Livro e CD lembram o lendário Paradise Garage

Pense em um clube onde Stevie Wonder, Mick Jagger, Keith Harring e Grace Jones iam para dançar e se divertir. Pense em um clube aonde apenas sócios eram aceitos. Pense em um clube que não vendia álcool, mas oferecia suco e comida de graça. Pense em um clube que durante seus 10 anos de existência foi palco das experimentações de um dos DJs mais importantes da história. Pensou em Paradise Garage? Pensou certo. Era ali, em uma garagem reformada no número 84 da King Street, no SoHo, que o nova-iorquino Lawrence Philpot, mais conhecido como Larry Levan, fez o ato de discotecar virar uma expressão artística, uma arte como outra qualquer. Talvez seja difícil imaginar a importância dessa elevação social de status que Levan deu ao DJ nos dias de hoje, onde a dance music é um fenômeno pop e DJs são símbolos máximos do fenômeno, mas a situação era bem diferente 23 anos atrás. Nas últimas semanas a imprensa norte-americana voltou a falar do Paradise porque Mel Cheren, um dos donos do clube (o outro era seu namorado, Michael Brody, morto nos anos 90), está lançando sua autobiografia Keep on Dancing: My Life and the Paradise Garage. Além do livro, Mel está lançando por sua gravadora, a West End Records, o álbum duplo Larry Levan Live at the Paradise Garage, gravado em uma noite feliz de 1979. DJ começou por acaso - Levan era um menino de saúde fraca e curioso por natureza. Começou a trabalhar na noite como técnico de luz, devido a sua habilidade manual. Em 1973, estava trabalhando no clube/sauna Continental Baths como técnico de luz quando o DJ da casa pediu demissão. O dono do lugar chamou Levan para tocar, dando apenas seis horas para ele reunir alguns discos. Levan era freqüentador assídulo do The Loft e do Gallery, dois clubes clássicos de Nova York, precursores dos "after hours". Quatro anos depois, Levan abria com mais dois sócios o Paradise Garage, em uma garagem reformada. Mas o que era tão diferente no Garage? Tudo. Primeiro o conceito de um clube fechado apenas para sócios. Não se vendia bebida alcoólica, os seguranças adoravam o que faziam. Não tinha hora para acabar e, acima de tudo, tinha uma figura como Levan nas picapes. O DJ era tão perfeccionista e apaixonado que se dava ao luxo de sair da cabine no meio de uma música para lustrar o globo de espelhos no meio da pista. A música acabava e ele continuava lá, no meio da pista, lustrando o globo. Calmamente voltava para a cabine, começava a tocar e o público (uma média de 2 mil pessoas todo sábado) aplaudia e urrava. Ou então, no meio da música, ele se empolgava e ia para a pista dançar. Ele foi responsável pela montagem do som da casa, que era tão bom que foi vendido para o megaclube inglês Ministry of Sound quando o clube fechou. Gênio das picapes - Levan foi o primeiro DJ a usar versões instrumentais e a capella das músicas. Seus sets eram verdadeiros diálogos com a platéia e esta era sua marca registrada. Em entrevista à revista Jockey Slut, o DJ Joe Claussel (da festa Body & Soul, que tenta imitar a vibração do Garage) disse: "Larry era um gênio na arte de discotecar, como Jimi Hendrix foi com as guitarras e Miles Davis nos trumpetes." Até seu fim, em 26 de setembro de 1987, Levan experimentou técnicas, tocou o que quis (de Clash a Jackson Five, passando por Stevie Wonder) e fez a trilha perfeita para pessoas que queriam apenas se divertir, dançar, amar e serem amadas, em uma época em que a aids não ameaçava ninguém. O fato de ser fechado fez com que o clube mantivesse um clima intimista, onde a maioria das pessoas se conhecia pelo nome. Para se tornar sócio, as pessoas ficavam horas em filas quilométricas durante a semana e eram entrevistadas pelos donos. O Paradise Garge foi o símbolo máximo da década de 80, quando a comunidade gay começou a dominar a noite da cidade. Em setembro de 1987, a vizinhança conseguiu fechar o clube. Sem seu reino, Levan começou a perder sua majestade e nunca mais encontrou um trono igual para brilhar. Em 8 de novembro de 1992, morreu de complicações cardíacas. A importância musical do que Levan tocava foi tanta que no início da década de 90 DJs ingleses inventaram a garage music, o ritmo que mistura batidas de house, disco, soul e gospel.

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