PATRICIA CRUZ / ESTADÃO
PATRICIA CRUZ / ESTADÃO

Lívia Mattos lança primeiro álbum autoral e prepara documentário sobre circo

Sanfoneira baiana de 32 anos assina todas as faixas de 'Vinha da Ida', disco que leva seu instrumento para conversar em outros idiomas; show de lançamento será nesta sexta (1), no Estrella Galicia Estação Rio Verde, com participação de Chico Cesa

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

28 de novembro de 2017 | 06h00

A antiga porta de madeira escura que dá direto para a calçada da Rua Clélia não oferece pista alguma do que existe do outro lado. Ela se abre com um rangido e mostra uma escada de poucos degraus de chão frio que parecem preparar a alma enquanto a sala não chega. Uma bicicleta de circo dependurada na parede, quatro sanfonas espalhadas pelo chão, uma panela usada como lustre sobre a mesa e algo vai acontecendo muito rápido. A Lapa já não é mais ali e nem se está mais em São Paulo quando Lívia Mattos conta a sua história.

Sanfoneira baiana de Salvador, 32 anos, Livia é das criaturas que passam alguns anos enchendo o dique até que ele transborde com a força da própria correnteza. Seu primeiro disco autoral, depois de alguns anos como instrumentista de Chico Cesar, sai agora. Vinha da Ida é das mesmas surpresas de sua casa. Depois que se entra pelo Nordeste, descobre-se um mundo maior. Além de instrumentista, ela é cantora e compositora, assina todas as dez faixas e pensa fora dos padrões de um regionalismo ao qual tinha tudo para se amparar com legitimidade. Seu show de lançamento será na sexta (1), às 21h, no Estrella Galicia Estação Rio Verde, em Pinheiros, com participação de Chico Cesar.

Ao mesmo tempo, Lívia corre com dois outros projetos. O primeiro, que trata com urgência, tem a ver com as memórias do circo, sua primeira paixão desde que passou a trabalhar, aos 15 anos, sob as lonas do Picolino, na orla de Salvador. Música no Circo é um registro audiovisual em fase de produção com entrevistas com veteranos músicos de circo, palhaços cantores e cantadores de picadeiro entre 70 e 90 anos de idade, muitos partindo, cheio de histórias de uma cultura nunca documentada. “Quero agora fazer as entrevistas que estão faltando antes que seja tarde”. Assim que finalizar, mostrando também o papel do circo na popularização da música brasileira dos anos 40, 50 e 60, ela pretende lançar o projeto no formato que seja o mais acessível, sobretudo para um público de alunos de escolas fundamentais. Lívia pede ainda que pessoas que conheçam esses cantores enviem contatos pelo site http://www.liviamattos.com/musicanocirco/#convocacao.

A segunda frente é outra vitória. O governo norte-americano criou um programa chamado One Bit, para o qual selecionou 25 músicos de 17 países diferentes para passarem por uma temporada nos EUA. Lívia foi um dos dois brasileiros escolhidos. Por quase dois meses, eles percorreram palcos de quatro estados americanos e fizeram imersões para composição em cenários afastados. “Havia músicos desde Taiwan até o Quisguistão”, ela conta. “Eles acreditam na música como relação diplomática. Se cada um voltar para seu país e reproduzir em sua comunidade o que aprendeu por lá, será um ganho enorme.” Um ganho que Lívia já sente nas teclas da sanfona. Durante a experiência, conheceu uma percussionista colombiana e uma egípcia tocadora de oud, uma espécie de alaúde. As três formaram um grupo e já marcam os primeiros ensaios.

O mundo circense caminha com a música de Lívia. Seu disco tem apropriações dessa linguagem, mais ou menos evidentes. Uma das mais aparentes está em Melodia-a-Dia, com sua linha melódica equilibrista e atravessada pelo rufar de tambores reproduzido pela caixa da bateria. Há um pensamento complexo ali, de trilha sonora, cheio de imprevisibilidades no arranjo, talvez o resultado de uma escolha que ela fez ao juntar no mesmo grupo músicos de sotaques mais regionais com outros de entendimentos mais livres. Sérgio Reze, na bateria, e Filipe Massumi, no violoncelo, ajudam a ampliar o alcance de suas ideias.

A poesia de Lívia tem seus brilhos. Uma das mais delicadas é Os Olhos de Teresa, que ela compôs para a avó. “Os olhos de Teresa / têm mar dentro / uma represa / Os olhos de Teresa / calmos / como quem esqueceu a pressa / Os olhos de Teresa / cinco partos / seis filhos / doze netos / os olhos de Teresa / secretos / novelos / novenas / novelas...” Isso com Toninho Ferragutti no acordeon, além de Lívia, mais a voz e o piano de Zé Manoel, deixa tudo bem bonito.

