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Livro de memórias de Joyce vai virar minissérie

Casos narrados em 'Aquelas Coisas Todas' estarão em especial de quatro capítulos feito pelo Sesc 24 de Maio; o primeiro será exibido no dia 19

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

07 de janeiro de 2021 | 05h00

Os contos de Joyce narrados na revisão e ampliação de seu livro de 1997, Fotografei Você na Minha Rolleiflex, vão se tornar uma minissérie de quatro episódios que será exibida pelo canal do YouTube do Sesc 24 de Maio. O primeiro deles, com cerca de 20 minutos, será mostrado no próximo dia 19. Em cena, estarão apenas Joyce e seu violão. O livro lançado no final de 2020, com uma segunda parte recheada com 51 textos inéditos, tem o nome de Aquelas Coisas Todas, uma homenagem ao amigo guitarrista e compositor Toninho Horta.

Apenas Joyce e seu violão. Apesar de estar sempre rodeada sobretudo de homens talentosos desde sua chegada ao meio artístico, e muitos deles se tornariam amigos para a vida toda, é assim que, no fundo, tudo se passa. Joyce, uma “mulher bonita e inteligente” em um universo de homens compositores e homens músicos pouco acostumados com uma jovem que já chegava jogando nessas duas posições. Com um texto leve e fluído, mesmo para contar passagens mais densas, ela foge de discursos que poderiam usar para reforçar a narrativa de uma artista injustiçada em seu próprio país. Episódio para isso há, e talvez seja ele uma das mais sérias revelações feitas pelo livro, ainda que sem nomear os principais personagens dessa história. Em algum outro contexto, o que houve com ela seria chamado de uma das mais evidentes tentativas de “apagamento” artístico.

Joyce conta os detalhes da operação para retirá-la de cena – ou, ao menos, bani-la das grandes gravadoras que já mandavam e desmandavam em 1980 – no capítulo Independência ou Morte (A Vida Sem Gravadora). Ao mesmo tempo que colocar todo o foco nessa passagem poderia reduzir uma história cheia de riquezas que se sobrepõem a ela – e, por isso, a tornam ainda melhor –, a importância em contá-la não está só no valor memorial de época. Quando o poderoso chefão de uma gravadora do então porte da EMI se reúne com outros para que fechem um pacto de jamais contratarem uma artista que entrou em sua sala dizendo duas palavras proibidas (“meus direitos”) por ter uma de suas músicas afanadas e colocadas na boca de outra cantora da mesma gravadora, sem autorização, há de se imaginar tudo o que ainda não se sabe sobre as tratativas de bastidores movidas por vingança, apagamento, preconceito, machismo, racismo e toda a lama que não saiu ontem dos bueiros (um belo exemplo de um tom que Joyce jamais usa em seu livro).

É nas pequenas histórias que se escondem poderosos dados biográficos. Vejamos algo sobre João Gilberto. Quando Joyce o visitava em seu apartamento, em Nova York, João pediu sanduíches do Mc Donald’s mas faltou um garfo. “Pode pegar na lata de lixo, meu lixo só tem coisa boa”, ele disse. Até aí ok, era João Gilberto. Mas, então, eles começam a falar de um álbum de Joyce que ele gostaria de produzir, e a frase que ela ouviu revela algo surpreendente. “O único brasileiro que vou chamar para o seu disco é João Donato. Não grava com o Claus Ogerman não, aquela pata choca estragou o meu disco”, disse sobre o arranjador alemão Ogerman, que trabalhou com ele em Amoroso. Sim, Amoroso, uma de suas obras-primas, era um disco, na opinião de João, "estragado" pelo arranjador.

Às vezes protagonista, em outras coadjuvante e, por muitas, testemunha, Joyce atravessa seu tempo falando muitos dos seus idiomas. Filha do samba e da bossa nova, tinha trânsito livre entre mineiros, baianos, paulistas, cariocas, japoneses, nova-iorquinos e uma gaúcha que não dormia no ponto quando queria gravar uma canção em primeiro lugar, Elis Regina. “É uma antologia sobre música, encontros e ideias escrita por alguém que sempre manteve a curiosidade analítica e o faro de jornalista forjado no lendário Caderno B, do Jornal do Brasil”, escreve na contracapa o crítico de música e jornalista do Estadão, Renato Vieira. Sim, a história começa com a tentativa de ser jornalista até o dia em que a música a atropela.

Apesar de tentarem, os executivos da EMI não a derrubam. Ou melhor, dão solidez a uma Joyce mais fiel a si mesma. “Se eu tivesse ganhado aquele status (de popstar), talvez minha independência artística não fosse tanta. Eu me lembro de ouvir de um executivo à época: ‘precisamos de outra Clareana para o ano que vem’.” A história começa com a canção Clareana, uma homenagem a suas duas filhas de então, Clara e Ana, apresentada com grande recepção das massas em um festival da Globo de 1980 antes mesmo de sair no álbum Feminina e que a colocava em um patamar midiático que ela não havia experimentado. Seu nome passou a ser o nome da vez.

Alguns dias depois do festival, Joyce folheava um suplemento mensal enviado pela EMI aos artistas de seu cast quando tomou o susto. Sua Clareana aparecia no repertório de uma cantora desconhecida da mesma EMI (Sonia Mello). “Curiosa, fui ouvir e não acreditei quando vi que ela cantava por cima do meu playback, com meu arranjo, meu violão, minha voz nos vocais de apoio e até mesmo a risada das minhas filhas no final”, conta Joyce em seu livro.

Ao procurar a EMI, ouviu que ninguém ali havia feito nada que não poderia fazer, que todos os músicos assinavam um termo cedendo seus direitos à gravadora. A direção da companhia havia apostado em seu poder intimidador: afinal, qual artista em bom juízo se atreveria a arremessar uma pedra em seu próprio destino? Joyce colocou um advogado dos bons no caso e conseguiu que o disco da moça fosse retirado das lojas. A EMI lança Feminina e o disco seguinte, Água e Luz, para então dispensar Joyce e começar a retirá-la de cena em represália ao processo movido contra o uso de sua Clareana por outra cantora. Algumas gravadoras a procuraram com um mesmo approach: mandavam flores e marcavam reuniões para que, no dia certo, Joyce fosse deixada esperando por horas até desistir, vencida pelo cansaço.

Outras portas começaram a se abrir e Joyce, sem ter de fazer uma nova Clareana a cada álbum, foi parar no Japão para fazer os shows e os discos que bem entendesse, algo que “acabaria se consolidando como a melhor alternativa para quem, como eu, não tinha mais mercado em seu próprio país”, como ela escreve. Sua chegada à gravadora Verve, o clima dos festivais, os bastidores da Tropicália e até sua indisposição com o free jazz não falam só de si. Suas memórias reabrem histórias que rendem outros livros. 

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