Livro recupera 25 anos de histórias do Prêmio Sharp de música

Jornalista Antonio Carlos Miguel assina a obra que rememora um dos mais importantes reconhecimentos para cantores e compositores

Roberta Pennafort , O Estado de S. Paulo

14 de abril de 2014 | 23h00

Em 1988, Cazuza ganhava o Prêmio Sharp de melhor cantor. No palco do teatro do imponente Hotel Nacional, ele gracejou: "Como nunca ganhei medalha no colégio, queria dedicar esse prêmio ao meu pai e à minha mãe!" Renato Russo, agradecendo pelo troféu de melhor grupo à sua Legião Urbana, começou o discurso em inglês, como se estivesse numa noite do Oscar.

Fora do País, Tom Jobim mandou o filho Paulo para buscar seus três prêmios: melhor álbum (Passarim) e música de MPB para a canção homônima, considerada a melhor do ano. Dorival Caymmi também foi de representante: do filho Dori, escolhido melhor arranjador. A homenagem a Vinicius de Moraes foi aberta por Eu Não Existo Sem Você na voz de Elizeth Cardoso. Poemas dele foram lidos pelos atores Raul Cortez e Thales Pan Chacon. Vinte e cinco edições do prêmio se passaram, e o Hotel Nacional virou um fantasma na paisagem de São Conrado. O LP morreu e ressuscitou, a Aids levou Cazuza, Renato e Thales, o câncer matou Tom, Elizeth e Raul, o tempo venceu Dorival Caymmi.

Mais tradicional do País, a premiação, idealizada pelo produtor José Maurício Machline, herdeiro da Sharp, passou por aperto há cinco anos, por falta de patrocínio, mas se mantém como a mais abrangente e acreditada da atualidade, com 35 categorias – da "canção popular" (o antigo brega) à música clássica, passando pela agregadora "pop/rock/reggae/hip-hop/funk" – e um corpo de jurados formado por 20 críticos de música e artistas.

Essa história é contada em livro com texto do jornalista Antonio Carlos Miguel e design de Gringo Cardia. A Vale, patrocinadora desde 2010, bancou também a publicação. Para além do "quem ganhou o quê em tal ano" e das homenagens anuais a gigantes da música – todos os principais compositores da história da música nacional, de Noel Rosa a Rita Lee, e também intérpretes autorais, como Gal Costa, Elis Regina e Clara Nunes –, a publicação tem entrevistas com nove estrelas da MPB sobre sua relação com a festa.

As fotos somam 250, uma boa parte, antológica. No primeiro ano, Renato Russo posa ao lado de Elizeth. Em 1989, Cazuza apareceu bastante debilitado, de cadeira de rodas – ele foi premiado pela música Brasil e o LP Ideologia. Em 1998, Cássia Eller, de cabelo azul, cantou com Paulinho Moska.

Nesse quarto de século, a indústria fonográfica quebrou e se reinventou, o rock brasileiro deixou de ser fenômeno e o samba... continua reinando. Os resultados mostram as tendências da música nesse período, mas não chegam a refletir modismos. "No prêmio não importam execução nem vendagem, só a qualidade", diz Machline, que se orgulha por ter impulsionado carreiras como as de Marisa Monte e de Yamandú Costa.

Revelação da edição de 1990 por conta do disco de estreia, Marisa estreara no prêmio antes. "Era o tributo a Dorival Caymmi e participei com Roberto Menescal de um dos números musicais", contou Marisa na entrevista para o livro. "A emoção de estar ali ao lado de tanta gente que eu admirava foi o que mais me marcou. Não me esqueço da sensação de dividir o camarim com Elizeth Cardoso, Alcione, Marília Pêra..."

Maria Bethânia é a recordista de troféus: tem 20. "Eu não sabia desses números, mas o que me surpreendeu mesmo foi, em 2013, eu ganhar como canção do ano (Carta de amor). Sim, meu parceiro Paulo César Pinheiro merece tudo, mas ganhei competindo com Caetano!", brincou Bethânia.

Com tantas estrelas reunidas, seria natural uma guerra de egos. Quanto a isso, o criador do prêmio e o livro são discretos. "Muitos artistas pedem para cantar e não dá para escalar todos. Também existe a discussão por repertório", despista Machline, que nunca conseguiu levar à premiação Roberto Carlos nem Chico Buarque. "Já disse para o Chico que enquanto ele e eu estivermos vivos, eu vou chamá-lo".

Com apresentação de Camila Pitanga e Mateus Solano, a premiação será no dia 14 de maio, em sua casa, o Teatro Municipal do Rio. Nesse ano de homenagem ao samba, o maior número de indicações é do sambista veterano Wilson das Neves – seis no total.

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