E foi assim na última quarta-feira, durante um show na Bahia. Lívia estava no palco se preparando para tocar Os Olhos de Teresa quando chamou a própria Teresa para dançar com seu avô, no palco, enquanto ela cantava. Um romance protagonizado por dois amores de 85 anos cada, com trilha sonora ao vivo feita pela neta. “Eu não chorei porque tinha de segurar para cantar, mas muita gente não aguentou.” E seguiu assim, celebrando pelos olhos de sua Teresa o que a vida lhe tem entregado. “Os olhos de Teresa são dois lagos, duas janelas para o mar / Navego a vela o labirinto / por onde vão desaguar.”

Crítica: Álbum oferece à  sanfona uma dimensão mais livre

Vinha da Ida, da Natura Musical, é um projeto pessoal, centrado na criadora, a própria artista. É cada vez mais uma rara condição de músico que compõe todas as faixas e participa da estratégia de lançamento e de detalhes como a apresentação visual. Talvez por ter saído do circo, onde se faz de tudo para sobreviver, a compositora e sanfoneira Lívia Mattos saia ganhando.

Seu álbum coloca o instrumento, tão arraigado aos xotes e xaxados que o fizeram existir no País pós Luiz Gonzaga, em uma esfera mais abrangente. A não repetição de fórmulas, faixa a faixa, revela uma inquietação, uma busca pela afirmação de uma linguagem que ela descobre, um lugar e uma forma sutil para se colocar a voz. O fato de assinar todas as músicas sem nenhuma regravação de refresco aponta de novo para uma vontade de afirmação. 

A abertura é um susto, e já é bom falar dos músicos e da produção de Alê Siqueira. Vinha da Ida, a canção, é cheia, mas pontuada por um belo trabalho de arranjo que agrupa tuba e bombardino de Jamberê Cerqueira, percussões (de Fábio Cunha, Gabi Guedes e Marcelo Pinho), guitarra baiana e cavacolim (de Gabriel Rosário), além de bateria, violoncelo e acordeon. São os bálcans do Nordeste, um espírito de Emir Kusturica com mais pé no chão. Mas tudo pop e, apesar de quebras no tempo, feito para se dançar.

A sequência de Vou Lá, com a participação do multi-instrumentista franco-português Loic Cordeone, deixa entrar outras cores de uma latinidade que dialoga bem com os mixolídios nordestinos. Mais uma vez, é o tempo de Lívia e sua voz sem empostações, quase pequena. 

Olhos de Teresa é a canção onde o acordeon volta para casa. É bela, delicada, e ganha verdade como tudo o que a voz do parceiro e amigo Zé Manoel toca. E ele vai aparecer de novo em Sabia Pouco do Sal. O mesmo faz Deixa Passar, com a formação mais enxuta do disco, apenas de Reze e Massumi amparando a sanfona e a voz que canta algo assim. “Deixa passar, o que ficou de passado / Deixa ficar o que ficou de sagrado.”

Mais Eu tem outras informações. Seu acordeon faz agora riffs pontuando o suingue do que pode ser uma música saída tanto do Norte, de algum canto entre Belém e Macapá, ou direto do Caribe, tudo pelo arranjo de Jurandir Santana. 

Sabia Pouco do Sal quebra tudo de novo e leva o clima para a solidão sertaneja imposta sobretudo pelo sotaque de Zé Manoel, que faz piano também. Zé é um criador de canções dos mais talentosos a surgir nos últimos anos. Seu show recente no Mimo Festival, dentro de uma igreja de Olinda, foi dos mais comoventes da temporada. A composição poderia até ser sua, mas Livia mostra que sabe ser sutil.

O Que eu Quero Levar, criação que Lívia divide com Loic Cordeone, é outra que vem dos ares do Pará. 

A circense Melodia-a-Dia é um primor de arranjo, com muitos músicos, programações eletrônicas, efeitos espaciais e nenhuma poluição, e Sob o Céu Sobre o Chão (com Alguém me Avisou, de Dona Ivone Lara, colocada de forma incidental) tem belos versos, como os que abrem: “O céu / Teto da boca de um planeta / em rotação / Brilha quando chão tem menos luz / menos tensão / ou pra nós dois no São João”. Amarear, no fim, com a voz de Chico Cesar em certo momento, é sua inclinação mais pop. Lívia sabe por onde ir, tem confiança na proposta que cria e sua voz, usada nas extremidades de suas limitações, tem uma graça que se coloca sobre os momentos de fragilidade. É um nome pronto para o voo.

Serviço: Lívia Mattos

Sexta (1º de dez), às 21h.  

Estrella  Galicia Estação Rio Verde.

Rua Belmiro Braga, 119. De R$12,50 a R$25. Tel: 3459-5321

 

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