Lehninger foi exato na condução e extraiu ótimos momentos da Osesp

Regente testou a ousadia como palavra de ordem de um concerto

João Marcos Coelho, Especial para O Estado de S. Paulo

19 de julho de 2014 | 02h00

 O concerto ficaria desequilibrado, com certeza. Mas não há dúvida de que a melhor maneira de servir às intenções das Variações Temporais de Ronaldo Miranda seria encadeá-las com a sexta sinfonia de Beethoven, já que foram escritas por encomenda da Osesp para servir de “preâmbulo à Pastoral”, como escreve o próprio compositor. Do jeito que foi apresentada, na quinta, na Sala São Paulo, na abertura e antes do primeiro concerto para piano de Liszt, assumiu apenas os contornos de um bom exercício de composição. Miranda domina a escrita sinfônica e colocou-se na pele de Beethoven ao tratar do tecido orquestral. O problema é que pouco ousou a partir disso. 

O concerto de Liszt restaurou a ousadia como palavra de ordem. Como escreve a pesquisadora francesa Françoise Escal, “a música de celebração passa, com Liszt, a ser a celebração do músico”. Mesmo no concerto n.º 1 para piano, que lhe tomou muitos anos para assumir a forma final em 1855, ele celebra seu hipervirtuosismo numa obra originalíssima, praticamente um poema sinfônico com piano solista. Mas o faz conviver com uma escrita filigranada, cheia de nuances. Deve, portanto, soar como uma obra contínua em movimento único, com constantes sobreposições temáticas de uma seção a outra. Há longas passagens com refinada instrumentação camerística. Por tudo isso, incompreensivelmente o concerto foi carimbado na estreia como “vulgar”. Experiente, o pianista Kirill Gerstein dominou a cena, coadjuvado pela regência discreta de Marcelo Lehninger. 

Se na primeira parte o jovem regente de 34 anos manteve-se convencional, soltou-se mais na segunda parte, dedicada à Pastoral. Aí foi possível compartilhar as qualidades que o tornaram a mais reluzente promessa brasileira da regência. Sua brilhante carreira internacional faz prever voos bem mais altos. 

Das nove sinfonias de Beethoven, a sexta oferece possivelmente os obstáculos mais traiçoeiros aos intérpretes. Submergiu já na estreia, em 1808, num concerto-tsunami, soterrada pela quinta sinfonia, o concerto n.º 4 para piano e a Fantasia para piano, coro e orquestra (prefiguração da Ode à Alegria da Nona). Até E.T.A. Hoffmann, o primeiro grande crítico musical da história, responsável pelas magníficas resenhas dessas estreias, passou por alto pela Pastoral. Concentrou-se na Quinta. 

Até hoje, a placidez da Pastoral nos leva, enganosamente, a considerá-la menos arrebatadora do que a Eroica ou a Quinta. A leitura de Lehninger, no entanto, apresentou desequilíbrios. O belíssimo Allegro ma non troppo inicial, em que a fluidez e as nuances são essenciais, por exemplo, soou morno, flácido, talvez por causa da regência excessivamente linear de Marcelo. É verdade que toda a sinfonia, exceto na tempestade do quarto movimento, mantém uma atitude contemplativa, calma. É uma armadilha, que pode conduzir à flacidez. 

Apesar de sua experiência comprovada, parece que Marcelo se soltou mesmo só a partir do Andante, quando tomou de fato as rédeas da orquestra e moldou fraseados, estabeleceu gradações dinâmicas relativas mais refinadas entre os timbres. A fluência frequentou a dança dos camponeses, o vigor e a intensidade estiveram presentes na Tempestade. E na Canção do Pastor, Lehninger foi exato na condução do emocionante movimento final que termina de modo zen. Extraiu momentos admiráveis da Osesp. 

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