Marcos Arcoverde/ Estadão
Marcos Arcoverde/ Estadão

Livro ‘Cartas de Amor’ traz a história de Mignone e Josephina

Além da correspondência, obra reúne fotos e textos sobre a relação do compositor e da pianista; lançamento ser na 4ª, em SP

Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

27 Março 2017 | 08h50

Correções: 28/03/2017 | 15h30

RIO - A música uniu Maria Josephina e Francisco Mignone (1897-1986) desde o início. O encanto entre a pianista e professora e o compositor e regente se deu numa aula inaugural seguida de recital, em março de 1964: ele ao piano executando suas famosas Valsas de Esquina, ela, na última fila, deleitando-se. Estavam às vésperas do golpe militar, mas para os dois o tempo era o da delicadeza. Bastou aquele encontro para seguirem juntos pela vida, sempre ao som das melhores notas.

O namoro foi marcado por uma intensa correspondência, entregue em mãos - os dois moravam em um bairro praiano da zona sul do Rio. As missivas ajudariam, mais tarde, a aplacar as saudades durante as viagens de trabalho. Aos 93 anos, Maria Josephina, a Jô de Mignone, está lançando Cartas de Amor, um livrão que reúne, em 405 páginas, além da correspondência, disposta cronologicamente, reproduções de originais, fotos e textos sobre a história dos dois. 

Já na primeira carta, derramava-se: “Jô, meu amor (...) Eu era um ser cético, uma flor sem perfume. Sentia-me como um homem apático em vias de atingir uma velhice pessimista. E você veio. (...) Beijo-lhe as mãos, os olhos queridos e as ‘covinhas adoradas’”. Em outra, definia-se: “Vivo na euforia de tudo o que me vem de você”.

Em São Paulo, o lançamento será no dia 29 de abril, às 18 horas, na Livraria Cultura do Shopping Villa-Lobos (Avenida das Nações Unidas, 4.777 - Piso 2 - Loja 245, tel. 3024-3599), este com direito a apresentação da autora. No repertório, Mignone - como vem sendo nos 30 anos desde sua morte. “Eu pensei: quanta gente já toca Beethoven, Bach, Mozart. Decidi me dedicar à obra dele, tocando, divulgando, gravando”, justifica Josephina, que, jovenzinha, havia sido aluna de piano da primeira mulher de Mignone, Liddy Chiaffarelli, que morreu num acidente de avião em 1962.

Quando conheceu o maestro, a concertista tinha 39 anos e ele, 65; um ano depois, nasceu a filha do casal, Anete. A diferença de idade não pesou, diz Josephina, cujo vigor impressiona. “Francisco Mignone foi um mestre em todos os pontos de vista. Era genial, e tinha a alma tão pura, tão rica em sentimentos, que eu queria que as pessoas conhecessem. O livro ficou interessante, e já tem pessoas interessadas em fazer um filme”, conta a viúva, sem adiantar detalhes.

Desde 1990 ela mantém, com a contribuição de 50 associados, o Centro Cultural Francisco Mignone, uma sala em Copacabana com piano de cauda e 40 lugares sentados, onde já foram realizados mais de 500 concertos, com repertório variado. Faz parte de seu esforço, dividido com a filha, para perenizar a obra. 

Os originais estão guardados na Biblioteca Nacional, que, segundo ela, “sepultou” a obra. “Doei para que os mais jovens pudessem ter acesso às partituras e executá-las, mas não há acesso. Foi a pior coisa que eu fiz”, ressente-se Josephina, referindo-se à dificuldade de se copiar as partituras. Posteriormente, foram disponibilizadas cópias para os interessados por meio da Academia Brasileira de Música. “Este ano serão 120 anos dele e não tem uma homenagem programada. Só se fala dos 130 anos de Villa-Lobos.”

Nascido em São Paulo, filho do flautista italiano imigrante Alferio Mignone, Francisco se fixou no Rio em 1934, depois de estudar, compor e reger na Europa. Foi professor de regência do Instituto Nacional de Música e diretor do Teatro Municipal do Rio. Representante do nacionalismo na música erudita, compôs sob a influência da ritmos populares e da literatura brasileira.

Apelidado “o rei da valsa” pelo amigo Manuel Bandeira, frequentador de seus saraus junto com Carlos Drummond de Andrade, Antônio Houaiss e Alfredo Volpi, tem 1.024 obras catalogadas, a maior parte, para piano solo, mas também óperas, operetas e balés. Com a mulher, se apresentava em duo de pianos. Ainda hoje, Mignone é tocado no mundo todo - é comum chegarem direitos autorais referentes a execuções em países como a Austrália e a Finlândia.

Correções
28/03/2017 | 15h30

Uma versão anterior do texto afirmava que o lançamento em São Paulo seria no dia 29 de março. Na verdade, será no dia 29 de abril de 2017. O texto foi corrigido.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.