Leila Pinheiro canta Gonzaguinha e Ivan Lins

Quando estrou no palco, em 1980, em Belém, sua terra natal, Leila Pinheiro cantou Começaria Tudo Outra Vez, de Gonzaguinha, e Mãos de Afeto, de Ivan Lins e Vítor Martins, canções prediletas de autores prediletos. Vinte anos depois, decidiu gravar um disco em homenagem aos compositores. O lançamento ganhou o nome de Reencontro - Leila Pinheiro Canta Ivan Lins e Gonzaguinha (gravadora EMI). O lançamento oficial será marcado por três shows: amanhã e sábado no Tom Brasil, e domingo, no Sesc Interlagos.É um disco de muitos méritos e alguns poucos senões - um tantinho de concessão a certo gosto das emissoras de rádio que prejudica, de fato, apenas uma - a primeira - das 12 faixas. Feliz, de Gonzaguinha, ganha um corinho de gosto duvidoso e um balanço que parece em desacordo com a estrutura melódica da composição. Daí para frente, delícias.A produção, a cargo de Guto Graça Melo, bolou juntar, usando computadores, a voz de Leila à de Gonzaguinha na lindíssima (uma das mais lindas dele) canção Espere por Mim, Morena. Mas não foi usada a voz que saiu no disco de Gonzaguinha, e sim a voz guia dele, depois descartada (o CD de Leila informa, erradamente, que se trata da voz que está no disco de Gonzaguinha). O contraste entre a pronúncia límpida, a emissão perfeita da cantora e o canto mastigado e de falsa displicência (era a composição de um tipo) do autor confere graça maior ao encontro virtual. Alguém dirá que a idéia é velha e é. Mas ficou emocionante.Leila soube escolher, de Gonzaguinha, outra de suas melhores músicas: Diga Lá, Coração, que fez sucesso na voz do autor em sua fase mais popular, nos anos 80. No entanto, não é música fácil, como é Não Dá Mais pra Segurar (Explode, Coração), também no repertório do CD. Essa foi a canção que tornou Maria Bethânia uma cantora de fato popular. Leila gravou-a de forma extremamente delicada, voz sobre o violão de Lula Galvão, um gênio, clima completado pela trompa de Michael Alpert e cordas escritas por Gil Jardim. Não há aquele clima desesperado, de sangue jorrando, que havia na gravação da baiana. Sutil, Leila deixou que o drama já determinado por melodia e palavras ganhasse corpo por sua força passional.Ivan Lins compareceu com duas músicas inéditas: Acaso, bolero com letra de Abel Silva, e Sedução: a letra é de Gonzaguinha e foi escrita há mais de 20 anos. A melodia nasceu agora. Tornou-se a segunda parceria de Ivan e Gonzaguinha: a primeira foi Desenredo, um samba-enredo (um samba antiexaltação, diz a cantora) de 1979 que descreve com ironia a chegada de Cabral às terras de cá - e o nascimento imediato da primeira escola de samba, pelos autores denominada Unidos do Pau Brasil. Atualíssimo.De Ivan, entraram pérolas irrefutáveis, antigas como Antes Que Seja Tarde, Vitoriosa e Iluminados e novas como a citada Sedução e a bela canção Lembra de Mim. Leila, que assina boa parte dos arranjos e toca piano e teclados em diversas faixas, encontrou roupagens novas para cada uma delas, trabalho de bom gosto e inteligência que honra a música brasileira e uma de suas maiores intérpretes.Leila Pinheiro. Amanhã e sábado, às 22 horas. Ingressos: de R$ 25 a R$ 50. Tom Brasil. Rua das Olimpíadas, 66, tel. 3845-2326. E domingo, às 11 horas. De R$ 1 a R$ 3. Sesc Interlagos. Avenida Manoel Alves Soares, 1.100, tel.: 5970-3536

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