Livro refaz andanças de Caruso pela América do Sul

Em 1915, após a inauguração do Teatro Colón com uma récita da Aida de Verdi estrelada por Enrico Caruso, o crítico do jornal La Razón escreveu: "A voz de Caruso comunicou impressões contraditórias. Para julgar é necessário esperar... Caruso é algo mais que um cantor: é um artista de real inteligência, que sabe o que canta." Mais que um cantor. Um artista que ultrapassa a própria arte, sendo capaz de redefini-la. O comentário do crítico é bastante significativo quando se quer encontrar razões que expliquem o porquê de Caruso, após 80 anos de sua morte, continuar comovendo amantes, ou não, de ópera de todo o mundo. Ainda mais se levarmos em conta o ano em que foi escrito o comentário. Em 1915, Caruso já era velho conhecido do público argentino, que, de certa forma, acompanhou de perto o tenor em diversos momentos de sua carreira, desde o início na década de 90 do século 19 até as décadas de 10 e 20 do passado. Para se ter uma idéia, o público argentino viu Caruso fazer coisas que ninguém mais viu, como cantar o Prólogo de I Pagliacci, escrito para barítono, e interpretar papéis wagnerianos. Esse é um dos pontos de partida do pesquisador György Miklös Böhm em Enrico Caruso na América do Sul (Cultura Editores Associados, 510 págs., R$ 60). Dono de um dos mais completos acervos no mundo sobre a carreira de Caruso, Böhm reuniu em países como Brasil, Argentina, Uruguai, Itália, Inglaterra e Alemanha grande quantidade de informações sobre as passagens de Caruso pela América do Sul. O livro percorre os caminhos de Caruso, desde sua primeira apresentação, na Argentina em 1899, até a turnê que fez por São Paulo e Rio, em 1917. Com base em jornais da época e em uma vasta bibliografia, Böhm analisa as apresentações e as contextualiza no estágio da carreira do cantor e no momento cultural em que elas estão inseridas. Opção que acaba mostrando as idiossincrasias do mundo operístico, a postura de agentes, a rivalidade entre artistas, temas que, aliás, não passam tão longe dos teatros atuais. O autor não se limita, porém, a analisar apenas as turnês. Em alguns capítulos, dedica-se a entender a personalidade de Caruso, "cantor que aprendeu a nunca tirar a sua máscara, exceto quando estava em seu lar", sua relação com as mulheres ("Caruso e o Amor") e com outros artistas. Faz, também, no capítulo "A Voz de Caruso", um cuidadoso estudo da voz e da técnica do tenor. Médico, Böhm encerra o livro com uma detalhada apresentação dos problemas de saúde que, aliados à imperícia de alguns médicos, levariam o cantor à morte, aos 48 anos, vítima de peritonite e septicemia. Completam o livro, apêndices com a lista de todas as apresentações do tenor, suas gravações, e dois discos com trechos de ópera - na voz de Caruso - citados no livro. Há, também, grande número de fotos (algumas coloridas por computador) e caricaturas feitas pelo próprio tenor, dele e de colegas como o baixo russo Fiodor Chaliaplin. Imaginário - Pela própria natureza das fontes - críticos musicais e personalidades que manifestaram em livros e entrevistas opiniões a respeito de Caruso -, a obra não fecha a discussão a respeito da figura do cantor, somando-se à vasta bibliografia disponível, que busca compreender um dos mais expressivos representantes da arte do canto lírico. Mais de uma vez, o autor apresenta opiniões divergentes a respeito de determinada apresentação, como é o caso da Manon, de Massenet, com que Caruso despediu-se de São Paulo em 1917. Alguns jornais afirmam que Caruso foi vaiado e respondeu ao público com uma banana. Alguns negam as vaias, outros confirmam o desapontamento do público, mas não citam a banana. O que de fato aconteceu parece não importar: o que interessa é reunir o maior número de informações capazes de colaborar com o rico imaginário que cerca a figura do cantor. Nemorino - A primeira apresentação de Caruso na América do Sul ocorreu em maio de 1899, em Buenos Aires, quando ele interpretou o papel do tenor em Fedora, de Umberto Giordano, e La Gioconda, de Ponchielli (nessa, gripado devido ao clima da capital argentina). Caruso ainda não era o astro que se tornaria 10 anos mais tarde e a crítica local limitou-se a fazer elogios à sua "voz agradável e boa ação cênica". No ano seguinte, ele voltaria à capital argentina, agora incumbido da tarefa de cantar Mefistofele (Arrigo Boito), Iris (Pietro Mascagni), O Rei de Saba (Goldmark), La Bohème (Puccini) e Cavalleria Rusticana (Mascagni). Foi como Assad, da ópera de Goldmark, que ele começou a chamar a atenção da crítica, que chegou a afirmar que Caruso era insuperável nessa ópera. No ano seguinte, o sucesso repetiu-se e ele foi aclamado ao interpretar Nemorino, do Elisir D´Amore, papel que o consagrou no Scalla de Milão no início do século. Ao lado do Canio do I Pagliacci (Leoncavallo), Nemorino foi um de seus principais papéis na América do Sul. Curiosamente, o Don Jose, da Carmen, que ele interpretou com sucesso por todo o mundo, não parece ter provocado muita comoção por aqui. Volta - Nos anos seguintes, Caruso voltaria novamente a Buenos Aires, passando também pelo Uruguai e pelo Brasil. Esteve no Rio em 1903, quando cantou nove récitas de óperas como Manon Lescaut e Tosca (Puccini), Rigoletto (Verdi) e Iris (Mascagni). Voltou ao Brasil somente 14 anos depois, quando também cantou em São Paulo. No programa, I Pagliacci, Carmen (Bizet), Tosca e La Bohème (Puccini), L´Elisir D´Amore (Donizetti), Lodoletta (Mascagni) e Manon (Massenet).

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