'Las Horas Vacías' faz uma colagem do amor nos tempos da internet

Tema da ópera de Ricardo Llorca é caro à contemporaneidade, mas superficialidade com a qual ele é tratado decepciona

João Luiz Sampaio, Especial para O Estado de S. Paulo

11 de agosto de 2014 | 18h35

O Teatro São Pedro promoveu no último fim de semana a estreia brasileira da ópera Las Horas Vacías, criação de 2010 do compositor espanhol Ricardo Llorca. O enredo gira em torno de uma mulher que procura, na internet, o antídoto para a solidão em que vive. Um tema atual, sob medida para, segundo as palavras do compositor, uma ópera contemporânea, com a qual o público de hoje possa se identificar. Mas, se é estimulante a proposta de abordar um tema caro à contemporaneidade, é difícil não se decepcionar com a superficialidade com que ele é tratado. 

Na obra, uma atriz (a cubana de origem brasileira Angelica de La Riva) conduz, diante do computador, um monólogo entrecortado por trechos musicais conduzidos por uma orquestra de câmara, coro e uma soprano (a espanhola Laura Rey). Atriz e cantora seriam duas faces desta mesma mulher solitária, em um jogo de espelhos. 

O modo como essa estrutura é colocada, no entanto, dilui a força dramática da narrativa. E nisso não ajuda nem o caráter da partitura - um pastiche em que elementos do minimalismo, da música renascentista e de ritmos espanhóis se unem ao acaso, sem uma lógica interna - nem o texto, que pouco faz além de evocar alguns clichês do amor romântico.

Em um artigo publicado sobre a ópera no Wall Street Journal, em 2010, a crítica musical Corinna Da Fonseca-Wollheim relembra que a loucura feminina é um dos grandes temas da história da ópera, citando diversos exemplos, de Monteverdi a Alban Berg. O que esses compositores têm em comum, porém, é a criação de personagens cuja caracterização nasce do diálogo entre texto e música, um diálogo tão intenso que não se limita à temática da obra, mas interfere na própria recriação formal do canto e de sua relação com o tecido orquestral. Pensar no modo como essa relação se dá no início do século 21 é o desafio do compositor que se dedica hoje à ópera - mas é dele que foge Llorca ao fragmentar o discurso e fazer da música mera colagem.

Ainda assim, a presença na temporada do São Pedro de Las Horas Vacías precisa ser celebrada. O teatro tem buscado refinar sua vocação - e ter assumido que deve trabalhar em prol da formação de artistas, da busca por um repertório que não se limite aos grandes títulos do romantismo e da promoção de novas obras é uma decisão corajosa. 

A ópera de Llorca, assim como aconteceu com a estreia, no ano passado, de O Menino e a Liberdade, de Ronaldo Miranda, com libreto de Jorge Coli, alimenta a discussão sobre os caminhos atuais do gênero - e promovê-la é um dos elementos que cristalizam a importância do Teatro São Pedro na vida musical da cidade. 

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