REUTERS|Valentin Flauraud
REUTERS|Valentin Flauraud

Leonard Cohen morre aos 82 anos – depois de prometer viver para sempre

Poeta, escritor, compositor e cantor morreu na casa onde morava, em Los Angeles, nos Estados Unidos, na segunda-feira, 7, de acordo com o jornal Washington Post

Pedro Antunes e Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

11 de novembro de 2016 | 09h58

(Atualizado às 14h31)

“Eu disse que estava pronto para morrer”, disse Leonard Cohen, há um mês, a respeito da entrevista concedida por ele à revista norte-americana New Yorker pouco tempo antes. “E eu acho que estava exagerando. Sempre tive apreço pela auto-dramatização. Minha intenção é viver para sempre.”

Leonard Cohen prometeu estar por aqui até os 120 anos. “Ficarei por aqui por muito tempo”, afirmou em outubro. Um mês depois, Cohen "descumpriu" sua promessa. O cantor, compositor, poeta, escritor morreu na casa onde morava, em Los Angeles, nos Estados Unidos, aos 82 anos.

De acordo com o jornal Washington Post, o canadense morreu na segunda-feira, 7. O corpo do cantor e composior foi enterrado numa cerimônia pequena e restrita a familiares e amigos mais próximos em Montreal, no Canadá. A confirmação foi dada pela biógrafa de Cohen, Sylvie Simmons, cujo livro I’m Your Man, saiu nos Estados Unidos em 2012 e chegou ao Brasil em abril deste ano. 

O perfil de Facebook da Sony Music canadense teve o papel de avisar o restante do mundo. “É com profunda dor que noticiamos a morte do lendário poeta, compositor e artista Leonard Cohen”, diz o texto publicado na rede social. “Perdemos um dos músicos mais reverenciados, prolíficos e visionários. Um memorial para ele será realizado em Los Angeles em uma data ainda a confirmar. A família pede por privacidade durante esse período de luto.” 

REPERCUSSÃO: "Acordei com notícias mais tristes. Leonard Cohen era único - um gigante e um compositor brilhante", lamenta Elton John

A causa da morte ainda não foi informada. “Meu pai morreu em paz”, contou o filho dele, Adam, em um comunicado enviado à revista Rolling Stone norte-americana. “Ele tinha compreendido que havia completado aquilo que ele considerava ser um dos seus melhores discos.”

Adam Cohen cita You Want It Darker, o décimo quarto disco de estúdio (e agora último) do canadense, que chegou às lojas em 20 de outubro. “Ele estava colocando palavras no papel até seu último momento, com aquele humor dele de sempre.” 

A morte de Cohen foi comentada pelo primeiro ministro do Canadá, Justin Trudeau, em comunicado. "É com grande pesar que soube hoje da morte do lendário Leonard Cohen", escreveu. No Twitter, Trudeau afirmou que a "música de nenhum outro artista foi sentida ou soou como a de Leonard Cohen. E ainda assim, seu trabalho ressoou através de gerações. O Canadá e o mundo vão sentir muitas saudades".

Nascido em 21 de setembro de 1934, em Westmount, em Quebec, Cohen veio de uma família judia com bastante tradição. Neto do fundador do Congresso Judeu Canadense. A religião sempre esteve presente, seja no judaísmo da infância às influências católicas e budistas adquiridas ao longo da vida – embora, já com a idade avançada, dissesse que a religião não ocupava tanto os seus pensamentos. 

+ LEIA MAIS:  Jeff Buckley, Bob Dylan, Rufus Wainwright: 9 versões de ‘Hallelujah’, a música mais célebre de Leonard Cohen

Filho do dono de uma loja de trajes formais, Leonard Cohen não se deixava mostrar desleixado. Apresentava-se, sempre que a temperatura ambiente permitia, com seus ternos bem alinhados. Mesmo que a situação não pediam a pompa. Trazia um mistério ao personagem tão difícil de se decifrar. Escritor? Cantor? Poeta? Compositor? 

