Lanny Gordin, o mito da guitarra, está de volta

Desde os tempos da Tropicália, LannyGordin vem sendo louvado como deus/lenda viva/maluco genial daguitarra, uma espécie de Jimi Hendrix brasileiro e outros tantossuperlativos repetidos à exaustão. Só que, se ele é tudo issomesmo, por que não retoma o posto que lhe é de direito? Pois é oque o músico está disposto a fazer a partir do CD Duos(Barraventoartes/Universal), que tem shows de lançamento desexta-feira a domingo no Auditório Ibirapuera. "É um recomeçopara galgar um passo novo na minha musicalidade", diz oguitarrista e violonista, de 55 anos. "Nesses shows vou demonstrar um novo estilo de tocar,que estou criando e nunca vi nenhum guitarrista fazer igual",diz Lanny, que define esse estilo como "free arte modernacontemporânea". "Esse novo estilo abrange uma completa liberdadeno instrumento, crio acordes na hora", diz. "Estou ainda nocomeço, aprimorando, mas já tem um resultado muito bom, graçasao meu talento. É um momento de muita inspiração a que cheguei." No CD, Lanny une suas cordas, acordes e harmoniasengenhosos à voz de intérpretes de diversas gerações: dostropicalistas Caetano Veloso, Gilberto Gil e Gal Costa - de quemfoi colaborador dos mais relevantes em seus álbuns maisarrojados - aos ascendentes Vanessa da Mata, Zeca Baleiro eRodrigo Amarante (guitarrista, vocalista e compositor de LosHermanos). Outra parte dos convidados divide o palco doIbirapuera com ele. Na sexta, marcam presença Max de Castro, JunioBarreto e Edgard Scandurra. Sábado é a vez de PériclesCavalcanti, que assina a produção musical do CD, e Jards Macalé.No domingo, participam Arnaldo Antunes, Chico César e FernandaTakai. O repertório e os convidados variam a cada noite, mas oshow começa sempre da mesma forma, com Corcovado (Tom Jobim),única faixa em que Lanny toca sozinho no disco. Com eventualparticipação de alguns vocalistas/compositores na parteinstrumental, o CD dispensa outros acompanhamentos além dasguitarras, do violão e do baixo de Lanny. Edgar Scandurra duelacom ele em El Blues (de autoria da dupla); Gil, Amarante,Péricles, Macalé, Chico César tocam violão e Max, guitarra-base,nas faixas em que também cantam. Na letra de Lanny, Qual?, ChicoCésar faz referências aos discos clássicos que o guitarristagravou com os baianos e Macalé. No palco, Lanny será acompanhado por sua banda formadapor Guilherme Held (guitarra), Fábio Sá (baixo) e Zé Aurélio(timbatera), que gravou com ele os dois volumes de ProjetoAlfa (Baratos Afins), álbuns instrumentais produzidos por LuizCalanca em 2004.Fora de cena Lanny passou anos no ostracismo em decorrência de umasérie de crises pessoais, que envolvem problemas relacionados àesquizofrenia e barra-pesada das viagens de ácido em largaescala, que fizeram sua carreira desandar. "Acredito em destino,as coisas foram acontecendo até eu chegar no ponto em que estou.Eu me perdi quando fui internado num sanatório." Tinha boasperspectivas com a repercussão de seu trabalho com ostropicalistas, mas seguiu outro caminho. "Fui me envolvendo comhippies que me deram drogas, aí desvirtuou tudo e fui parar nohospital", lembra. "Atualmente tento superar tudo isso, até euser o Lanny que realmente sou." Apesar de tudo, no entanto, é surpreendente que Lannynão tenha perdido a habilidade de tocar. "Meu pai falava: você éesquizofrênico, passou uma história muito louca, mas sua músicacontinua intacta, sua essência continua a mesma", lembra oguitarrista. Com a doença sob controle, ele voltou maisintensamente às atividades musicais desde que recebeu apoio deadmiradores como Calanca. Agora, ganhou a adesão que pode dar nova guinada em suahistória. Quem dá o empurrão que faltava é o experiente produtorGlauber Amaral, que assina a direção artística do CD e do show.Lanny volta diferente pelas mãos de Amaral, que o conheceu em2002, mas, ciente de suas histórias - ou seja, além dasqualidades de músico, o lado problemático -, só três anos depoisengrenou a parceria. "Fiquei muito empolgado em trabalhar comele, mas na época não tinha condições de encarar", conta."Reencontrei Lanny em 2005, ouvi os discos que Calanca produziu,achei que ele tinha potencial para fazer shows. Fizemos alguns,mas achava muito esdrúxulo o repertório e a definição dearranjos", diz. "Era tudo muito free, muito solo, não dava paratrabalhar muito longe. Aí sugeri fazer o disco em duos comgrandes artistas da música brasileira, sem faltar os quatrofundamentais, Caetano, Gal, Gil e Macalé. E agreguei gente novapara dar uma renovada." O processo de lapidar o som de Lanny num projeto maisdirigido e comercial não tira dele a liberdade de criação. "Cadavez que toco meu instrumento, é sempre uma coisa nova pra mim.Sempre foi diferente e cada vez mais aperfeiçoado", diz oguitarrista. Lanny se considera do mesmo nível de Hélio Delmiro,Heraldo do Monte, Olmir Stocker, Larry Corriel. Acredita que sóos que tocam pior do que ele o idolatram "como ícone, o maior doBrasil, um dos maiores do mundo, isso e aquilo". E que parachegar aos que considera superiores a ele ainda leva uns dezanos de estudo. "Como meu pai me ensinou, gênio é 10% talento e90% suor", diz, bem-humorado. O pai também o ensinou a serversátil, daí o fato de o gênio domável estar à vontade no meiode amigos novos e antigos, estilos e ritmos diversos, sem serender aos clichês dos gêneros pelos quais transita. Lanny Gordin e convidados. Auditório Ibirapuera. Av. PedroÁlvares Cabral, s/n.º, portão 2 do Parque do Ibirapuera, tel.(11) 5908-4299. Amanhã, 21 h; sáb. e dom., 20h30. R$ 30 e R$ 15

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