Divulgação
Divulgação

Novo livro reúne escritos inéditos de Renato Russo

Material foi guardado pelo filho do líder da Legião Urbana

Adriana Del Ré, O Estado de S. Paulo

09 Julho 2015 | 05h00

Renato Russo vinha de um longo período de excessos - com alguns intervalos de abstinência. Drogas, álcool, sexo. O líder da Legião Urbana não só entrou num processo de autodestruição, física e psíquica, como também seu comportamento imprevisível respingava em quem estava no entorno - família, amigos e companheiros de banda. O guitarrista Dado Villa-Lobos, em seu recém-lançado livro Memórias de Um Legionário, conta que a convivência com Renato, durante uma turnê pelo Nordeste no segundo semestre de 1992, havia se tornado insustentável. “Pra mim chega! Perdeu a graça e a razão de ser”, falou Dado para Renato, quando voltavam ao Rio de Janeiro, ainda no aeroporto do Galeão - relata o guitarrista em seu livro.

Meses depois, em abril de 1993, Renato decidiu se internar na clínica de reabilitação Vila Serena, no Rio. Seu analista o havia convencido. No ‘rehab’, buscava se livrar do álcool e das drogas, mas acabou mergulhando num processo de reflexão sobre sua vida. E esses pensamentos mais íntimos vêm agora à tona no livro Só Por Hoje e Para Sempre - Diário do Recomeço, lançado nesta quinta, 9, pela Companhia das Letras. Será realizado um evento de lançamento no Museu da Imagem e do Som (MIS), em São Paulo, no dia 25 de julho, a partir das 14 horas.

Durante os 29 dias que permaneceu na clínica, Renato escrevia muito, como parte de seu tratamento. Sobre seu dia a dia na instituição, os episódios que o ajudavam a entender por qual motivo havia chegado àquela situação, até recordar momentos em que sentiu determinadas sensações, como raiva, medo, insegurança, solidão e ressentimento. “Estaria morto antes do final do ano (era esse meu objetivo), e minha autoestima era inexistente. No final só sentia raiva, autopiedade e inadequação. Foi como cheguei até aqui”, desabafa ele, em seu diário, que chega a público depois de mais de 20 anos. 

“Esses inéditos” - escreve Giuliano Manfredini, filho de Renato Russo, no livro - “não poderiam continuar (bem) guardados comigo”. Ele atendeu ao desejo de Renato de ter sua obra publicada postumamente. À época da internação, Giuliano tinha só 4 anos, mas, segundo ele conta, a família não lhe escondia o que passava com o pai. 

Só Por Hoje e Para Sempre agrupa um conjunto de folhas soltas desse processo de autoconhecimento, incluindo manuscritos e desenhos, feitos por Renato em bordas, cabeçalhos e rodapés dessas folhas. Abreviações e trechos que ele rasurou foram preservados. Segundo nota editorial no livro, o plano de tratamento visto nas primeiras páginas foi usado como espinha dorsal na organização de todo o material. “Ali estavam as tarefas propostas a Renato, seguindo o Programa dos Doze Passos, criado pelos fundadores dos Alcoólicos Anônimos como base de sua terapia.”

O “só por hoje” do título do livro é mencionado por Renato no livro, e também é uma das faixas do disco O Descobrimento do Brasil, lançado pela Legião meses depois que Renato saiu da clínica e, portanto, impregnado de esperança, mesmo diante de um mundo cheio de injustiças e crueza - reflexo daquela fase de internação. “Só por hoje eu não quero mais chorar/ Só por hoje eu espero conseguir/ Aceitar o que passou e o que virá/ Só por hoje vou me lembrar que sou feliz”, diz trecho da canção Só Por Hoje. Essa expressão vem de um dos capítulos do livreto oficial dos Narcóticos Anônimos: “Diga para você mesmo: só por hoje meus pensamentos estarão concentrados na minha recuperação, em viver e apreciar a vida sem drogas...”. 