Cohen viveu seus 82 anos sendo tudo isso. Nunca foi só escritor. Nunca foi só músico. Nunca foi só um interessado na ligação entre o homem e a espiritualidade. Nunca foi alguém de se prender a qualquer amarra, a não ser aquelas impostas por ele mesmo – sua necessidade pela solidão, pelos silêncios e o apreço pelo exílio dão conta disso. 

“Trata-se de uma pessoa que vive em uma dualidade constante. Vive entre uma forma e outra. Ele ama escrever, mas, enquanto está escrevendo, perdia esse amor e queria compor música. E quando fazia música, queria fazer outra coisa. Era sempre uma tortura”, disse Sylvie Simmons ao Estado, em abril.

Literatura. A primeira carreira artística oficial de Cohen começou em março de 1954, quando ele publicou poemas em uma revista de Montreal. Em maio de 1956 (11 anos antes de seu primeiro álbum), ele lançou Let Us Compare Mythologies, uma reunião de 44 poemas. Influenciado pelo avô (rabino e escritor) e pelo trabalho de García Lorca, a sua obra inicial apresentava a mistura particular entre mitologia e hedonismo que seria uma de suas marcas.

Seu segundo livro de poemas, The Spice-Box of Earth, veio algumas peregrinações e cinco anos depois, em 1961, e teve reação crítica ainda mais positiva e os prêmios literários se tornaram rotina. Ele tinha 27.

Dois anos depois, 1963, veio seu primeiro romance publicado: A Brincadeira Favorita (a Cosac Naify publicou no Brasil em 2011). Seu romance seguinte, o último até hoje, veio em 1966 com o brilhante título: Beautiful Losers. Ele aqui atingiu o seu ápice de construção literária barroca.

Cohen escolheu espraiar sua força criativa na música – mas o que esses dois livros provam é que se ele não tivesse escolhido ser o Bob Dylan de Montreal, hoje ele poderia ser o Philip Roth canadense.

Música. Ele mudou de direção quando percebeu que a literatura não lhe enchia os bolsos -- pelo menos não o suficiente.

Um ano depois de Beautiful Losers, chegou às pratelerias Songs of Leonard Cohen, o primeiro dos seus 14 discos de estúdio, já com as marcas que ele exploraria até os limites: letras criativas sobre amor e morte, um passeio pelo folk, o violão carregado, a voz, primeiro anasalada, mas sempre inconfundível, e que se transformaria naquele barítono da parte final de sua vida.

Interessado em blues, folk e música francesa desde muito jovem, Cohen foi recrutado pelo célebre John Hammond (que também descobriu Billie Holiday, Bob Dylan e Bruce Springsteen), e no início da carreira era um performer bastante tímido. Seu primeiro "hit" foi Suzanne, que primeiro chegou ao público na voz de Judy Collins, e entre os anos 1960 e 1980 ele experimentou sucessos de tamanho variados, sem dúvida angariando um séquito fiel de fãs e admiradores.

Cohen viveu no lado mais escuro do pop, nas sombras. Nunca teve uma música cantada por ele capaz de entrar na parada de Top 40 dos Estados Unidos, por exemplo. É claro, faixas como Bird on the Wire, Hallelujah, First We Take ManhattanSuzanne ganharam versões icônicas, nas vozes de outros artistas -- e a lista vai desde Nina Simone, passando por Johnny Cash e até o R.E.M. 

A capacidade de juntar palavras e, com elas, transpirar dor, solidão, saudade, amor e gozo, credenciou Cohen à comparação com Bob Dylan, fã declarado do canadense. "Seu talento ou gênio está na sua conexão com a música das esferas", Dylan disse à revista The New Yorker recentemente. "São grandes canções, profundas e verdadeiras como sempre, e multidimensionais, surpreendemente melódicas, e elas fazem você pensar e sentir."

