Carolina Ribeiro
Carolina Ribeiro

Leila Maria expande a África de Djavan no álbum ‘Ubuntu’

Cantora se apresenta neste sábado, 18, na casa Natura Musical, para lançar disco em que regrava canções do alagoano com músicos africanos

JULIO MARIA, O Estado de S.Paulo

17 de junho de 2022 | 16h00

É difícil entender como Leila Maria, com toda a voz que sai dali, tenha precisado do impulso de um programa de TV orientado para grandes audiências para, aos 66 anos, ser valorizada. Mas é assim que tudo parece ser desde sempre para esta carioca de Madureira que canta, para além da bossa nova e muito além do samba, jazz. Ao menos em dois belos álbuns, Leila Maria canta Billie Holiday e Off Key, ela reforça o campo em que brilha, vencendo o estigma trazido pelo espírito sutilmente nacionalista e denunciativo da bossa nova. Cantoras brasileiras não são tão aceitas quando suas vozes estão a serviço do jazz e, sobretudo, cantando em inglês. “Coitado do meu samba, mudou de repente / Influência do jazz!”, escreveu Carlos Lyra em Influência do Jazz.

Mas Leila batalha desde 1997 e só recentemente atraiu um foco maior depois de passar com destaque pelo programa The Voice +, dedicado a intérpretes com 60 anos ou mais. A exposição levou a gravadora Biscoito Fino, por meio da produtora Ana Basbaum, a convidá-la para gravar um projeto de natureza instigante: cantar e criar com liberdade sobre as linhas tidas muitas vezes como inalteráveis de Djavan.

O resultado é Ubuntu, álbum de nove faixas com produção de Guilherme Kastrup que já está nas plataformas de streaming e que será lançado com um show neste sábado, 18, na Casa Natura Musical, a partir das 22h. Djavan tem uma África muito visível em suas canções, mas não a percussiva, não a dos terreiros. A “África harmônica” de Djavan está nas concepções de sua composição e nos vocais que o conectam a países sobretudo da porção subsaariana do continente, e, mais do que em todos eles, à África do Sul (e isso não é só porque ele gravou o Hino da Juventude Negra da África do Sul em 1986, ainda quando o apartheid reservava aos negros banheiros, ônibus e bairros separados dos brancos.

Havia então bons desafios a Leila para ampliar esse espectro africano de Djavan. Seu canto deveria deixar o jazz quase completamente para assumir uma outra postura e seria melhor a Kastrup, para atuar com leveza e liberdade, esquecer o quanto Djavan é guardião e ímã de tudo o que faz. Não foi por acaso que o alagoano deixou há muito de ter produtor, passou a fazer seus próprios arranjos e raramente participa de projetos coletivos. Interferências, que de fato foram muito equivocadas no início, não costumam ser bem-vindas. 

Mas é interferindo sem medo que surge, no início do álbum, a canção Soweto, com participação do guitarrista congolês Zola Star. É uma festa, com François Muleka no baixo e Guilherme Kastrup nas percussões. Depois, Aquele Um, de Djavan com Aldir Blanc, que aparece ligada a um trecho de Fato Consumado e ao Ponto de Exu Tiriri, é ainda mais cheia e deve ficar irresistível no palco. Tanta Saudade, parceria com Chico Buarque, está unida a Boling Na Ngai. É a África das cordas representada pelo também congolês François Muleka. 

Meu Bem Querer começa com um daqueles coros africanos assustadores de bom, arranjado por Christiano Santos. E Oceano, talvez onde a voz de Leila faça uma entrega difícil pela tonalidade baixa da primeira parte, tem referências paralelas sutis.  O violão ibérico da gravação original, tocado por Paco de Lucía, o grande espanhol, é trocado na gravação pelas cordas do malinês Assaba Dramé, que toca ngoni, um dos ancestrais do violão originado no norte africano. Se todo mundo ali tem sangue mouro (árabe), não é de se espantar o quanto os sons de Paco e de Assaba estão próximos. O disco segue com Asa, que tem a voz da moçambicana Selma Uamusse, Flor de Lis, Faltando Um Pedaço e Seca, com declamação de Maria Bethânia que acaba de ganhar clipe.

Sobre o fato de submeter-se a uma produtora, Ana Basbaum, Leila diz: “Sempre gostei de trabalhar com pessoas que soubessem me dirigir. Ninguém faz nada sozinho”. Ela fala também sobre cantar com o pensamento musical africano, de tempos fortes difíceis de se achar de tão diluídos: “Quando o Zola tocou os primeiros acordes de uma das músicas, eu não sabia onde estava o forte. Fiquei perdida e precisei de apoio, mas venci”. Leila não fala com ressentimentos sobre uma suposta falta de projeção de sua carreira, mas observa: “Sou carioca, negra, vivo em Madureira. Logo, para muita gente, eu tinha que cantar samba. Mas eu não sou do samba, não é o que canto. As pessoas querem o tempo todo me colocar nisso”.

Há um sentido na existência de Ubuntu, algo que muitas vezes não se encontra em tantos discos de regravações. Ao levar Djavan para outro campo, ou reforçar um campo que já existe nele, Leila e seus músicos propõem expandi-lo e não necessariamente – e é preciso coragem nisso – agradá-lo. Se pensassem assim, não fariam nada além de um álbum de covers. Ainda assim, o resultado parece tê-lo agradado. 

Djavan foi procurado pela reportagem para dizer suas impressões sobre o disco, e sua resposta foi a seguinte: “Toda vez que alguém regrava minhas canções é uma alegria e uma bela oportunidade de ouvi-las como nunca havia pensado. Agora, com o disco Ubuntu, de Leila Maria, essa alegria se renova duplamente: a Leila é uma cantora com estrada concretada ao longo de muitos anos, capaz de levar um repertório como esse na busca de uma renovação, produzindo um resultado inusitado e belo. Parabéns a você Leila e a todos que participaram desse projeto. Obrigado pela homenagem. Djavan”. 

Leila Maria 

Casa Natura Musical

Rua Artur de Azevedo, 2.134

Sáb. (18), às 22h.  

Abertura da casa: 20h30. 

R$ 30 (meia) a R$ 120 (camarote) 

 

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