Lei anti-ruído na Europa obriga orquestras a alterar repertório

Proteção à saúde dos músicos faz com que obras mais "barulhentas" sejam descartadas pelos maestros

Sarah Lyall, The New York Times

19 de abril de 2008 | 16h00

Eles ouviram a obra apenas uma vez, mas os músicos da Orquestra Sinfônica da Baviera estavam sofrendo. Seus ouvidos estavam doendo, e a cabeça, explodindo.   Testes mostraram que a média de ruído na orquestra durante a obra "Estado de Sítio", do compositor israelo-sueco Dror Feiler, era 97,4 decibéis, abaixo apenas do nível do estouro de um pneu e uma violação dos novos limites europeus para barulho no ambiente de trabalho. Tocar de modo mais suave ou usar fones de ouvido foram medidas rejeitadas pelos músicos por contrariar seu modo de trabalhar.   Assim, em lugar de estrear em 4 de abril, a obra foi simplesmente descartada. "Não tive escolha", disse Trygve Nordwall, o gerente da orquestra. "A decisão não foi tomada por questões artísticas; foi tomada para proteger os músicos.   O cancelamento é, até agora, provavelmente a mais extrema conseqüência da nova lei, que obriga os empregadores na Europa a limitar a exposição dos trabalhadores a ruídos potencialmente danosos e que entrou em vigor no mundo do entretenimento neste mês.   Em toda a Europa, músicos estão sendo convidados a usar aparelhos para medir decibéis e a se apresentar atrás de telas com proteção anti-ruído. Companhias estão alterando seu repertório. E maestros estão reconsiderando a definição de "fortissimo".   Alan Garner, que toca oboé e preside o comitê dos músicos da Royal Opera House, disse que ele e seus colegas tem sido aconselhados a usar plugs auriculares durante as apresentações e os ensaios. "É como dizer a um piloto de corrida que ele tem de pilotar de olhos vendados", disse Garner.   Já há sinais de que a lei esteja alterando não apenas a relação entre músicos clássicos e seus empregadores, mas também entre músicos e o trabalho que produzem.   "A lei sobre os ruídos foi feita para trabalhadores de fábricas e de construção, onde o barulho vem de uma fonte externa", argumentou Mark Pemberton, diretor da Associação de Orquestras Britânicas. "Mas o problema é que os músicos criam eles mesmos o barulho."   Os músicos de rock tem se manifestado abertamente, nos últimos anos, sobre música alta e proteção para os ouvidos. A questão é mais delicada para músicos clássicos, que têm relutado a aceitar que sua profissão pode levar à perda de audição, mesmo diante de estudos que mostram esse risco. Ao mesmo tempo, reclamar da lei - que diz respeito à exposição dos músicos aos ruídos, e não da audiência, é complicado.   Um problema é que diferentes músicos são expostos a diferentes níveis de ruído, dependendo do seu instrumento, da sala de concertos, do lugar onde eles se sentam na orquestra e das flutuações da obra que eles estão executando. No Reino Unido, grandes orquestras agora rotineiramente medem os níveis de decibéis de várias áreas para saber quais músicos estão sujeitos a mais barulho e quando. As orquestras estão também instalando painéis de absorção de ruídos e colocando telas anti-ruído em pontos estratégicos, como diante da seção de metais.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.