Fabio Motta/Estadão
Fabio Motta/Estadão

'Last Dance' reúne gravações de Charlie Haden e Keith Jarrett

Disco recupera momentos de uma grande parceria

João Marcos Coelho, Especial para O Estado de S. Paulo

27 de julho de 2014 | 07h00

Dois amigos e parceiros de décadas fazem uma viagem musical sem pompa nem circunstância, deixando-se levar apenas pelo prazer de evocar canções de amor, da paixão à dor de cotovelo. Tudo com extremo refinamento. Dialogam sem pressa. Curtem cada mistura de timbre entre o contrabaixo e o piano acústico. Saboreiam fiapos de memórias musicais recolhidas em tantos anos de carreira. Este é o sentido maior de Last Dance, o CD recém-lançado pela ECM que reúne dois senhores numa atmosfera de música de câmara. O do contrabaixo tem 76 anos e o do piano, 69. Já se cruzaram muitas vezes ao longo de suas gloriosas carreiras musicais. Charlie Haden foi contrabaixista, ao lado do baterista Paul Motian, do primeiro trio de jazz do pianista Keith Jarrett nos anos 60. O trio foi encorpado em seguida com a participação do saxofonista Dewey Redman – formaram um quarteto memorável nos anos 70. Haden participou do CD Arbour Zena (1975), com composições clássicas de Jarrett para solistas e cordas. Era natural que, em 1976, Haden o levasse para seu primeiro disco como líder, Closeness

Trinta e um anos depois, juntaram-se em 2007 no estúdio da casa de Jarrett. O espírito que reinou naquelas sessões musicais fica claro pelas declarações de ambos. “Quando tocamos juntos é como se fossem duas pessoas cantando”, diz o pianista. O contrabaixista prefere acentuar a característica mais importante e decisiva para se fazer música de câmara com qualidade: “Keith realmente ouve, e eu também ouço. Este é o segredo”. 

Uma primeira leva de performances foi lançada pela ECM em 2010 com o título Jasmine. Ainda bem que Manfred Eicher está limpando as gavetas cheias de gravações inéditas. Por isso, outra leva daquelas sessões intimistas é agora lançada, sob o guarda-chuva das canções de amor. Lá estão leituras apaixonantes, plácidas e maduras, de clássicos como My Old Flame, My Ship, It Might as Well Be Spring, Everything Happens to Me, Every Time We Say Goodbye, When Can I Go Without You e Goodbye.

Keith Jarrett e Charlie Haden já conquistaram tudo que um músico pode almejar: respeito público, obras de enorme valor cultural, que permanecerão emblemáticas da música do nosso tempo. Daí porque até um exercício íntimo de memórias resulta em música excepcional. Os tributos velados se sucedem. Entre outros, a três pianistas-chaves da música do século 20: Bud Powell em Dance of the Infidels, Bill Evans em It Might as Well Be Spring; e a Thelonious Monk e seu Round Midnight.

LAST DANCE

ECM, US$ 10

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