Livro examina trajetória de Cássia Eller

Amanhã faz seis meses que Cássia Eller morreu. E já saiu a primeira biografia da cantora. Canção na Voz do Fogo (Escrituras), definido como um "ensaio biográfico", faz extenso levantamento da carreira daartista.A autora, Beatriz Helena Ramos Amaral, é insuspeita.Advogada e jurista, é integrante do Ministério Público de SãoPaulo e também professora de violão erudito e poeta. Foifinalista do Prêmio Jabuti em 1993 com Poema Sine PraeviaLege e é ex-secretária-geral da União Brasileira de Escritores(período entre 1996 e 1998). Beatriz falou à reportagem durante uma folga no exame de um processo no Fórum de São Paulo.A sra. foi amiga da Cássia? O que a motivou aescrever um livro sobre ela?Beatriz Helena Ramos Amaral - Escrevi esse livro movida pelavontade de registrar e interpretar o percurso artístico de umadas mais originais intérpretes da MPB. Não conheci Cássia Ellerpessoalmente, o que, de certa forma, creio que tenha facilitadoo trabalho, dando-lhe, talvez, maior objetividade. Fiz extensapesquisa em arquivos jornalísticos e outras publicações emantive alguns contatos com músicos, compositores e produtoresde alguns de seus principais trabalhos, como Nando Reis e LuizBrasil. Apenas trabalhei no sentido de focalizar a trajetória dacantora, a transmutação de fases de sua carreira, osprocedimentos de mimetismo que empregava ao interpretar estilostão diferenciados e com tanta excelência. Não pretendi escrevernem escrevi uma biografia.Cássia Eller fez show em São Paulo algumas semanas antes demorrer. Um só jornal, fez reportagem sobre o concerto. A maioriaignorou. Morta, tornou-se "uma perda irreparável", "a maiorcantora pop do País", "uma força da natureza". A sra. fala em"depoimentos sinceros e eloqüentes", mas não acha que a"beatificação" artística de Cássia Eller decorre um pouco daforma trágica como morreu?Ela estava atravessando em 2001 a melhor fase de suacarreira, que felizmente, também estava coincidindo com oreconhecimento de sua obra por um público cada vez mais amplo -o que nem sempre ocorre. Os músicos e demais profissionais quecom ela conviveram cotidianamente sentiram a dupla perda eexpressaram isso, mas não vejo beatificação nem creio que issoseja salutar. Vejo sua perda como irreparável, assim como aperda de todo artista inventivo, original, como irreparáveis sãoas perdas de Elis Regina ou da cantora-compositora Maysa, de umator como Sérgio Cardoso ou de um compositor como Cazuza, ummúsico como o violonista Baden Powell, entre tantos outros. Éclaro que o seu desaparecimento precoce e absolutamenteinesperado pode, de início, pesar em avaliações imediatas. Mas otempo relativiza e redimensiona qualquer excesso.Cássia escolheu ser intérprete e buscou uma qualidade deintérprete-criadora. Em que momento se dá essa escolha? Elarenunciou à tarefa de compor ou não tinha mesmo inclinação paraisso?Quanto às composições de Cássia, ela própria as gravouno primeiro e segundo discos (1990 e 1992). Na época da seleçãode repertório para o álbum Acústico MTV (2001), o compositorNando Reis, que também foi produtor do disco, com o Luiz Brasil,propôs a Cássia a inclusão de uma das músicas dela, sugerindoEles, gravada no álbum O Marginal, de 1992. Mas elapreferiu não gravar nada de sua autoria. Dizia não gostar muitode suas frases musicais, talvez, creio, até mesmo em razão datimidez. De qualquer forma, compor jamais foi, para ela, umexercício cotidiano como cantar.A sra. parece ratificar a tese de estresse, desgaste efalência da resistência física como causa da morte dela. O quelhe deu a convicção disso?O estresse de Cássia em decorrência de aproximadamenteuma centena de shows em sete meses, de maio a dezembro de 2001,é inquestionável. As viagens sucessivas e os deslocamentos portodo o País são fatores de desgaste para qualquer artista. Suaidade era de risco e os seus hábitos sedentários são mencionadospor todos. Devo deixar claro que meu livro, por não serbiografia, enfatiza só a trajetória musical de Cássia. Mas, jáque você toca nesse assunto, esclareço que minha convicção vemde uma prova médico-pericial conclusiva, emanada de um órgãopúblico, cuja credibilidade não se pode contestar levianamente.A sra. também parece evitar o tema da disputa do Chicão,entre o pai de Cássia e sua ex-companheira. Por quê?O tema da guarda é totalmente estranho ao objeto, aoprojeto e ao objetivo do livro, que, como já disse, é tratar dopercurso estético de Cássia. As normas legais determinam quequestões dessa natureza corram em sigilo da Justiça.Como professora de violão erudito, a sra. enxergou umaqualidade musical adicional em Cássia? Ela era boa musicista?Cássia era extremamente musical e transbordava som,ritmo, harmonia e dinâmica pelos poros. Claro que tinha um modopeculiar de tocar violão, reconhecida pelos arranjadores ecompositores, e é interessante comparar suas várias gravações eperceber a variedade de toques, batidas, fruto de muitasaudições, do talento inventivo e de seu autodidatismo. Mas éclaro que seu grande instrumento, solo e inconfundível, era avoz de mezzo-soprano, chegando ao contralto, num timbre espesso,quase tátil.

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