Lenny Kravitz fala sobre seu novo disco

Cantor americano criou um outro processo de composição

Carol Pascoal - ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S. Paulo

12 Setembro 2014 | 03h00

MIAMI - Inúmeros papéis no cinema foram oferecidos a Lenny Kravitz ao longo da sua carreira. Mas o cantor e guitarrista americano nunca tinha topado com um personagem que realmente despertasse o seu interesse. Em 2009, contudo, a participação que ele fez no drama Preciosa, de Lee Daniels, aguçou o seu gosto pela atuação e fez com que o roqueiro dedicasse mais tempo ao cinema do que à música nos últimos anos.

Após a turnê de Black and White America, que passou pelo Rock in Rio em 2011, Kravitz emendou o filme Jogos Vorazes (2012) e a sequência Jogos Vorazes - Em Chamas (2013), baseados no best-seller homônimo nos quais interpretou o stylist Cinna, além de O Mordomo da Casa Branca (2013, em mais um longa de Lee Daniels).

Mesmo sem planos de registrar um novo disco, músicas começaram a surgir para o americano enquanto ele rodava Jogos Vorazes - Em Chamas, o que resultou em seu décimo álbum de estúdio, Strut, que tem lançamento mundial no dia 23 de setembro e já teve três canções divulgadas: a faixa-título, Sex e The Chamber.

Aos 50 anos, Kravitz retorna ao rock and roll em um álbum produzido por ele e mixado por Bob Clearmountain, que já trabalhou com David Bowie, Rolling Stones e Bruce Springsteen. No conjunto de 12 faixas, o roqueiro aborda temas como luxúria, paixão, sexo e decepção por meio de uma sonoridade crua delineada por baixo, guitarra e bateria.

Em um estúdio em Miami, o vencedor de quatro prêmios Grammy falou ao Estado sobre seu processo criativo, o livro de fotografias que lançará e revelou que vem ao Brasil com a turnê do novo disco.

Tanta dedicação ao cinema nos últimos anos pode ser entendida como um tempo que você precisava da música?

Não foi um intervalo por necessidade. Apenas tinha muito trabalho no qual eu estava envolvido e concentrado. Eu não estava em busca de filmes para atuar, mas apareceram oportunidades em momentos bastante interessantes para mim. Achava que seria algo pontual, como Preciosa, mas gostei de fazer. Em seguida, veio uma sequência de convites para mais personagens. Pensei: "Por que não?". Foi um período de distanciamento que possibilitou um retorno à música com um certo vigor e frescor. O músico Lenny Kravitz fala sobre seu processo criativo, o novo disco, Strut, e a vinda de sua turnê ao Brasil.

Você se isolou nas Bahamas para registrar o disco Black and White America. Com a gravação dos filmes, o processo de Strut não deve ter sido tão tranquilo...

Eu não fazia ideia de que ia gravar um álbum. Não era esse o plano, porque eu acordava às 5 da manhã e o ritmo de filmagens de Jogos Vorazes - Em Chamas era puxado. Mas, em certo ponto, durante as noites, comecei a ouvir músicas dentro da minha cabeça. Foi um processo maravilhoso, apenas deixando acontecer, sem planos e datas estipuladas. Em duas semanas, eu tinha todas as músicas. Mas também me propus a um método mais desafiador.

O que tornou mais desafiador?

Alterei o meu método de composição. Nos trabalhos anteriores, dei o nome de cada faixa após ter finalizado a parte instrumental e a letra. Dessa vez, ouvi a guitarra, o baixo e a bateria de cada faixa, e pensei qual era o sentimento que a sonoridade me passava. As palavras que vieram na minha cabeça se tornaram os títulos das faixas. Foi um exercício escrever as letras já tendo definido o nome da música.

Esse método foi uma maneira de não deixar de fora assuntos que você queria presentes no seu décimo álbum de estúdio?

Para falar a verdade, não sabia que esse era o meu décimo disco até alguém me falar. Não conto os meus trabalhos. Em nenhum momento, pensei em Strut como um trabalho comemorativo ou como uma marca. Foi apenas uma mudança no processo.

Por mais que você diga que Strut não é um disco comemorativo, tem uma canção chamada New York City, que foi o lugar onde você nasceu e cresceu. Soa pertinente e nostálgico para um décimo disco. Concorda?

No geral, não considero Strut nostálgico. Mas, em uma música como New York City, essa leitura faz sentido. Foi em Nova York onde tive as minhas primeiras influências e referências culturais. Todos aqueles shows, museus, teatros ou apenas um passeio no Central Park acrescentam algo. Basicamente, é uma canção de amor sobre o lugar que me fez ser quem eu sou.

Acha que sua música seria diferente se não tivesse se mudado para a Califórnia com a família?

Sem dúvida. Muitos nomes do rock passavam por Nova York, como Led Zeppelin, Jimi Hendrix e The Who. Mas, até o ponto em que morei na cidade, eu estava mais ligado a soul music. Talvez eu tivesse seguido mais por esse caminho. O rock veio quando cheguei a Los Angeles.

No disco, tem um cover de Ooh Baby Baby, de Smokey Robinson and The Miracles. Você não costuma regravar outros artistas. Por que incluiu essa música?

Eu estava no trailer de maquiagem de Jogos Vorazes - Em Chamas e o maquiador sintonizou em uma rádio que só toca Motown. Enquanto ele fazia a minha maquiagem, começou a tocar Ooh Baby Baby. Eu não ouvia essa música há muito tempo e não lembrava de como era bonita. Fiquei com aquele momento na cabeça. Virei uma noite para finalizar o álbum. Quando chegou as 5 da manhã, tive a certeza de que o trabalho estava redondo, mas, para ficar completo, precisava de mais uma faixa. Foi quando retomei a lembrança da música. Ooh Baby Baby caiu perfeita em Strut, porque é uma balada que encerra um disco de rock and roll.

Além do disco, você vai lançar um livro. É uma biografia?

Ainda preciso viver mais uns 20 anos para escrever uma biografia. É um livro de fotos tiradas de mim nos últimos 45 anos. Então, tem imagens de diferentes fotógrafos, entre eles Mark Seliger, Patrick Demarchelier, Anton Corbijn e Ricky Powell. Apesar de não ser uma biografia, o livro traz recordações da minha vida. Tem uma foto minha com Pharrell Williams no meu jardim nas Bahamas, por exemplo, e a conversa que tivemos naquele momento acompanha a imagem. 

No fim de outubro, você dá início à turnê de Strut. Foram reveladas datas até dezembro e o Brasil não está no meio. Tem planos de ir ao País?

Está brincando? É óbvio que vou ao Brasil com a turnê. É um dos meus lugares favoritos no mundo. Inclusive, tenho uma fazenda no Rio. Na minha vida ideal imaginária, eu seria um fazendeiro (risos).

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