+ 14 canções de Leonard Cohen, uma de cada disco

Seus três primeiros discos, Songs of Leonard Cohen (1967), Songs from a Room (1969) e Songs of Love and Hate (1971), fundamentaram aquilo que Cohen mostraria, às vezes com mais intensidade, às vezes menos, no restante da sua carreira de quase 50 anos como músico.

Liricamente, era um contador de histórias, tramas e pequenos momentos preciosos nos quais as músicas ganham movimento, vida, diante dos olhos de seus ouvintes. O detalhismo e o tino pela narrativa já escancarado na carreira literária completavam a fragilidade especial de uma voz de quem nunca foi, de fato, um exímio cantor.

Uma dualidade complementar. As palavras, às vezes sussurradas, noutras, gritadas, seguem, uma a uma, como um frame pronto para contar sua história. Songs of Love and Hate, de 1971, escancarava a maturidade de um artista, embora em seu terceiro disco, já próximo dos 40 anos - Cohen tinha 37. O frescor da música na vida dele e a motivação pela experimentação encontravam um homem já quebrado pela vida, com erros e acertos acumulados. Ressentimentos e amores.

Não é por acaso o título do trabalho. Amor e ódio, tão díspares, embora intensos, puxam o ouvinte pelo braço. Transformam-nos em um cabo de guerra indelicado no qual, a cada nova canção, pendemos para as lágrimas ou para o prazer. Um disco iniciado com Avalanche, uma perturbadora e sombria canção guiada por um violão em dedilhado veloz e atormentada pela voz soturna de Cohen e arranjos de cordas, deve estar entre os melhores de qualquer artista.

Curiosamente, uma de suas fases mais prolíficas foi após os 70 anos -- quando ele lançou nove discos, vários com material novo. Isso aconteceu após sua empresária de muitos anos, e ocasional amante, Kelly Lynch, ter sumido com a maior parte do dinheiro que ele havia acumulado em 40 anos de carreira. Aos 74, Cohen passou por cima de qualquer orgulho, fez as malas e embarcou em uma turnê que percorreu o mundo -- os relatos dos shows, que muitas vezes chegavam a três horas de duração, são impressionantes.

Sua última investida na canção foi o álbum You Want It Darker, lançado há 20 dias, no final de outubro de 2016. Um título, "você quer mais sombrio", que soa como um desafio. "Veja o quanto sombrio eu posso chegar se quiser", parece dizer Cohen. 

Não há medo do fim ali. Assustadoramente, Cohen condensa a próximidade da morte em metáforas delicadas, até mesmo em canções de desamor. Leaving The Table é um canto sobre assumir a derrota. "Estou fora do jogo", diz ele. Não é tão genial quanto David Bowie, também morto em 2016 dias depois de lançar o disco derradeiro, Blackstar, na arte de esconder as pistas sobre o fim da própria vida.

Mas porque Cohen nunca precisou esconder. Sua dor vem justamente ao ser escancarada. Jogada na cara, como um tabefe bem recebido na bochecha. "I'm ready, meu Senhor", anuncia ele já na faixa de abertura do disco e responsável por lhe emprestar seu nome. 

+ LEIA MAIS: Ouça uma das últimas entrevistas de Leonard Cohen

O álbum inteiro funciona como esse último trabalho de ruminar e, enfim, digerir as questões que ficaram soltas em seu passado. Aparrar as pontas, na medida do possível. Ao fim de 36 minutos, com String Reprise / Treaty, ele aceita que algumas derrotas ficarão na sua contagem.

"I wish there was a treaty we could sign / It's over now, the water and the wine / We were broken then but now we're borderline / And I wish there was a treaty, I wish there was a treaty between your love and mine", sussura ele, após minutos instrumentais.

Cohen talvez sempre soubesse do que o fim estava próximo. Despediu-se com a elegância, com seu terno escuro e chapéu estampados na capa do seu décimo quarto disco. Ingênuos fomos nós, por querer acreditar que ele, de fato, estaria por aqui até seus 120 anos. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.