"Like a Virgin" de Madonna chega aos 20

Há 20 anos Madonna era apenas uma garota que ousou desafiar os puritanos da era Reagan rolando pelo palco vestida de noiva e cantando Like a Virgin, seu primeiro grande sucesso. É exatamente esse o título do documentário que o canal GNT exibe hoje, às 21 horas (canais/operadoras SET, 41 e SKY, 41). Veja e vai entender o que se passou na década de 80 do século passado. Hoje, a virgem casou algumas vezes, teve filhos e, aos 46 anos, é uma empresária bem-sucedida. Madonna virou, enfim, uma senhora respeitável, rica e poderosa. No ano de 1984, enquanto Like a Virgin tocava em todas - todas mesmo- as rádios, Reagan vencia a eleição para presidente em 49 Estados americanos e os Estados Unidos experimentavam uma euforia econômica jamais vista. Emergiam os yuppies e a chamada geração X. Madonna veio junto do pacote, cantando a virgindade com tanta convicção que ninguém poderia imaginar o que viria depois - e, a uma altura dessas, não é preciso lembrar o que ela fez com garrafas, charutos e outros objetos em suas escandalosas turnês mundiais (Brasil incluído). O documentário é quase um ensaio sociológico sobre os jovens americanos que viraram quarentões na virada do século. Bill Steinberg, co-autor de Like a Virgin, não tinha a menor idéia da revolução comportamental que uma simples canção podia provocar. A bem da verdade, nem mesmo sabia como Madonna Louise Ciccone, vinda de Bay City, Michigan, pretendia conquistar a Nova York com uma música tão idiota. Steinberg ri, visivelmente constrangido pela mediocridade da letra que escreveu por encomenda de Madonna. Madonna, como boa marqueteira que é, parece ter planejado tudo, do sutiã-torpedo de Gaultier ao visual falsamente "trashy" copiado por todas as adolescentes americanas da época de Like a Virgin. Uma estilista com vocação para cientista social analisa essa influência no documentário: Madonna cresceu com o mundo fashion, mas não era assim tão boba. Lançou modelitos de Gaultier e Dolce & Gabanna para serem copiados por qualquer garota de rua. Contra o visual careta, propôs o modelito vagabunda "ma non troppo": a lingerie negra substituiu as roupas de cima e o sagrado crucifixo virou bijuteria sobre o liberado corpo da "material girl". Madonna ensinou às meninas que podiam ser duronas, empresárias e, acima de tudo, sensuais. Se ela, órfã aos 6 anos, filha de um metalúrgico, conseguiu confrontar o mundo, provocar a ira da Igreja e ainda ganhar algum dinheiro com isso, qualquer garota americana poderia fazer o mesmo. Bem, nem todas têm a mesma sorte (ou o corpo) de Madonna, que chegou a Nova York com uma malinha na mão, desembarcou em Times Square e logo encontrou um bom samaritano disposto a ajudá-la - sem sexo em troca, garante. É difícil acreditar, vendo Madonna vestida de noiva e provocando a platéia do Radio City Music Hall (no show Like a Virgin) com um simulacro de masturbação. O público delirou: 17.600 pessoas esgotaram em meia hora os ingressos para as três noites do show. Não se deve esquecer que o show foi realizado quando a aids ainda estava associada a comportamento sexual promíscuo. Madonna faz parte de uma geração que viu o vírus da doença transformar uma celebração vital (o sexo) em ritual funerário. Analisado por esse ângulo, o ambiente erótico criado pela cantora no palco - muito semelhante a um bordel - representou uma transgressão violenta dos padrões de comportamento. É isso o que discutem os entrevistados de Like a Virgin. Apesar de tudo, um documentário puro como uma virgem.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.