Marco Antonio Teixeira / Divulgação
Marco Antonio Teixeira / Divulgação

Legião Urbana sai em turnê com Frateschi, Paulo Miklos e outros para celebrar 30 anos

Comemoração pelos 30 anos do primeiro disco da banda contaria com box com música inédita - barrado pelo filho de Renato Russo

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

22 Outubro 2015 | 07h00

Marcelo Bonfá e Dado Villa-Lobos, ex-parceiros de Renato Russo no grupo Legião Urbana, começam uma extensa temporada de shows pelo País para comemorar os 30 anos de lançamento do primeiro disco da banda brasiliense. A longa lista inclui cidades pelas quais o grupo não havia passado.

A estreia será nesta sexta-feira (23), em Santos. O show em São Paulo está previsto para o dia 7 de novembro, no Espaço das Américas. A última data do ano é 19 de dezembro, em Cuiabá. Mas a turnê deve continuar em 2016.

O grupo vai contar com a voz do ator e músico André Frateschi em quase todas as músicas da Legião. A ideia é também chamar alguns convidados especiais. Em Santos, será o titã Paulo Miklos, para uma ou duas canções.

O show é dividido em duas partes. A primeira repassa todo o repertório do álbum de 1985, com suas onze músicas. De Será a Por Enquanto, passando por Ainda é Cedo, Geração Coca-Cola e Soldados. A segunda, com 15 músicas incluindo o bis, terá as sequências mais esperadas por fãs. Quase Sem Querer, Há Tempos e Fábrica é a primeira delas, depois da abertura com Tempo Perdido e Daniel na Cova dos Leões. Faroeste Caboclo, Teatro dos Vampiros, Índios e Que País é Esse? fecham a apresentação.

Uma curiosidade uniu a história de Frateschi com a Legião quando ele tinha 10 anos de idade. Uma apresentação que fazia uma dobradinha com um show da Legião e a peça Feliz Ano Velho, em 1985, colocou o garoto no camarim do grupo, já que sua mãe, Denise Del Vecchio, era uma das atrizes. “Eu me lembro dele. Vi aquele menino no meio dos fãs e o coloquei no camarim com a gente”, recorda Bonfá. A direção musical do show é assinada por Liminha e o cenário é do Batman Zavareze.

Dado e Bonfá decidiram formar uma banda com músicos jovens. A segunda guitarra será de Lucas Vasconcellos (da banda Letuce), o baixo será de Mauro Berman (experiente ao lado da banda Cabeza de Panda e do rapper Marcelo D2) e o teclado, de Roberto Pollo (que toca com o Cirque du Soleil). “Era importante, eles são mais jovens e trazem uma energia incrível ao som que fazemos”, diz o baterista Bonfá.

Ao Estado, Dado Villa-Lobos lembrou da última experiência da Legião com outro vocalista, o ator Wagner Moura, em 2012, para um especial da MTV. “Aquele foi um show encomendado e tivemos problemas com a transmissão ao vivo que foi feita. Fora isso, o Wagner foi demais, o cara era um fã. Ele não acreditou quando fizemos o convite a ele”, diz. À época, o show recebeu algumas críticas negativas sobre as desafinações de Moura.

Bonfá diz que, pela primeira vez, a banda vai tocar ao vivo, durante a temporada, a música Dezesseis. Outra que a banda quase nunca tocou ao vivo é A Dança, do disco de 1985.

Músicos desistem de lançar box depois de filho de Renato Russo reclamar direitos por canção

Quando descobriu o tamanho da criatura que havia ganhado vida própria por suas mãos, Renato Russo foi ao microfone e proclamou ao mar de fiéis à sua frente: “A gente está aqui no palco, mas a verdadeira Legião Urbana são vocês”. A verdadeira Legião Urbana, ainda mais numerosa do que na década de 1980, não deve estar feliz com os últimos acontecimentos que envolvem a longa batalha por direitos autorais entre o filho e único herdeiro de Renato, Giuliano Manfredini, e os dois legionários remanescentes, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá.

Além da turnê, Dado e Bonfá já tinham em mãos um segundo projeto fonográfico pronto e acabado. Um box que traria dois discos, um livreto e potencial para provocar êxtase nos fãs: uma remasterização do primeiro álbum da Legião que completa 30 anos, com Será, Geração Coca-Cola e Soldados, e um segundo disco com sobras de estúdio e versões de músicas como algumas que a Legião tocou para mostrar à gravadora EMI quando chegou de Brasília ao Rio de Janeiro. O diamante é a música 1977, que a banda gravou e nunca lançou porque Renato não gostou do resultado e acabou desmembrando-a para dar origem a outros dois futuros canhões: a melodia inspirou Fábrica e parte da letra deu vida a Tempo Perdido.

Com o box pronto, então, Dado e Bonfá receberam o comunicado de que 1977 pertencia não a eles, mas a Renato Russo e a seu filho, Giuliano Manfredini. Imediatamente, publicaram também um documento que provava o contrário. Carimbado pelo Departamento de Censura de Diversões Públicas da Polícia Federal, a letra da música em papel timbrado da EMI comprova as assinaturas da autoria de 1977: “Dado Villa-Lobos / Renato Russo / Marcelo Bonfá”. Mesmo com a comprovação, foram informados de que a música havia sido registrada em 2003 no Ecad por Giuliano e, assim, desistiram de lançar o box. “A questão não é dinheiro, mas moral. O herdeiro de Renato tem colocado a integridade deles em questão”, diz uma fonte ligada aos músicos que não quer se identificar.

Na noite de terça-feira, Giuliano divulgou um comunicado em nome da Legião Urbana Produções Artísticas, sua empresa: “A decisão (sobre o cancelamento do lançamento do disco) foi tomada unilateralmente pelos demais integrantes da banda”. Dava a entender que apoiava o projeto. Em um segundo parágrafo, menciona o registro do Ecad de 1977: “Os demais integrantes da banda (Dado e Bonfá) questionaram a autoria em uma tentativa de apropriação da música 1977, composta integralmente por Renato Russo e cujos direitos estão divididos entre Renato Russo (75%) e Legião Urbana Produções Artísticas (25%), como atestam os registros do Ecad”. Dado e Bonfá falaram com o Estado quando estavam prestes a tomar a decisão pelo não lançamento. “A família registrou os direitos e não devemos mais lançar”, disse Dado. “É lamentável”, falou Bonfá. 

Simples registros no Ecad não confirmam a autenticidade de uma autoria. No máximo, podem gerar duplicidade e provocar investigação. O assunto só seria mesmo desenrolado na Justiça, algo que os remanescentes da Legião já disseram não terem mais energia para fazer. O tom do terceiro parágrafo do comunicado de Giuliano joga o abacaxi no colo de Dado e Bonfá: “No ensejo de manter viva e divulgar permanentemente a obra de Renato Russo, como sempre foi manifesto desejo do artista, a Legião Urbana Produções Artísticas deu total apoio ao projeto do referido álbum e considera a decisão por parte dos demais integrantes da banda de cancelar o projeto como uma tentativa de ofuscar o trabalho de preservação da memória de Renato Russo e impedir a livre circulação de sua obra artística.” Procurado pela reportagem, Giuliano não retornou aos pedidos de entrevista até a tarde de ontem. 

O dilema de 1977 não interfere na temporada de shows que vão comemorar os 30 anos de lançamento do primeiro disco da banda – um alento aos seguidores. Por enquanto quem mais perde com o álbum jogado na fogueira das ambições é uma das maiores bases de fãs que uma banda de rock já teve no Brasil. Ou, como diria Renato Russo, a verdadeira Legião Urbana.

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