Marcos Arcoverde/Estadão
Marcos Arcoverde/Estadão

Lenine lança seu novo disco 'Carbono' e inicia turnê na capital paulista

Novo show do músico pernambucano tem início em São Paulo, no Sesc Pinheiros, entre os dia 30 de abril e 3 de maio

Entrevista com

Lenine

Adriana Del Ré, O Estado de S. Paulo

29 Abril 2015 | 03h00

Foram dois anos com a turnê do disco Chão. A vontade de Lenine de levar aquele show para todos os cantos do Brasil fez com que o cantor e compositor pernambucano alongasse o tour. “Esse intervalo é comum entre meus discos de repertório, porque esse período possibilita viajar da maneira como gosto”, diz ele. Chão tinha fôlego para mais andanças, mas seu ciclo foi encerrado praticamente à força. Um novo show se fazia urgente e, para tanto, pedia um novo disco de inéditas. Por isso, Carbono, o álbum, chega junto com a turnê, que tem início em São Paulo, entre amanhã, 30, e dia 3, no Sesc Pinheiros. 

Lenine correu para finalizar o trabalho. Foram dois meses, fevereiro e março deste ano, compondo e formando parcerias com velhos companheiros de música. E com gravações no Rio, São Paulo, Salvador e Amsterdã. Com os conterrâneos do Nação Zumbi, ele grava a primeira música juntos, Cupim de Ferro (Lenine/Pupillo/Dengue/Lucio Maia/Jorge Du Peixe), com a batida forte característica do Nação – e em diálogo com Madeira Que Cupim Não Rói, de Capiba. Para O Universo na Cabeça do Alfinete (dele e o antigo parceiro Lula Queiroga), chamou, via Skype, o holandês Martin Fondse e sua orquestra – com quem Lenine já se apresentou –, para participar daquela “valsa quase medieval com um texto bem universal”. Outra orquestra, a brasileira Rumpilezz, está na bela À Meia Noite dos Tambores Silenciosos (parceria com Carlos Rennó), que faz um retrato sonoro da tradicional cerimônia. Com Carbono, Lenine estabelece uma relação entre o elemento químico, que se modifica a partir de suas combinações, e ele próprio, que, dependendo da associação musical, dá vazão a diferentes Lenines. 

 

O nome Carbono tem alguma relação com a época em que você cursou Engenharia Química?

Eu já tinha essa palavra: carbono. Sou um colecionador de palavras. Evidentemente, nosso filtro é formado pela nossa experiência. Foi importante em determinado momento da minha vida e meu interesse perdurou. Ainda sou um cara curioso nessa área, mas o fato de escolher carbono tem a ver também com a característica desse elemento: alotropia, quer dizer o fato de ele se associar a infinitas coisas e gerar novas moléculas e, portanto, novas substâncias. Isso, de alguma maneira, define um pouco sobre o que faço. 

E por que esse título para o novo trabalho?

Disco é uma questão de estímulo e desejo. Em quase a totalidade dos meus discos, surgem antes uma imagem e o título, e corro atrás das canções. Sou compositor, é minha primeira profissão e me tornei outras coisas em decorrência desse exercício. São duas trajetórias diferentes: uma é a gravação, é esse ambiente asséptico, hospitalar que a gente teima em impregnar de emoção e é muito difícil para transformar em um CD; depois, tem o sentido da adequação, você transformar aquilo, que estava sob uma lupa diferente, para o universo da emoção do palco. No caso do Carbono, me pus a fazer os dois processos simultaneamente. É a primeira vez que faço assim, foi um tsunami, rapaz. 

E por que os dois processos ocorreram ao mesmo tempo?

Num primeiro momento, eu sabia que tinha de exorcizar o Chão para me propor a fazer outro projeto. 

Quando isso aconteceu? 

No final do ano passado, quando começou a ter muita procura para a turnê do Chão para o ano que ia ter início. E eu disse: ‘Não, cara, não posso; o que é que estou fazendo?’. Foi a primeira pergunta. E a resposta não foi um CD, não, foi um repertório inédito que me propiciasse a fazer um show novo. Assim, se é o show, por que não fazer tudo ao mesmo tempo agora? Como preciso do disco físico como se fosse quase o ingresso do show, preciso fazer o disco até quando? Se o show é 30 de abril, em 30 de março tenho de estar com o disco masterizado. Foi assim. 

Você já tinha material? 

Não tinha nenhuma música, porque só corro atrás de descobrir as canções depois de um tema. Neste disco, todas as músicas falam sob a égide do carbono, isso é intencional. Não é uma coletânea de contos, é uma tentativa de um romance musical. Mesmo o desencadear das canções, é uma história que estou contando, adoro as legendas, as referências.

É a primeira vez que você e o Nação Zumbi gravam algo juntos – a música Cupim de Ferro. Por que a parceria nunca se deu antes?

Porque a gente tinha de acumular conversas. Na verdade, a gente já chegou a dividir palcos, mas a adequação do tema, isso me ocorreu quando eu imaginei esse tema. Essa música tem uma grande referência de frevo de bloco, e achei que o tema tinha de ser executado por mim e pelo Nação, dois exemplos de uma música contemporânea. Eles iriam entender e foi isso que aconteceu. 

A canção Quede Água faz um retrato do que se vive hoje no Sudeste – e do que o Nordeste sempre viveu com a falta d’água...

Essa é uma expressão muito nordestina: ‘quede’ de cadê. O texto é do Rennó. Acho oportuno falar disso agora, dessa maneira um pouco desesperançosa até, mas é uma boa crônica do que a gente está vivendo, de todas essas síndromes hídricas pelas quais a gente está passando.

Acha que essa crise que pode levar a um quadro irreversível?

Pela primeira vez, estamos entrando como espécie numa superpopulação que vai mudar a equação geológica do planeta. Isso é um dado, não sou eu quem estou dizendo. A gente não tem equação para saber quanto estamos interferindo nisso tudo. É possível que a gente esteja entrando na era de glaciação. Mas, com certeza, nós interferimos na equação do planeta.

E Quem Leva a Vida Sou Eu é uma resposta a Zeca Pagodinho?

Brinquei com meu amigo Zeca. Ele diz: ‘Deixa a vida me levar’. O que é isso, Zeca? Não, quem leva a vida sou eu. Deixa a vida me louvar! 

Você usa o termo ‘cantautor’ para se definir. O que, para você, isso significa?

O termo não existe temporariamente, eu espero, na nossa língua. Todos os outros latinos têm, mesmo o português de Portugal. Mas como definir um Chico Buarque, um Jorge Ben, um Djavan? Esse termo vem do século 11, pessoas que iam com seu instrumento rústico de feira em feira. Eram cronistas da rua. Acho que isso faz parte do nosso DNA, de você estar ‘historificando’ o que vê. E me vejo assim, claro. Não me contento só em entreter. Prefiro acreditar que vai além: que tem educação no meio, que tem questionamento, que tem atitude política. São crônicas de questões reais, que incomodam, que comovem. 

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