FLORA GIL
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'Live, às vezes, pode ser melhor do que show', diz Gil

Em alta produção, cantor se prepara para ser a atração principal do Coala Festival ao lado do grupo Gilsons

Julio Maria , O Estado de S.Paulo

10 de setembro de 2020 | 05h00

Aos 78 anos, Gilberto Gil diz que esse poderia ser o tempo da calmaria. Ser pai, avô, bisavô e ter uma obra a contemplar, com alguns anos de Ministério da Cultura no meio, o deixaria naturalmente fora do protagonismo do campo cultural para que fizesse apenas o imprescindível. Mas é justamente por isso, por ter vivido tanto e se esparramado por lados tão diferentes, que os movimentos todos nem são mais uma opção. E é por eles, a família e o passado, que Gil não consegue parar.

Sua agenda, mesmo com as limitações da pandemia, é intensa. Sábado, 12, ele será a atração principal do Coala Festival, onde vai se apresentar, ainda sob as diretrizes das lives, a partir das 20h20 com o grupo Gilsons, uma reunião do filho José Gil com os netos Francisco Gil e João Gil feita em 2018. Antes, irão se apresentar nomes como Mariana Aydar e Mestrinho (14h05) e Novos Baianos (16h55). O canal TNT vai transmitir na TV com exclusividade e, na internet, a exibição será no canal da emissora no YouTube, além de suas páginas no Facebook, no Twitter e no Instagram.

Gil tem ainda uma previsão para lançar as regravações das músicas Parabolicamará e Back In Bahia, que fazem parte da trilha da nova série da Globo, Amor e Sorte, de Jorge Furtado. E, pela primeira vez, assina uma parceria com Ruy Guerra. A música Sob Pressão foi feita para uma segunda temporada da série do mesmo nome, dirigida por Andrucha Waddington, que terá no foco a rotina de hospital público durante a pandemia.

Gil estava também no pequeno grupo de artistas, no qual havia ainda Milton Nascimento e Frejat, que participou de uma reunião remota feita com o secretário de Cultura de Jair Bolsonaro, Mário Frias, para falar sobre um indigesto assunto de interesse de classe: o estudo da suspensão da cobrança de direitos autorais dos hotéis, navios, supermercados, academias de ginástica e uma série de estabelecimentos de mais de 40 tipos de que, de acordo com o entendimento do governo, não deveriam pagar pelas músicas que usam.

“Eu, por mim mesmo, já estaria mais quieto”, diz Gil. “Mas gosto de falar, gosto de estar receptivo no campo das provocações de todos os lados. Isso é o que caracteriza o artista popular.” Ainda assim, diz que já disse mais “sim”. “Estou aprendendo a dizer ‘não’ e tenho dito a mais da metade dos convites, mas tudo hoje provoca acúmulo. O problema é que o corpo e a mente dizem ‘não’ também cada vez mais.” 

Ao Coala, onde vai cantar com representantes das duas gerações que se seguiram a ele, não havia outra resposta. “Eles formaram esse grupo, criaram seu trabalho e estão tratorando o terreno deles. Estar no festival é para isso, ajudar a dar um empurrão nas coisas.”

Se as lives já não são um terreno esgotado e limitador? “Eu sinto a mesma tensão, a velha tensão da performance do artista diante de um aparato técnico mais ou menos qualificado. Mas tenho a mesma sensação de se cantar em um palco de ópera ou em um terreno baldio da feira. Eu gosto, nunca procurei um padrão de qualidade. Sempre gostei de vários padrões de qualidade. Topo paradas mais indigestas mesmo, me acostumei a isso.” Em um momento da longa resposta, Gil compara as lives com os shows presenciais e diz o seguinte: “Muitas vezes, uma live pode ser muito melhor que um show. É muito bom poder estar ali em seu canto, quieto com seu show, como fiz com Iza, eu e ela, vendo suas interpretações. Sou assim, não tenho uma expressão performática, sou mais das ruas, das praças.”

Gil diz que a conversa com o secretário Frias se deu mais como um reconhecimento de atores do que uma busca de definições. A pauta ainda está aberta, mas sua percepção de pensamento do governo com relação à cultura fica cada vez mais clara. “É bastante particularista. A indústria cultural não faz sentido para eles.”

Um dos ministros do setor durante a gestão de Lula na presidência, Gil não consegue responder se, um dia, haverá uma retomada de diálogo entre os setores das artes e o governo. “Existe um desapreço e um desinteresse pela área da cultura. Se isso pode mudar? Não sei. O que vejo é o desenrolar dos conceitos básicos de sua instalação e de seu líder principal.”

Qual seria a chance de uma organização cultural paralela e independente ao Estado ser criada com força e capilaridade no País? “A música popular do Brasil não depende de governo. Mas há um setor aí, de Biblioteca Nacional, cinema, teatro, literatura, que precisa. Ao mesmo tempo, ter um grupo de artistas que vislumbre essa possibilidade também é importante.”

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