assessora de imprensa e divulgadora Ivone Kassu (1945-2012) chamou a enfermeira Thereza Eugênia para fotografar um show de Roberto Carlos no Canecão, a mais importante casa de shows do Rio de Janeiro, que funcionou até 2008 e por onde passaram praticamente todos os artistas da música brasileira e muitos astros internacionais.

Naquela altura, Thereza já era apaixonada por fotografias, porém não tinha um equipamento adequado para fazer fotos de shows. A solução foi pegar a máquina de fotografia profissional do gerente do Canecão emprestada. “Kassu, como você manda uma pessoa que não sabe nem segurar direito uma máquina para fotografar o Roberto?”, indagou o administrador.

Porém, destino é destino. E, para além da impaciência do gerente com quem estava apenas começando, Roberto Carlos, um ídolo desde os tempos da Jovem Guarda, e a quem Kassu viria assessorar por quase 40 anos, gostou das fotos de Thereza. E mais: escolheu uma delas para ser capa do LP que lançaria naquele ano – o que traz a canção Jesus Cristo. 

Essa foto, do Roberto de lado, na penumbra, é uma das que estão reproduzidas no livro Thereza Eugênia – Portraits 1970-1980 (Barléu Edições), que a fotógrafa lança em edição caprichada, de capa dura e papel cuchê, organizada pelo designer Augusto Lins Soares, o mesmo de Revela-te, Chico – Uma Fotobiografia, com fotos de Chico Buarque, e O Santo Revelado – Fotobiografia de Dom Helder Camara.

Além de Roberto, as 192 páginas da publicação trazem fotos de Caetano Veloso, Gal Costa, Maria Bethânia – os mais retratados por Thereza –, Gilberto Gil, Chico, Clara Nunes, Rita Lee, Alcione, Ney Matogrosso, Clementina de Jesus, Simone, Raul Seixas, Zezé Motta, Nana Caymmi, Rosinha de Valença, Fafá de Belém, entre outros.

O livro, segundo ela, foi uma exigência de seus “curtidores”, como ela chama seus mais de 17 mil seguidores do Instagram, rede social na qual ela já postava suas fotos e está em contato direto com os fãs, respondendo pacientemente a quem lhe aborda virtualmente. “Quando Augusto (Lins Soares) me convidou para fazer o livro, deu um tiro certeiro no meu coração. A recepção está maravilhosa”, diz, animada.

Nascida no município baiano de Serrinha, a 175 km de Salvador, Thereza chegou ao Rio de Janeiro em 1964, aos 25 anos, para trabalhar como enfermeira, profissão que, apesar do ofício que assumiu como fotógrafa, com inevitáveis idas noturnas a shows e festas em que os artistas se reuniam, jamais largou e exerceu até os anos 1990. “Era o meu porto seguro. Eu tinha certa dificuldade de vender meu trabalho (como fotógrafa)”, diz hoje, aos 81 anos, com memória afiada e sotaque preservado.

Autodidata, a paixão pela fotografia começou ainda na infância. A câmara escura que a avó mantinha no casarão em que morava a fascinava. Com 11 anos, comprou sua primeira máquina fotográfica. Já no Rio, começou a fotografar a irmã, Zezeca, que gostava de posar. O filme Blow-Up, do cineasta italiano Michelangelo Antonioni, lançado em 1966, cujo enredo gira em torno de um fotógrafo de moda, foi outra inspiração. 

Os primeiros registros de nomes da música foram experimentais. Ela esteve em um show de Maria Bethânia chamado Comigo Me Desavim, de 1968. Fotografou a cantora também no Canecão. Um amigo em comum levou as fotos para Bethânia ver. Ela escolheu uma para ser a capa de seu disco – Roberto quase perderia a primazia –, mas a ideia foi barrada pelo produtor Carlos Imperial, que achou a foto pouco comercial. 

Thereza ficou amiga de Bethânia. Era comum que ela chegasse sem avisar à casa da cantora, em Ipanema, na Rua Nascimento Silva, logradouro onde Tom Jobim ensinou para Elizeth Cardoso as músicas do álbum Canção do Amor Demais.

