Lenny Kravitz prova sonoridade própria em novo CD

Lenny Kravitz sempre pareceu uma colcha de retalhos feita de suas influências. Juntando a guitarra de Jimi Hendrix (mas não a habilidade), a postura do Prince, o som retrô de bandas dos anos 70 e as roupas da Cher, o músico conseguiu compor muitos sucessos radiofônicos, mas nunca criou uma sonoridade própria, genuinamente dele. Para tentar mudar esta impressão, seu novo álbum Lenny (Virgin, R$ 25) mostra que Kravitz finalmente achou um caminho seguro para trilhar.O título nem um pouco criativo era inevitável. Pelo menos ele demonstra que Kravitz descobriu pela primeira vez uma identidade própria. Não que ele tenha algo muito inovador para mostrar, pois suas raízes continuam lá, mas Lenny é seu trabalho mais consistente e descaradamente pop.Lenny Kravitz sempre fisgou a esmagadora maioria de seus referenciais sonoros do final dos anos 60 e início dos 70: Beatles na fase psicodélica, o soul lisérgico de Sly & The Family Stone, o funk do conglomerado Parliament/Funkadelic e - especialmente - Jimi Hendrix. Muitos o acusam de ser apenas uma caricatura das suas influências, em parte pela postura e pelo visual neo-hippie.Mas é impossível negar a competência musical de Kravitz. Em Los Angeles, o garoto de 16 anos se tornou autodidata em guitarra, baixo, bateria e piano, além de cantar no California Boys Choir e na Metropolitan Opera. Pouco depois, Lenny já tinha virado uma figurinha carimbada na cena musical californiana, principalmente após o lançamento de seu álbum de estréia, Let Love Rule (1989), e um trabalho com Madonna (quando co-escreveu e fez vocais na canção Justify My Love). Com seu disco seguinte, Mama Said (1991), ele estourou de vez, chegando ao segundo lugar da parada americana com o single It Ain´t Over Til It´s Over. Mas Kravitz nunca conseguiu criar um som próprio. Are You Gonna Go My Way (1993), cuja faixa-título foi indicada para dois prêmios Grammy, tratava-se de uma rendição incondicional às sonoridades hendrixianas, enquanto Circus (1995) reciclava - ou "chupava", segundo os detratores - os riffs do Led Zeppelin em músicas como Rock and Roll Is Dead. E mesmo o aclamado 5 (99) não é nem um pouco criativo. Fórmula do sucesso - Mas seu sexto álbum pode ser considerado finalmente uma redenção. Depois de muito copiar seus ídolos, Kravitz percebeu que não era lá muito bom nisso e resolveu apostar suas fichas em uma fórmula que lhe garantiu muitos elogios e ainda mais dólares no bolso. Quem ajudou o músico a achar esta mina de ouro foi a música Again, que deu uma mãozinha para a coletânea de sucessos Greatest Hits vender mais de 8 milhões de cópias em todo o mundo. Ao invés de bater sempre nas mesmas teclas, ora entre os rockões crus, ora entre baladas mais que melosas, Kravitz achou um meio termo interessante entre os seus dois opostos. O novo disco segue esta fórmula. O som cru e forte figura tanto nas músicas mais animadinhas, como Dig In e Bank Robber Man (que foi inspirada em um recente incidente, onde ele foi confundido com um ladrão de bancos), quanto nas baladonas, como Yesterday Is Gone e Stillness of Heart. Apesar das guitarras setentistas que aparecem em quase todo o álbum tornarem Lenny um pouco repetitivo, Kravitz acertou a mão e criou um disco fadado a vender horrores e tocar massivamente nas rádios. E o mais importante, com qualidade. Depois disso, até sua pose hippie de butique e as suas plumas e paetês emprestados da Cher parecem legais.

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