Jair Aceituno/ Estadão
Jair Aceituno/ Estadão

Lendário Festival de Águas Claras renasce após 40 anos

Mostra que levou milhares de jovens ao interior de São Paulo, nos anos 1970 e 1980, retorna agora em Brotas

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

06 de fevereiro de 2015 | 02h06

Eram 4h30 da madrugada quando João Gilberto finalmente subiu ao palco, contra todos os prognósticos de que daria cano. A plateia estava toda enfiada na lama e fazia um frio de congelar grilo. João vivia numa era anterior ao ar-condicionado e o chilique compulsório. Raul Seixas o tinha antecedido, mas estava tão bêbado que não conseguiu cantar.

Imaginem um festival de música com nomes como as duas lendas acima e mais Mutantes (os originais), Paulinho da Viola, Gilberto Gil, Alceu Valença, Egberto Gismonti, Walter Franco, Moraes Moreira, Hermeto Pascoal, O Som Nosso de Cada Dia, Sá & Guarabyra, Erasmo Carlos, Wanderléa, Diana Pequeno, Jorge Mautner, 14 Bis, A Cor do Som, Premeditando o Breque, Sandra de Sá e dezenas de outros.

Pois esse festival aconteceu. Foi numa fazenda chamada Santa Virgínia, na cidade de Iacanga, em 1975, há exatos 40 anos. Foi o Festival de Águas Claras, uma epopeia na lama que levou milhares de jovens em busca de música, ar livre, festa, paz & amor. Jovens como a hoje atriz Marisa Orth, que tinha 16 anos e esteve lá. Arnaldo Baptista, contam, ficou 3 horas em cima de uma árvore tocando flauta. Todo mundo se banhava nu num riacho.

Acontece que a História se repete como festa, como diria um filósofo de botequim. Após 40 anos da primeira edição, o Festival de Águas Claras, o Woodstock Brazuca, vai se realizar de novo. Numa propriedade próxima ao rio Jacaré-Pepira, ao lado do núcleo urbano do município de Brotas (paraíso dos esportes radicais e das cachoeiras), será realizado em setembro uma nova edição do evento, que ocorreu em 1975, 1981, 1983 e 1984 (um ano antes do Rock in Rio).

O desafio de ressuscitar Águas Claras é do próprio idealizador daquelas jornadas, Antonio Cecchinn Jr., o Leivinha, que se associou a uma empresa chamada Intruso Produções. Eles estimam que 40 mil pessoas devam rumar para Brotas. "A gente observou que a música brasileira não tem recebido o destaque merecido, apesar de sua qualidade ser reconhecida em todo o mundo. As principais atrações da grande maioria dos festivais hoje em dia, no Brasil, são de grupos ou músicos internacionais. Nosso objetivo é resgatar esse 'templo' da música brasileira", diz Ed Galvão, da Intrusos e promotor do evento.

Eles já têm sinal positivo de alguns artistas, como Tulipa Ruiz e Nando Reis. Querem João Gilberto de novo, é claro, mas essa já é uma outra utopia: tem um tempão que João não sai nem do seu apartamento para tomar uma água de coco. Os organizadores de Águas Claras vão concorrer por recursos com festivais megainternacionalizados, como Lollapalooza e Rock in Rio, mas têm apoio da Lei Rouanet, do Proac (lei de incentivo estadual), do prefeito de Brotas, dos saudosistas e uma aura mítica em torno de seu projeto.

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