Esperança. Só Por Hoje e Para Sempre - Diário do Recomeço compila um material revelador. Traz Renato Russo sem filtro, num mergulho profundo em seus pensamentos e na exposição corajosa de sua intimidade, com passagens por sua trajetória no Aborto Elétrico e, depois, na Legião Urbana. Apesar da sensação de angústia presente em alguns textos, em linhas gerais, o tom otimista e esperançoso marca seus escritos. E abria espaço ainda para sutis ironias dele.

 

Renato compartilha, em detalhes, as muitas situações-limite nas quais ele se colocou. Na Autoavaliação do Primeiro Passo, com a qual o livro é aberto, o compositor descreve de que forma sua “incapacidade de controlar o uso do álcool e outras drogas o afetou” em diversos campos da vida, como trabalho, saúde, finanças, reputação, relações com a família e as pessoas em geral e autorretrato. Este último, talvez a parte mais difícil, já que precisava se expor francamente, para o bem e para o mal. E Renato não pega leve na imagem que fazia de si mesmo. “Fiquei muito mais violento e prepotente do q. já sou, e arrogante; me achava um gênio incompreendido e, ao procurar por amor, comprando sexo, percebo que não tinha autorrespeito algum, chegando, em tempos recentes, até a brincar com sadomasoquismo e role-playing. De bicha proustiana passei a bicha pasoliniana (à la Salò ou os 120 dias de Sodoma)”, escreve ele, num trecho.

Mil exemplares do livro foram adquiridos na pré-venda só na Saraiva. Para o lançamento de agora, planeja-se uma tiragem inicial de 40 mil, algo que só ocorre com autores como Chico Buarque e Drauzio Varella. Esta é a primeira obra de uma série de livros que vão reunir diários, poemas, letras, obras de ficção e desenhos de Renato, ainda sem data prevista. Renato Russo morreu em 1996, aos 36 anos, em decorrência da aids. Ele deve ser tema ainda de mostra no MIS em 2017.

ENTREVISTA

“Não queria me esconder seus problemas” - Giuliano Manfredini - Filho de Renato Russo

Você era muito criança quando seu pai se internou. Qual lembrança tem daquele período?

Lembro que eu e minha família fomos algumas vezes visitá-lo na clínica. Meu pai sempre foi muito carinhoso. Ele passava uma imagem da responsabilidade paterna e procurava me indicar o caminho certo, mas, ao mesmo tempo, não queria que escondessem de mim a verdade sobre os problemas que enfrentava. E conseguiu, porque minhas lembranças desse período estão relacionadas à esperança e superação.

Como a internação refletiu no disco O Descobrimento do Brasil?

O disco reflete muito o período em que ele esteve na clínica, que foi duro, porque ele enfrentava um problema sério de dependência química, mas procurando “resgatar o prazer de viver”. Durante a internação, ele reconheceu os erros que cometeu, aceitou as limitações e recuperou a esperança de ser uma pessoa melhor e volta a acreditar que é possível melhorar o mundo. As letras de O Descobrimento do Brasil refletem esse estado de ânimo dele. 

TRECHOS

“Quando vim para Vila Serena no dia 6 de abril deste ano, tinha chegado ao ‘fundo-do-poço’. Foi a primeira vez que senti dificuldade e desconforto físico ao abster-me do álcool e das drogas. Já estava no estágio intermediário do alcoolismo e cheguei aqui com muitos sentimentos negativos: ressentimento, raiva, culpa e autopiedade. O método era claro para mim: se não procurasse ajuda especializada, sabia que não conseguiria sozinho, pois, dessa vez, tinha entrado fundo na bebida e estava bebendo para morrer.”

“Para mim o terceiro passo é o mais importante de todos, depois do primeiro. Entendi que a causa principal de quase todos os meus pontos fracos é minha insistência em ver satisfeita MINHA vontade, em vez de aceitar a vida, o mundo e as pessoas como são e buscar harmonia através dessa aceitação. Minha dependência química potencializou esses defeitos de caráter e vejo agora que minha prepotência, autossuficiência e imediatismo foram justificativa para essa mesma dependência.” 

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.