Em um desses dias, fez uma foto da cantora na piscina, brincando de bola. Também registrou o primeiro encontro de Bethânia com o irmão Caetano quando ele voltou do exílio em Londres, em 1972. Sentados, eles trocam olhares afetuosos. 

“Baiano logo faz uma tribo”, brinca Thereza, ao falar que, no começo dos anos 1970, fez amizade com o produtor Paulinho Lima e a cantora Gal Costa. A fotógrafa também frequentou as famosas Dunas da Gal, ou Dunas do Barato, uma faixa de areia na Praia de Ipanema, point da contracultura, onde tudo era permitido, em contraste com a repressão da ditadura militar que assolava o País. Eram tempos do show Gal Fatal – A Todo Vapor, criação de Waly Salomão.

Entre papos, topless, cigarros de maconha e ácidos, os jovens sentiam-se livres – além de Gal, Ney Matogrosso, Gonzaguinha, Marília Pêra eram alguns dos famosos que apareciam por lá. Foi nessa época que o poeta Antonio Cícero, irmão da cantora Marina Lima, recém-chegado de Londres, conheceu Thereza. Cícero assina um dos textos do livro e classifica uma série de fotos que a fotógrafa fez de Caetano como “obra de arte”.

Outro amigo importante de Thereza foi o empresário musical carioca Guilherme Araújo (1936-2007), que lhe abriu muitas portas, camarins e festas. “Guilherme era criativo, inteligente. Ele tinha acabado de chegar de Londres com Caetano e Gil. Logo ficamos amigos. Ele me pediu para fotografar Gal no show Índia (de 1973).”

Deste show, no livro, há uma foto de Gal sentada em um banquinho, descalça, ao violão. Outra, flagra a cantora em momento de puro prazer artístico ao lado do sanfoneiro Dominguinhos. Thereza também fotografou Gal no show Tropical, de 1979. É dela uma linda foto que mostra a beleza de Gal descendo uma escada, logo no começo do show, para cantar Samba Rasgado. A imagem mostra o movimento do vestido de Gal, que deixava suas pernas à mostra.

Thereza revela uma curiosidade: assistia aos espetáculos inúmeras vezes. Sabia a hora certa de apertar o botão da máquina. “Havia momentos que me marcavam. Fazia um estudo”, diz.

Em fotos posadas, fora do palco, Thereza parecia conseguir acessar a alma do fotografado. O olhar de seus personagens ora melancólico, ora instigante. Jamais inexpressivo. Ela não vê nada de extrassensorial nisso.

“Talvez fosse a relação de amizade que eu tinha com eles. Fazia com carinho apenas. Era uma grande diversão. A fotografia é uma interpretação de uma imagem, a nossa maneira de ver”, explica.

A segunda parte do livro, que traz fotos em tamanho menor, mostra “abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim”. Há o afável beijo de Emílio Santiago em Alcione, o afetuoso abraço de Gonzagão e Gonzaguinha, Bethânia com a cabeça no ombro de Chico, um momento de intimidade de Caetano e Marina, entre tantos outros registros.

Apaixonada por tecnologia, Thereza atualmente gosta de fotografar com celular – ela tem 3 –, sobretudo o pôr do sol do Arpoador, em Ipanema, sua “área”. Ressente-se, no momento, pelo isolamento imposto pela pandemia. Vez ou outra faz algum registro em show, como o da amiga Bethânia em Claros Breus, de 2019.

Thereza não guarda nenhuma sensação de ter perdido algum clique ou de não ter conseguido fotografar algum ou outro artista – desejo por vezes inerente a muitos profissionais. De Elis Regina, por exemplo, outra estrela da época, há apenas uma foto no livro, em companhia de Gal. Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Elizeth Cardoso, Nara Leão, Djavan também são ausências sentidas, considerando-se o período no qual ela fotografou.

Para Thereza, foi tudo como tinha de ser. Sempre quis fazer apenas o que lhe deixava feliz. Ela resume a vida em um verso, tirado justamente da música popular brasileira, escrito por Gonzaguinha. “Começaria tudo outra vez”, diz.

 

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