Henry Nicholls/ Reuters
Henry Nicholls/ Reuters

Liam Gallagher acaba de lançar seu ‘Acústico MTV’

Novo trabalho lembra antiga história, quando o cantor não apareceu na gravação do ‘Unplugged’ do Oasis, em 1996

Lindsay Zolad, NYT

21 de junho de 2020 | 05h00

Até recentemente, para os fãs do Oasis, as palavras Liam Gallagher e Acústico MTV traziam à mente um dos episódios mais famigerados e sombriamente hilários na história da banda.

Durante a maior parte de 1996, os reis do pop britânico desfrutaram de um longo triunfo após o lançamento do seu sucesso de 1995 (What’s the Story) Morning Glory. O verão interminável do Oasis culminou em agosto na Knebworth House, um enorme espaço ao ar livre onde o grupo realizou dois concertos para 125 mil pessoas cada noite. Algumas semanas depois, a banda teria um show consideravelmente mais íntimo, no Royal Festival Hall, no South Bank de Londres, para um episódio da série de performances acústicas da MTV.

Os ensaios foram agitados, com o vocalista da banda, Liam, aparecendo apenas esporadicamente – barbudo, usando a mesma roupa por vários dias, apontando para sua garganta e depois saindo do set e deixando seu irmão Noel, compositor, para cantar suas músicas. Na noite da gravação, uma hora antes de a banda subir ao palco, Liam oficialmente se afastou, citando um problema de laringite. Mas o show seguiu em frente. “Liam não estará conosco esta noite”, disse Noel para o público. “De modo que vocês vão ter de aturar os quatro feios.”

Noel não tem o alcance de voz do seu irmão mais novo – ela é mais melancólica, sincera e de vez em quando trêmula –, mas esteve mais do que à altura da tarefa de liderar o Oasis na noite. Foi comovente ouvi-lo superando suas limitações como vocalista e interpretando aquelas músicas excelentes como as compôs, sentado ali, humildemente, com sua guitarra acústica.

O show do Oasis no Acústico MTV continua um clássico da série, não só por causa de Noel, mas porque a garganta de Liam aparentemente sarou a ponto de ele assistir ao show da plateia, onde fumava um cigarro atrás do outro, bebia cerveja e importunava seu irmão. A rivalidade shakespeariana dos Gallaghers, condensada num único espetáculo.

Essa rivalidade continua. Desde que Noel deixou o Oasis em 2009, ele e o irmão continuaram seu duelo em carreiras solos. O High Flying Birds de Noel Gallagher seguiu um caminho mais de vanguarda, com seu mais recente álbum, Who Built the Moon? em que faz experiências com a arte psicodélica.

Primeiramente com seu grupo Beady Eye e, desde 2017, como artista solo, Liam vem se juntando a outros compositores para fazer música que evoca o espírito sonoro do pop britânico da década de 1990. “Eu ainda não confio em mim como compositor”, disse ele à revista Rolling Stone no início deste ano, com uma surpreendente aceitação de suas próprias limitações. “De modo que passo a tarefa para pessoas que sabem o que estão fazendo. Eu poderia compor um álbum, mas acho que ele nem mesmo chegaria a uma rádio, sabe o que quero dizer? Quero que as pessoas ouçam.”

Liam, certamente, teve um público cativo no Hull City Hall no ano passado, quando Gallagher, finalmente, gravou seu próprio programa do Acústico MTV. Seu próprio website descreve de modo hilário a gravação: “Liam Gallagher veio se juntar à lista dos grandes de todos os tempos (Paul McCartney, Jimmy Page e Robert Plant, Nirvana e muitos mais) que gravaram uma sessão no prestigiado Acústico MTV, nunca perdendo a oportunidade sutil de fazer sombra para seu próprio irmão. Entre cada música, a multidão irrompe aos gritos de ‘Liam! Liam!’, como se fosse uma partida de futebol”.

Os dois álbuns solos de Liam, As You Were, de 2017, e Why Me? Why Not, de dois anos depois, trazem músicas aproveitáveis compostas amplamente por compositores pop em demanda. Greg Kurstin e Andrew Wyatt (Adele, Lady Gaga), mas com frequência são gravadas em estúdios revestidos que suavizam a voz rouca de Gallagher. Os arranjos para o Acústico MTV de vez em quando estão abarrotados de cordas, mas prefiro mais o material de estúdio, uma vez que permite que os grunhidos sem adornos da voz de Gallagher cheguem altos e claros.

Quando o Oasis surgiu na cena artística em 1994 com Definitely Maybe, o rock britânico não ouvia um tipo de som mais relevante desde Johnny Rotten e a história pregressa dos irmãos só confirmou a tensão já evidente em sua música. A tonalidade vocal de Liam faz com que a música soe como se fosse uma guerra que ele trava com as palavras e melodias que está entoando. Mas alguma coisa na sua voz também tem um vestígio da esperança obstinadamente sincera. “Você e eu vamos viver para sempre”, diz em Live Forever.

As mais potentes músicas solos de Gallagher, contudo, lutam com o fato de que ele não corresponde. Um exemplo é Once, composta por Wyatt, uma balada sobre a vida ajustando contas com você. “Quando a alvorada surge, você fica tão inspirado a fazer tudo de novo.” Liam canta falando da sua juventude, seus dias despreocupados. “Mas acontece que você só pode fazer isso uma vez.”

Mas o público e a gravação ficam mais animados quando Gallagher canta alguns velhos clássicos do Oasis. Como o Acústico geralmente é considerado um assunto sério, a lista de músicas incorpora aquelas mais calmas como Morning Glory, Cast No Shadow e Sad Song, lado B de Definitely Maybe, algumas das poucas músicas da banda em que Noel é o vocalista. (Liam traz o ex-guitarrista do Oasis Paul “Bonehead” Arthurs como convidado nessas faixas – antes de apresentações solos na noite fazendo referências ao Great Heckling de 1996 –, dedicando Once ao músico que fez o Acústico MTV... duas vezes.)

O melhor de tudo são a interpretação, conduzida pelo piano, de Some Might Say, e o grupo cantando Champagne Supernova no encerramento. São alguns minutos sem os solos altíssimos da banda (Noel e Paul Weller tocam guitarra na gravação).

Será que um dia Liam e Noel estarão de novo juntos no palco? A resposta pode estar em Champagne Supernova: “How many special people change? / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

 

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