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Livro 'Chega de Saudade' é revisto e ampliado, 25 anos depois

Obra musical de Ruy Castro, das mais importantes do século 20, ganha reedição "definitiva"

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

22 de junho de 2016 | 07h00

Chega de Saudade, lançado originalmente em 26 de outubro de 1990, uma das obras musicais mais importantes do século 20, acaba de ser revisto por seu autor, Ruy Castro, e relançado pela editora Companhia das Letras. Quase vinte e seis anos depois, o livro ganha reparos cirúrgicos em datas e localizações e tem o texto submetido a uma “lipoaspiração”, perdendo expressões consideradas datadas e proporcionando uma leitura mais veloz. “Agora, ele está do jeito que eu queria”, diz Ruy.

O autor não quis incluir novas histórias à versão original. “Se eu fizesse isso, iria trair o próprio livro.” O que há de novo, além do projeto gráfico e das mais de 300 emendas ao texto, é uma “cançãografia” nos moldes de outra recente obra de Ruy, A Noite do Meu Bem – A História e As Histórias do Samba Canção e uma discografia, considerada pelo autor como “a maior já feita sobre a bossa nova”.

Ao final, a longa lista batizada cançãografia traz mais de 600 canções, com autorias e ano de lançamento, que foram decisivas na criação da identidade musical da bossa nova. Ou seja, músicas que antecedem o próprio período, compreendido oficialmente entre 1959 e 1965. “São centenas de canções dos anos 30, 40 e 50 que preparam o terreno para a bossa, além de todas as gravações de João Gilberto que não foram criadas para serem bossa.”

A força de Chega de Saudade chegou com intensidade arrebatadora que pouco se viu irradiada por um livro no Brasil. A própria bossa nova estava em baixa, escondida sem orgulho nas memórias dos personagens que participaram do espetáculo. “Por favor, não diga em seu livro que eu sou músico de bossa nova para não complicar a vida ainda mais”, disse anonimamente um dos entrevistados de Ruy. Sem palcos para apresentações, o Rio não apostava no potencial da própria história.

A partir das passagens reais contadas com artifícios de romance, observa-se um impacto na produção musical e uma redescoberta do movimento. Artistas retirados voltam aos palcos, discos importantes são relançados e mesmo nomes como Tim Maia e Rita Lee, que não eram bossa-novistas, incluem bossa em seus repertórios. “Até 1990, ninguém queria saber de bossa nova”, diz Ruy. “Era considerada a música chata, de que só os pais gostavam. Penso que foi a partir do livro que algumas mudanças aconteceram. Tom deixou de ser considerado o chato que só falava de ecologia.”

'Chega de Saudade' dá dimensões justas e costura personagens antes espalhados, que tinham suas histórias contadas quase que sem ligações. João Gilberto, Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Newton Mendonça, Nara Leão, Carlinhos Lyra, Ronaldo Bôscoli, Maysa, Johnny Alf, Sylvinha Telles, Elis Regina, Roberto Menescal. Enfim, a bossa ganhava um mapeamento mais preciso. E, então, começou a ser percebido o efeito inverso. De injustiçada, sem o reconhecimento que merecia até então, a bossa nova passa a monopolizar cruelmente a história musical do País nos anos 1960. “Era como se o livro tivesse dado certo demais”, reflete Ruy.

Ele rebate o que considera equívocos, teorias que afirmam que a bossa nova surgiu do jazz norte-americano, que tudo na música brasileira até o final dos anos 50 acabou desaguando na bossa nova, que a era do samba canção chegou ao fim para que a bossa passasse a existir.

Ruy escreveu A Noite do Meu Bem também para fazer ajustes nas distorções que a força de Chega de Saudade provocara à sua revelia, colocando a bossa nova em evidência inédita desde a diáspora de seus atores principais. Se o livro a elevou às alturas, também provocou cegueira coletiva. O Rio de Janeiro dos 1950 e 60 não vivia apenas de bossa nova.

Em 25 anos e meio, Chega de Saudade contou com 28 reimpressões no formato standard e, até o último dia 10 de março, havia vendido um total de 86.163 exemplares. Os países que já contaram com traduções são Japão, Estados Unidos, Itália, Alemanha e Espanha. A nova edição vai ser distribuída em Portugal pela editora Tinta da China.

Ruy fala com a reportagem sobre sua relação com João Gilberto durante as apurações de Chega de Saudade. Ele rebate duas afirmações ao mesmo tempo: a primeira, de que João não teria falado com ele para o livro e, a segunda, de que João teria lido e não gostado do resultado. Ele diz que fez “seis ou sete” entrevistas com João. “Às vezes, ficávamos quatro, cinco horas ao telefone.” Não houve encontro presencial. “Se eu tentasse marcar um encontro, teria sérios problemas porque poderia não conseguir. Eu simplesmente ligava e ele atendia.” Foi provavelmente na primeira abordagem que ele ganhou sua principal fonte. “Olá João, estou fazendo um livro sobre música popular brasileira”, disse Ruy, evitando o termo bossa nova. João não gostava quando diziam que ele tocava bossa. “Eu toco samba”, falava à época.

Questionado sobre quem seria o maior injustiçado na história, Ruy pensa por um instante e responde: “Newton Mendonça”. O pianista e compositor, que começou a vida ao lado do amigo Tom Jobim tocando em boates no Rio de Janeiro, é um dos criadores da bossa, autor, ao lado de Tom, de pérolas como Desafinado e Samba de Uma Nota Só. Mas morreu jovem, em 1960, aos 33 anos. “A bossa nova estava só começando quando ele se foi. E, então, criou-se uma ideia de que ele era apenas o letrista de Tom Jobim, mas Newton era mesmo um grande pianista. Uma pena que não estava aqui para se defender.” Ruy Castro tem outros projetos engatilhados. O que está mais próximo de sair é 'A Vida Por Escrito: Ciência e Arte da Biografia', sobre a vida e o trabalho dos biógrafos.

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