WERTHER SANTANA/ESTADÃO
WERTHER SANTANA/ESTADÃO

Lia Sophia lança álbum pronta para 'romper as bolhas' do próprio meio

Cantora que nasceu na Guiana Francesa chega com 'Não me Provoque', álbum que traz Ney Matogrosso, Sebastião Tapajós e Paulinho Moska; disco tem potencial para torná-la um rara caso de artista de massa forjada no meio independente

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

15 Dezembro 2017 | 06h00

Cinquenta reais por duas horas de música. O lugar não era nenhum Copacabana Palace e os clientes pareciam mais carentes do sexo das meninas de saias curtas do que do amor nos boleros e nos sambas-canção entregues com empenho pela cantora da casa. Mas dinheiro era dinheiro e, até aquele momento, Lia Sophia, uma ex-vendedora de Enciclopédia Barsa, ganhava R$ 60 mensais como frentista de posto de gasolina. Estar em um palco por R$ 50 a cada duas horas, ainda que fosse o de uma casa de carícias sem fachada nem memórias de Belém, seria o começo da primeira virada de sua vida.

Seu apartamento nos Jardins é iluminado, de paredes e cortinas brancas, muitos violões dependurados e sem sinal dos tempos difíceis da infância no Norte. O sorriso tem a leveza sem o esforço e a fala é firme e articulada sobretudo quando ela defende seu álbum mais recente. Não Me Provoca é um título que faz ainda mais sentido quando se sabe de que chão Lia Sophia saiu. Sem pudores de ser abrangente em seu carimbó de pista, e com uma linguagem de aproximação maior da região que a viu crescer quando comparado com seus quatro discos anteriores, o álbum produzido por Pedro Luis, com presenças de Ney Matogrosso, do violonista Sebastião Tapajós e do cantor Paulinho Moska, pode ser o começo da terceira virada de sua vida.

Mesmo sem estar em uma gravadora de grande porte, o potencial de comunicação de sua música e a produção que a envolve têm tamanho para romper as bolhas que fragmentaram o meio musical e fazê-la uma rara cantora de massa criada por vias alternativas. “Ser popular me traz prejuízos”, ela diz. “Acabo não circulando nesses meios alternativos e algumas portas se fecham. Nunca fiz festivais indie, por exemplo.” Ao mesmo tempo, por lançar o trabalho pelas próprias mãos, a produtora Vida Criativa, falta ainda calibre de investimento que a coloque em pé de igualdade com cantores sertanejos ou artistas top da cadeia alimentar. “Eu não tenho o dinheiro que essas pessoas têm para pagar jabás”, ela diz, com uma naturalidade sem freios ao se referir à prática do dinheiro investido em mídia em troca de execuções massivas. Sobre as bolhas, enumera. A primeira: “Há uma pressão hoje para que o artista se posicione politicamente. Se não fizer isso, ele será um alienado. E eu não politizo minha música, não a faço panfletária. Isso está criando uma bolha.” A segunda: “Eu canto com posicionamentos do ponto de vista feminino, como na música Ela (com Ney), mas não faço música feminista. E olha que sou a diretora do meu disco e compus oito das onze faixas, sendo que as outras foram feitas também por mulheres. Não quero entrar nesta outra bolha.” E a terceira: “As pessoas gostam de regionalizar artistas que não são de São Paulo. Não faço música regional, faço música brasileira. Meu sonho é fazer com que o carimbó ganhe o status do forró, que deixou de ser música do nordeste para se tornar de um País.”

Se tivesse outra história, talvez a palavra sonho saísse de seus lábios com mais leveza. Lia Sophia aprendeu logo que havia na vida uma força de realização relativa ao tamanho daquilo que se deseja. Seus pais passavam necessidades básicas em Macapá, no final dos anos 70, quando decidiram deixar tudo para conseguir algo melhor na vizinha Guiana Francesa. Estava ruim, ficou pior. A família armou uma barraca de lona na beira de um morro na cidade de Caiena e passou um tempo sentindo a dor da fome. O pai de Lia sentava-se no chão com as pernas cruzadas e a colocava no colo para não deixar que as formigas fizessem um banquete com a filha. Quando a mãe grávida foi levada ao hospital para tê-la, não havia roupa para vestir a criança. Lia guarda até hoje a toalha que a protegeu naquele dia. O batismo foi decidido pelo santo do dia: ficou Liá Sophie, já que era dia de Santa Sofia.

A família voltou para Macapá e os dias melhoraram. O pai já havia conseguido, em Caiena, uma máquina de solda e começado a fabricar cadeiras com fios plásticos conhecidos como macarrão. Em Macapá, abriu uma livraria. Aos 15 anos, Lia seguiu para Belém e, dois anos depois, decidiu ser psicóloga. A mãe extirpava seus anseios no nascedouro, eliminando qualquer fagulha que a levasse para uma carreira artística. “Jamais, isso não é vida, é profissão de marginal”, dizia. Lia, devidamente traumatizada com a vida das cantoras, formou-se em psicologia na Universidade Federal do Pará, mas jamais exerceu. Saiu então para vender fascículos da enciclopédia Barsa em escolas públicas e, tempos depois, conseguiu um emprego de frentista em um posto de gasolina.

As amigas a viram com um violão nas mãos e perceberam que aquela voz não era normal. O primeiro emprego que conseguiu foi em um bordel. “Só pedi que a dona dissesse aos clientes que eu não era uma das meninas.” Os boleros e os hinos dos times de futebol Paysandu e Remo lhe davam um dinheiro extra aos R$ 50. “Eu tocava e os senhores adoravam. Cheguei a sair com R$ 600 de caixinha.” A dona, de olho em seu enriquecimento paralelo, quis cortar o fixo. Lia bateu o pé e manteve o ganho. Seus primeiros fãs, clientes grisalhos das jovens profissionais do amor, não admitiriam outra cantora.

Lia começou a colocar músicas próprias na lista e a se tornar famosa no circuito de bares de Belém. Quando percebeu, tinha material para um disco inteiro e Livre se tornou seu primeiro disco. Antes, um EP trazia a música Ai Menina. Um produtor da Globo a ouviu pela internet e ligou, querendo a canção para a novela Amor, Eterno Amor. A segunda virada de Lia Sophia a espalhou pelo Brasil e triplicou o número de seus shows. “Pedro Luis me falou sobre Lia. Sua música tem um discurso que eu apoio plenamente”, diz Ney Matogrosso. “Lia é feliz e sua música reflete sua alegria”, fala Paulinho Moska. “É um dos maiores talentos que temos no Norte. O País precisa conhecê-la”, diz Sebastião Tapajós.

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.