Lenda do jazz, Billy Cobham fala sobre show em São Paulo

Baterista se apresenta ao lado de Scott Henderson e Jeff Berlin

Entrevista com

Billy Cobham

Jotabê Medeiros, O Estado de S. Paulo

13 de agosto de 2014 | 03h00

H de Scott Henderson. B de Jeff Berlin. C de Dennis Chambers. Superbanda do jazz, o HBC Trio reúne, em nome do jazz fusion, a maestria da guitarra de Henderson (que tocou com Chick Corea, Tribal Tech e Zawinul Syndicate), o baixista Jeff Berlin (que tocou com Bill Bruford, Alan Holdsworth, John McLaughlin) e o baterista Dennis Chambers (parceiro de, entre outros, Funkadelic e Santana).

Estavam a caminho do Brasil. Mas eis que, por um motivo de saúde, Chambers não pode viajar. E quem foram convidar? Para manter o C do nome do trio, convidaram um mito do jazz, o baterista Billy Cobham (que integrava a banda de Miles Davis na gravação do histórico Bitches Brew), de 70 anos. Eles tocam na noite desta quarta-feira no Bourbon Street Music Club, às 21h30 - sábado e domingo estarão no Rio das Ostras Jazz Festival, no balneário a 170 km do Rio.

Cobham em si é uma enciclopédia do jazz. Nascido no Panamá, criado em Nova York, ele acompanhou e gravou com músicos tão diferentes quanto Quincy Jones, Mahavishnu Orchestra, Miles Davis, Herbie Hancock. O lendário baterista, sempre obrigatório, falou ao Estado por telefone, da Suíça.

Ouvi que o sr. está planejando uma nova edição do álbum 'Spectrum', que lançou o jazz fusion.

Sim, chama-se Spectrum 40, em homenagem aos 40 anos de gravação daquele disco. Está sendo preparado para ser lançado em janeiro de 2015, estamos no processo de engenharia.

O sr. acredita que exista uma continuidade do jazz fusion do jeito como o sr. o imaginou há 40 anos?

Sim, eu acho. Mas é claro que não é mais do mesmo jeito que era, a música esteve em movimento esses 40 anos e muita coisa mudou. As bases daquele trabalho tinham sido lançadas por Miles Davis e muitos ampliaram aquela linguagem a partir do que ele criou, como eu mesmo. Mas nada permanece o mesmo, e a interpretação das faixas fundamentais também mudou. A música em geral representa o mundo que a gente vive nesse momento, é uma expressão do agora.

Naquela época, a absorção do rock e do funk pelo jazz era um desafio, havia resistência. Hoje em dia, é um ponto pacífico.

Sim, do mesmo jeito que a maioria das coisas hoje é de assimilação mais natural. Músicos e compositores, assim como os pintores, estão sempre procurando a mudança. Somos todos exploradores da vida. É como no jornalismo: você pode abordar as coisas sempre do mesmo jeito e pode ir para a frente, desenvolver a linguagem. Pode ser que considerem o que você faz como algo moderno. Mas o fato é que as novas ideias estão sempre circulando. Revolução é aquilo que fazemos. Se você faz perguntas, você procura pelas respostas.

O baixista Marcus Miller esteve aqui dias atrás, e como o sr., ele fez um disco muito importante com Miles Davis. O sr. fez Bitches Brew, e ele fez Tutu. Como o sr. viu a forma como esses discos afetaram o futuro?

O que você ouve hoje é o que importa. É diferente do jeito que foi ouvido no passado. Ouvir Monk hoje, com os ouvidos de hoje, é diferente de ter ouvido Monk no passado. Como Herbie Hancock, como E.S.P., o disco inicial da fusion que Miles gravou. Todos esses músicos capturaram com sua música um sentimento de sua época. No pop, no clássico. Eu posso contribuir com uma compreensão hoje, mas é diferente. É algo natural. Nossas almas estão em evolução. É disso que se trata.

O sr. está vindo para substituir Dennis Chambers, certo?

Ele não está disponível para a turnê nesse momento, teve um problema pessoal, e daí eles me ligaram. Eu escolhi aceitar, para manter o projeto acontecendo. Eu e Scott nunca tocamos juntos antes, mas Jeff Berlin tocou diversas vezes comigo desde os anos 1970. Foi o que aconteceu e aqui estou eu.

E o sr. está excursionando nos dias de hoje com uma banda multicultural aí na Europa, não é?

Sim, eu estive com essa banda aí no Brasil, foi em 2012. Foi em uma exposição sobre Miles Davis que durou seis meses e não cobria só a música de Miles, mas também as roupas que ele usava no palco, a arte dos discos, a estética. Nós tocamos um dos últimos shows da série com essa banda com a qual estou excursionando: o guitarrista Jean-Maria Ecay, o tecladista Christophe Cravero. Um monte de gente me acompanhou.

O sr. tem um longo histórico relacionado com a música brasileira. Tem alguma paixão especial aqui?

O problema para mim é que eu sou tão associado à música brasileira. Toquei com Airto Moreira em 1969, tocamos com Miles e fizemos muitos trabalhos juntos. Desde 1989, eu vou ao Brasil para tocar e conheço uma infinidade de gente: já toquei com Milton Nascimento em Belo Horizonte. É difícil dizer de que forma a música brasileira me afeta, porque tive tantos parceiros, não há como apontar uma coisa particular. Todo o País me afeta. Estive no Recife, Porto Alegre, Florianópolis, Curitiba, São Paulo, Rio de Janeiro, Vitória, Brasília, Salvador, Santos. Dei palestras, troquei experiências, ensaiei com músicos diferentes. Toquei com o percussionista Marco Lobo e com Toninho Horta. Amo toda a diversidade musical. Eu me sinto à vontade, não tenho problemas com nenhuma corrente. Aprendi muito ouvindo e observando. Não visitei o Brasil como turista, não fui só para ir a um estúdio e gravar algo. Eu vi o que acontece fora do estúdio, nas ruas.

Tivemos algumas perdas importantes no jazz recentemente, como por exemplo Jim Hall e Charlie Haden. O sr. acha que estamos produzindo artistas à altura no jazz para substituir essas perdas.

Gravei My Goal’s Beyond com Charlie Haden e John McLaughlin nos anos 1970. Sim, concordo, tivemos perdas profundas. E, sim, estamos produzindo novos talentos, de outra forma não seria o jazz. Nós não podemos ser o que eles foram. O legado desses caras ajudou a construir o que somos hoje, e é a partir deles que criamos o que virá. Não se tratou só de sentar e tocar, eles criaram. Mas nós temos que seguir em frente. É o que fazemos. 

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