Lirismo pop de Marisa Monte chega a São Paulo

"Amor palavra que liberta", já dizia o profeta. Mais do que o uso da sabedoria do profeta Gentileza, que a inspirou para compor uma canção, Marisa Monte emprega seus versos de forma plena na concepção do espetáculo Memórias, Crônicas e Declarações de Amor."Construir música, que é feita de matéria abstrata, de ondas sonoras, é desenvolver um processo criativo repleto de muita versatilidade", analisa a cantora. "É poder trabalhar com grande liberdade intuitiva e organizá-la por meio de recursos técnicos, de linguagens e, especialmente, das idéias de pessoas talentosas."Até o dia 27 em São Paulo, Marisa vai pôr à prova o resultado desse processo, contido no recém-lançado CD Memórias Crônicas e Declarações de Amor (EMI), para o público da cidade. Mas por que à prova? Como ela mesmo diz, "o palco é vida real". Ou seja, uma opção de risco, assim como o amor - temática fundamental nesse trabalho. É nesse clima, cheio de lirismo e novas loucuras, entre elas, a marcante tendência pop, que o show ocorre.Ensaio - "Eu amo ensaiar, dar forma à música, vê-la funcionando intensamente e sentir-me aliviada", afirma. Marisa inovou ao fazer os últimos ensaios, em maio. Ela, a banda e toda a equipe técnica alojaram-se em um galpão da zona portuária do Rio. Montaram todo o cenário e tocaram para uma platéia quase inexistente, mas absolutamente rígida - o próprio elenco e toda a sua autocrítica. "Chegamos a Curitiba muito seguros", informa. "Com muita sede de tocar para a galera." Posta à prova pela primeira vez, a turnê já dava sinais do permanente sucesso. Desde junho, cerca de 90 mil pessoas já assistiram ao espetáculo.O que faz Marisa comunicar-se de maneira tão simples com o seu público é, além da boa estrutura técnica e do marketing saudável e eficiente, a prioridade de cantar com clareza. "Toda a instrumentação tem de potencializar a palavra cantada", acredita. "Para mim, o mais importante é ouvir o que a canção tem a dizer, a sua poesia." Nesse aspecto, Marisa verbaliza tanto a declaração mais coloquial sobre a paixão quanto a crônica romântica antiga que, muitas vezes, mostra-se como seresta.A versatilidade deve-se em grande parte aos 12 anos de estrada, ao convívio com Arto Lindsay e Carlinhos Brown, ao amor pelo samba, ao zelo pela música popular brasileira e outros variados aprendizados. "A quantidade de discos pode não ser grande, mas, a cada turnê, a intensidade de shows me prepara para conseguir essa solidez no palco", conta. "A cada semana, são cerca de quatro shows, que são quatro oportunidades de aproximação com o público, quatro encontros distintos, com novas perspectivas", analisa. "É, de fato, produzir diretamente para o consumidor, sem intermediários."Repertório - Memórias, Crônicas e Declarações de Amor não possui aquele constragimento inicial que marca os shows de muitos artistas. Je t´Aime, muito bem produzida, insere-se no espetáculo como música ambiente. Ao seu fim, Marisa está no palco cantando Amor I Love You, dela e de Brown, vestida satiricamente de noiva. Somente cantando, Marisa estabelece o primeiro vínculo da noite com a platéia, que emocionadamente demonstra que "aceita". Está feito o enlace. Nada o rompe, nem mesmo o término do show.A cada canção, o espetáculo ganha um tom mais pulsante, que o caracteriza extremamente pop. "Essa é a intenção desse trabalho, é a sonoridade que procurava, levar o melhor da música brasileira para o pop", afirma. A interpretação preocupada com a palavra ganha cor com a percussão privilegiada - composta por três músicos - , as cordas pesadas da guitarra de Davi Moraes e, sem dúvida, pela dança das mãos de Marisa. Fato que rende à intérprete e compositora elogios calorosos. Assim, segue cantando "Eu Te Amo... Eu Te Amo...Eu Te Amo", de Roberto Carlos e Erasmo Carlos, Arrepio, de Carlinhos Brown, Perdão Você, de Brown e Alaim Tavares, e O Que Me Importa, de Cury (mas originalmente foi gravada por Tim Maia, em 1972).Marisa interrompe o clima dançante do espetáculo com a interpretação de Pra Ver as Meninas, de Paulinho da Viola, seguida por Gotas de Luar, dos mestres Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito. Decididamente, ela tem vocação plena para cantar samba. Com Água também É Mar, sua, de Brown e Arnaldo Antunes, a cantora retoma a veia pop, tocando guitarra - que a acompanhará em outros números. "É uma forma de indicar como muitas canções nasceram, ou seja, de um convívio caseiro e melodias tiradas de um violão", conta.A galera sorri fácil ao ouvir Enquanto Isso, parceria com Nando Reis. Eu Sei inicia o grande ápice do show. Logo após canta Não É fácil, sua, de Brown e Antunes, e Beija Eu, que ganha mais charme com a incidental de Music and Me, sucesso na voz de Michael Jackson. Novamente, ela retoma o lirismo ao emprestar a voz para Ontem ao Luar, de Pedro de Alcântara e Catulo da Paixão Cearense - do início do século.Marisa canta ainda Soul by Soul, do disco de Omelete Man, de Carlinhos Brown. Pratica cidadania ao interpretar Gentileza. Palavras ao Vento, parceria com Moraes Moreira, precede Tema de Amor(feita com Brown) e Não Vá Embora(com Antunes) - último número antes do bis. As demais, surpresas. Ao fim, o romantismo paira. Casais vão embora felizes querendo ouvir Amor I Love You.Marisa Monte - Quinta-feira, às 21h30; sexta e sábado, às 22 horas, e domingo, às 20 horas. De R$ 40,00 a R$ 120,00. DirecTV Music Hall. Avenida dos Jamaris, 213, tel. 5643-2500. Até 27/8.

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