Grzegorz Michalowski|EFE
Grzegorz Michalowski|EFE

Leonard Cohen, ícone na literatura e na música, ganha biografia capaz de decifrar sua complexidade

Livro ' I’m Your Man', escrito pela jornalista Sylvie Simmons, chega agora ao Brasil

Pedro Antunes, O Estado de S. Paulo

25 Abril 2016 | 05h00

Foram três tardes diante daquele homem. Vestia-se impecavelmente, assim como em seus shows ou em aparições ao vivo. Terno preto, bem alinhado, nariz ligeiramente adunco e um olhar profundo, embora as pálpebras, então aos 64 anos, já se mostrassem cansadas, cobrindo levemente os olhos azuis dele. Leonard Cohen mirava a jornalista Sylvie Simmons sem trégua, enquanto respondia a questões a respeito de sua vida, livros, discos, religião. Toda a complexidade daquele homem com o dom para o melancólico se espalhava por suas frases, mas havia pouca objetividade ali. Sylvie só foi perceber a esperteza traquina ou posição defensiva de Cohen dias depois, ao ouvir as gravações. Naquele mesmo ano de 2001, a editora da jornalista lhe cobrou uma nova biografia. Diante da ausência de livros com profundidade que tratassem do músico canadense, Sylvie assumiu a missão de tentar decifrar quem, afinal, é Leonard Norman Cohen. 

Não foi das tarefas mais fáceis, a autora admite ao Estado por telefone, em uma longa conversa sobre a cena roqueira de Los Angeles nos anos 1970, jornalismo musical e, claro, a adoração dela “pelas canções mais tristes de Leonard Cohen”. Com a biografia I’m Your Man, livro lançado nos Estados Unidos e na Europa em 2012, que agora chega ao Brasil pela editora Best Seller, Sylvie se dá por satisfeita. Ao longo de 503 páginas, ela oferece o retrato mais profundo já visto de um dos artistas mais difíceis de se decifrar do universo pop. Se é que se pode dizer que Leonard Cohen está, de fato, no universo pop.

Filho de judeus, nascido no Canadá, o músico e escritor ataca pelas sombras. Vive em um canto escuro do pop, como se estivesse sentado ali, em um canto do bar, observando a cultura contemporânea, a vida cotidiana. Apenas meia-luz é jogada sobre ele, enquanto um cigarro queima e joga fumaça pelo ambiente e um copo de uísque com gelo transpira e escorre até o porta-copos. 

Cohen nunca foi só escritor. Nunca foi só músico. Nunca foi só um interessado na ligação entre o homem e a espiritualidade. O que Sylvie foi capaz de fazer, em I’m Your Man, é escancarar como Cohen é capaz de flanar por tantas vertentes, imprimindo sua visão pessoal por aquilo que vive e viveu. A música veio depois. Retrata Sylvie em I’m Your Man, que Cohen é um sujeito torturado pelas palavras – e, através delas, encontra a paz. “Leonard é uma pessoa com uma personalidade estranha”, diz a autora. “Trata-se de uma pessoa que vive em uma dualidade constante. Vive entre uma forma e outra. Ele ama escrever, mas, enquanto está escrevendo, perdia esse amor e queria compor música. E quando fazia música, queria fazer outra coisa. Era sempre uma tortura.” Ela conta ter vivido “dentro da cabeça de Leonard Cohen por três anos” e ainda se indagava os motivos pelos quais ele transitava entre a música e a literatura, porque escolhera viver solitário. “Ele não soube me responder”, conta Sylvie. “Dizia ser uma coisa muito intrínseca. Era fácil ser um poeta, ter uma esposa, mas aquele não era o caminho dele. Não era o que ele deveria fazer.” 

Filho do dono de uma loja de trajes formais, Leonard viu em seu pai um sujeito sempre alinhado, mesmo em situações que não pediam o traje pomposo. E essa herança diz mais do que as toneladas de páginas escritas por Cohen em seus 15 romances e livros de poemas ou em 13 discos. Cohen é o homem de terno preto e palavras soturnas do pop. “Querida, eu nasci de terno”, afirma ele, misterioso como sempre, à autora. E aos leitores e ouvintes. 

TRECHO: 

"leonard Cohen chamou o sétimo disco de estúdio de Various Positions, título que sugeria um Kama Sutra Cohen, mas o objetivo dele com o álbum era explorar ‘como as coisas realmente funcionavam, a mecânica do sentimento, como o coração se manifesta o que 

é o amor’, que, segundo ele, ‘não é totalmente desejo, há algo mais. O amor está lá para mitigar a sua solidão, a prece é para acabar com a sensação de separação em relação à fonte das coisas’. As canções assumem várias posições. Diversos personagens oferecem instruções diferentes (...). A canção Hallelujah contém uma multiplicidade de posições.” 

I’M YOUR MAN

Autora: Sylvie Simmons

Trad.: PatríciaAzeredo

Editora: Best Seller (503 págs.; R$ 79,90 

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