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Larry Heard fala sobre os 25 anos do seminal 'Washing Machine'

Produtor conta como, em duas horas, compôs faixas que mudaram a história do eletrônico

Roberto Nascimento, O Estado de S. Paulo

13 de dezembro de 2011 | 22h00

Há 25 anos, um visionário baterista de Chicago se enfurnava em casa com nada além de alguns instrumentos eletrônicos para gravar faixas que mudariam a trajetória da música contemporânea. Alguns anos antes, a ressaca da disco music havia aberto espaço para experimentações sintéticas que pipocavam em pistas do mundo, uma alternativa ao glamour de sábado à noite que o dito batera Larry Heard, conhecido como Mr. Fingers, resumiu, em 1986, nas faixas do disco Washing Machine (já citado entre os cem mais importantes do século 20). Com pérolas como o magistral clássico Can You Feel It?, Mr. Heard praticamente definiu o minimalismo experimental da música eletrônica moderna. O mestre, que toca em São Paulo neste fim de semana, papeou com o Estado sobre sua obra-prima.

Quando você começou a produzir o que viria a ser o Washing Machine, você já ouvia bastante música eletrônica?

Sim. Era a primeira onda da música que chamávamos de electro. Coisas que vinham da Espanha, Holanda, Bélgica e Inglaterra. Foi o que começou a tocar depois que a disco saiu da moda. E tínhamos uns DJs de rádio muito vanguardistas que tocavam Devo, Depeche Mode e outras bandas interessantes.

E você não frequentava as festas de Chicago, que virariam a cena de house?

Não, porque enquanto eu me formava musicalmente, estava ocupado tocando bateria em bandas que excursionavam pelo Wisconsin, Illinois e Indiana. Em 1983 ou 1984, quando eu parei de tocar em bandas, dei alguns giros pela noite de Chicago, principalmente depois que alguns vizinhos me disseram que o tipo de música eletrônica que eu estava fazendo era parecido com o que se ouvia nas festas de galpão. Nessa época eu trabalhava à noite e não dava para sair muito. Mas os clubs não eram os únicos fóruns para esse tipo de música. Como disse, o rádio dava espaço para coisas bem interessantes. Foi nessa época que surgiu o Hot Mix Five, lendários DJs, por exemplo.

E que tipo de música você fazia antes de começar a produzir?

De tudo. Tocava em bandas cover do Yes, do Rush, do Return to Forever, o rock progressivo que eu gostava quando cresci. Mas também tocávamos soul, reggae, blues. Tudo menos country e música erudita (risos). Mas eu não tinha liberdade autoral. Eu fazia a batida, mas não podia tocar outros instrumentos, como guitarra ou piano. A batida é importante, mas eu tinha ideias que iam além disso. Aí eu comprei uma bateria eletrônica Roland TR-707 e um teclado Jupiter 6 (instrumentos que se tornariam a essência da house music) depois que peguei emprestado o de um amigo.

Faz 25 anos que você fez Can You Feel It?, um dos clássicos absolutos da música eletrônica. Como era o seu processo criativo na época?

Até hoje eu trabalho de improviso. Os fragmentos de música surgem e eu tenho de encontrar uma forma de resolvê-los. Can You Feel It? foi gravada em uma fita cassete. Eu tinha dois decks. Não tinha nenhum equipamento profissional na época. Toquei a linha de baixo e o beat. Passei isso durante cinco ou seis minutos pelos dois decks e, enquanto a música se repetia em um deles, eu criava novas partes no outro. Fiz tudo em duas horas.

Você está brincando...

Não (risos). Fiz Can You Feel It? em um take. Depois disso, o Robert Owens (parceiro de produção que gravava os vocais) passou em casa, eu armei o microfone e ele colocou a voz de primeira. Esse foi o take original. Nós tentamos fazer um mais lustroso, mas nunca deu certo. O pessoal de Chicago se identificava com a estética crua das músicas. Eles ouviam aquela sonoridade e sabiam que era música local. Era uma conexão bem legal entre público e artista.

É verdade que, nas festas, a música era mixada com o discurso I Have a Dream, de Martin Luther King Jr.?

Sim. Era aí que o Hot Mix Five entrava no jogo. Eles traziam elementos diferentes às músicas para dar fazê-las mais interessantes. O público estava acostumado com a disco, que era aquela coisa grandiosa.

Você se orgulhava?

Acho que sim. Não tinha tempo para pensar nessas coisas. Estava em estado de graça só pelo fato de as pessoas gostarem da minha música.

A polirritmia é uma marca de seu estilo, que parece simples, com o batidão 4 por 4, mas sempre tem uma complexidade rítmica. Isso vem de sua formação de baterista?

Certamente. O meu senso rítmico vem de todos aqueles covers doidões do Gênesis, do Yes e do Rush. A métrica daquelas coisas era biruta. Não tinha nada simples, quatro por quatro. Por isso, quando lancei Mystery of Love, minha primeira música, o pessoal que tocava comigo ficou chocado. Eles acharam bem elementar. Na cena de rock progressivo, havia batalhas de instrumentos para ver quem tocava a coisa mais complicada (risos). Mas era uma época ótima em Chicago, com um monte de estilos bacanas.

25 anos depois, como você se sente sobre o seu legado?

Não é algo que se planeja (risos). Eu ouvia Stevie Wonder, Quincy Jones, Gino Vanelli, mas não queria ser eles. Era a época em que headfones ficaram acessíveis, então dava para ouvir a música desses caras e prestar atenção a cada mínimo detalhe. Acho que aquilo ficou no meu inconsciente.

LARRY HEARD E DERRICK MAY - Memorial da América Latina (Av. Auro Soares de Moura Andrade, 664, tel. 3823-4600). Sáb., a partir das 16 horas. Grátis

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