Linha de frente do pop elege Max de Castro

Samba Raro, início de 2000. Há pouco mais de um ano, o compositor Max de Castro, por meio do primeiro disco, fincou suas idéias na música popular brasileira. Até agora, ninguém as desatou. O nó é forte e está servindo como referência para a produção pop nacional deste ano. Paula Lima, Kid Abelha, Roberto Frejat, Lobão, Leandro Lehart, Xis e o cantor japonês Miyazawa são, por enquanto, os nomes que já beberam (ou estão bebendo) na fonte de Samba Raro. Ele produziu parte dos trabalhos desses artistas, alguns a serem lançados ainda em 2001.A produção de três músicas do primeiro CD-solo de Roberto Frejat, líder do Barão Vermelho, partiu de Samba Raro. "Ele ouviu o meu disco, gostou muito e logo me convidou para produzir as faixas. Trocamos muitas idéias", conta Max. A outra parte da produção será feita por Tom Capone e o lançamento está previsto para junho. "Eu sei que Frejat está querendo uma sonoridade soul. Apesar de ele ser de uma geração da década de 80, do rock, e de ser um guitarrista excelente, tem boa formação de música negra. Não só de blues, mas uma influência de James Brown e outros, assim como do soul brasileiro, como Jorge Ben", comenta.Referências - Há alguns pressupostos para o encantamento de uma geração - anterior à de Max - com "Samba Raro". Um deles talvez seja a maneira como manipula a música. O primeiro disco foi produzido, arranjado, composto e tocado por ele. Mas não é exatamente isso que o destaca como uma revelação de 2000. Não sendo servil à tradição da MPB, o compositor atinou para um caminho próprio, que faz uso de referências determinantes na música popular nacional, como Jorge Ben, Baden Powell e Chico Buarque, e as reverencia. Entretanto, esse substrato está diluído e reprocessado.Música reprocessada por meio de recursos eletrônicos como samplers também foi outro pressuposto para designar Max como revelação. Porém, ele desacata o rótulo de DJ. "Sempre associam o meu trabalho à cena eletrônica (em 2000, DJ Patife fez um remix da sua música Pra Você Lembrar, que estourou na cena drum´ n´ bass de Londres). Eu acho legal, mas não quero ficar preso. O que me move é sempre poder surpreender as pessoas", afirma. "Posso usar música eletrônica, acústica, ou só violão e voz."Max conta que, depois de Samba Raro, tudo ficou mais tranqüilo dentro do estúdio. "Eu tinha uma ansiedade maior e hoje estou muito mais calmo, facilitando na hora de produzir alguém", diz. Ele pôde sentir essa mudança ao produzir o CD de estréia em carreira-solo da cantora Paula Lima, previsto para sair ainda neste semestre, e também o álbum Solo, o primeiro de Leandro Lehart, vocalista do grupo Art Popular, no mercado desde janeiro.O disco de Paula Lima, que está pronto, começou a ser produzido em novembro. "Me orgulho muito desse trabalho. Conheço a Paula há muito tempo e me surpreendi bastante. Tirando um pouco da ansiedade de gravar o primeiro disco, ela sabia o que queria e critério é primordial para uma boa produção", diz ele. Max conta que Paula usou seu grande instrumento musical, a voz, para interpretar músicas não apenas do universo black. "Um dos nossos principais cuidados foi de o mostrar que a Paula é uma cantora completa. É óbvio que tem músicas nessa praia, porque ela canta soul há dez anos. As pessoas vão ver a Paula cantando um samba tradicional, uma canção do Martinho da Vila." O aguardado disco de Paula trará as participações de Gérson King Combo e Ed Motta.Já as relações com o Kid Abelha e o cantor japonês Miyazawa ficaram restritas à esfera profissional. Não é de hoje que Miyazawa, líder da banda The Boom, tem afinidade com a música brasileira. No primeiro CD-solo, contou com a participação de Lenine e Carlinhos Brown. Max, também por causa da boa repercussão do seu disco na cena internacional, é um dos colaboradores do segundo trabalho.Com o Kid Abelha, ele produziu duas faixas do novo CD do grupo. Os outros produtores foram Memê e George Israel, integrante da banda. "Foi, de fato, um desafio. As músicas do Kid são bem resolvidas, de absorção instatânea, baseada na combinação musical do Israel com as letras da Paula. O desafio está em não perder de vista essa forma pop. Mesmo que a produção seja o enfeite do bolo, estou feliz de colocar um Alien nas rádios", diz. Outra característica dessa produção foi a espontaneidade dentro do estúdio, apesar do processo ter sido diferente para Max, pois nunca havia produzido uma banda. Esse deve ser o princípio de seu próximo disco. "Quero gravar um disco sem parecer estar gravando. Por exemplo: na semana que vem se eu tiver uma idéia e o Naná Vasconcelos estiver por aqui, a gente entra no estúdio e grava. Se ficar legal, ótimo. Senão, valeu pelo encontro. Neste ano, praticamente entrei todos os dias no estúdio. É a mesma coisa que estar em casa. Essa espontaneidade é bacana e tem acontecido em todos esses trabalhos."

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