Laurie Anderson lança novo trabalho

Laurie está de volta. Depois de sete anos de seu disco mais recente (Bright Red, de 1995), a musa da vanguarda nova-iorquina está lançando Life on a String (Warner Music), um dos mais belos e inventivos trabalhos musicais da temporada. Casada com o roqueiro Lou Reed, Laurie - natural de Chicago - vive em Nova York e mantém, desde sua mais tenra juventude, contato com grandes nomes da avant-garde americana, como o compositor John Cage e os poetas William Burroughs e Allen Ginsberg (há um sample do autor lendo seu poema América no espetáculo Songs and Stories from Moby Dick, baseado no clássico de Herman Melville, que ela apresentou no ano passado na Inglaterra e Estados Unidos). No Brasil, ela se tornou célebre nos anos 80, quando seu espetáculo multimídia Home of the Braves foi lançado em disco e nos cinemas. Pequena, inquieta e intrigante, Laurie Anderson falou sobre seu novo trabalho com a reportagem da Agência Estado na sexta-feira à tarde, por telefone. "Estou me divertindo muito com essa nova banda e adoraria ir ao Brasil com esse show", disse ela. Ela comentou a situação em Nova York ("Um aspecto positivo daquilo foi que as pessoas estão se tornando mais politizadas, passando a ter mais responsabilidade pelo que fazemos como país") e acha que os nova-iorquinos estão se tornando "mais cuidadosos, mas não paranóicos". "Essa é uma cidade ocupada, as pessoas trabalham muito", afirmou. "Mas não estão deixando a cidade, o que é um bom sinal - só estão atentas porque descobriram que o impossível também acontece." Recentemente, li uma entrevista na qual você dizia que "quanto mais a gente trabalha com tecnologia, mais conclui quão estúpida ela é". Você vive um caso de amor e ódio com a tecnologia? Laurie Anderson - Sim, pode-se dizer isso. Eu sinto que quero me mover mais para o lado dos instrumentos ultimamente. Acho que a música parece mais expressiva quando realça os instrumentos. Mas gosto dos grooves que vêm com a tecnologia também. O fato é que computadores não são particularmente emocionais. A canção mais sinfônica de seu novo disco é "Here with You". Fale um pouco dela. É a minha favorita. Surgiu como uma seqüência do meu trabalho em Moby Dick. No show, que tem várias projeções e efeitos, ela tinha um sentido diferente desse que adquiriu no disco. É uma peça muito simples, na qual eu toco meu violino como não fazia há muito tempo. Para mim, é parte do prazer da música ouvir algo muito simples. Há um canto, na faixa "One White Whale", que lembra os cânticos Sufi, como os dos derviches da Turquia. Estou muito errado? É bem interessante essa comparação. Eu procurei o ritmo do som de Moby Dick para fazer essa canção, e é legal essa relação do som ritual Sufi com o som de uma baleia. Tentei escrever algo que descrevesse aquele mistério de Melville, algo com uma dose de maldade, mas não algo estático. Eu estava com aquele som na minha cabeça. Com seu trabalho, você está em busca do novo ou quer apreender emoções? Estou tentando contar históricas com emoção. Há quem diga que eu sou avant-garde, e talvez seja, mas eu não estou buscando a novidade simplesmente por buscá-la. Tento fazer algo emocionante, usando recursos de avant-garde. Sim, talvez eu esteja buscando o novo... Vimos aqui no Brasil, recentemente, a peça "The Far Side of the Moon", do diretor canadense Robert Lepage, que tem sua música. Como você vê o papel do teatro na cultura contemporânea? Lepage demonstrou um jeito de usar a tecnologia no teatro, nessa peça. Eu confesso que, quando ele me convidou, eu não tinha idéia do que ele fazia. Quando me mostrou, foi uma grande surpresa, usou a música de maneira muito inventiva. Fiquei satisfeita com o efeito dramático. Ele é um bom improvisador. Entre as jovens artistas da atualidade, parece que Björk é uma discípula sua, com sua linguagem sintética. Você conhece seu trabalho? Adoro o trabalho dela. É bem criativo, completamente original. Gosto do jeito que usa a voz, num sentido harmônico. O que seduz você na história de "Moby Dick"? É uma história doida. Há muitas vozes paralelas, fala sobre muitos lugares e Melville tem um jeito fascinante de contar a história, um jeito pós-moderno. Quando li pela primeira vez, tinha 16 anos e confesso que não entendi muito bem. Quando reli, eu vi que era a história de pessoas procurando por algo que não sabem bem o que é. Pura filosofia. Pensei: como seria Melville contando a história do WTC anos depois de seu desaparecimento? Ele certamente contaria uma história sobre a destruição do desejo, um romance pleno de fantasmas e com grande profundidade. Ouvi que você está trabalhando numa instalação para uma exposição em Zurique. Não haverá música nesse trabalho? Pouca música. É basicamente um trabalho de imagens. O prédio em Zurique é um edifício alto, cheio de câmeras. Será um grande desafio técnico, construir um pavilhão e colocar 70 pessoas em camas, com três histórias passeando em todas as câmeras e com a projeção delas no teto do pavilhão. Veja: eu estou em contradição. Não é tão verdade aquilo que eu disse sobre tecnologia. Você pode fazer coisas maravilhosas com ela. O que eu não gosto é dessa coisa de "veja, conhece esse novo computador? veja como é rápido, veja quanta informação!". Isso me irrita.

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