Yael Malka/The New York Times
Yael Malka/The New York Times

Lançamentos celebram os 75 anos do violinista Itzhak Perlman

Caixa com 18 CDs da Sony e três vinis da Warner trazem panorama da carreira do músico

João Marcos Coelho, Especial para o Estado

29 de janeiro de 2021 | 05h00

A largada para a comemoração dos 75 anos do violinista Itzhak Perlman aconteceu em 31 de agosto passado, a data exata de seu nascimento em Tel-Aviv em 1945. Festejos virtuais por causa da pandemia. Mas nem por isso menores. A Sony lançou uma caixa com 18 CDs do período em que ele gravou para a RCA e a Columbia do início de sua carreira fulgurante, nos anos 1960. E a Warner acaba de relançar em três vinis suas mitológicas interpretações das sonatas e partitas para violino solo de Bach de 1988.

Foi seu maior momento. Duas décadas, entre os anos 1970 e os 90, em que reinou absoluto. Tocou várias vezes na Casa Branca. Dominou a cena com seu virtuosismo aparentemente infinito, brilho e sonoridade inigualáveis e gosto eclético. Tocou em episódio dos Muppets, foi o escolhido nos solos da trilha de John Williams para o filme A Lista de Schindler, de Steven Spielberg, já nos anos 1990.

E, em 1999, participou do filme Música do Coração, em que Meryl Streep personifica uma professora de música que leva seus alunos do Harlem para uma apresentação no Carnegie Hall. Meryl estudou violino pra valer durante oito horas diárias por dois meses para conseguir tocar dignamente o Concerto para dois violinos, de Bach, ao lado de Perlman e um punhado de notáveis do instrumento, como Isaac Stern e Joshua Bell. Curiosidade: a primeira escolhida para o papel foi a cantora Madonna, mas a reação geral foi tão hostil que o diretor Wes Craven felizmente decidiu-se por Streep. Uma década dourada, que ele completou fazendo jazz com Oscar Peterson em Side by Side (Telarc). Ao extrapolar o universo clássico, Perlman tornou-se figura midiática, como o violoncelista Yo-Yo Ma ou o pianista chinês Lang Lang. 

Sua paixão pelo violino aconteceu desde os 3 aninhos, ao ouvir o som do instrumento no rádio. Aos 4, teve poliomielite; aos 10 anos, deu seu primeiro recital ainda em Tel-Aviv. Na sequência, mudou-se para os Estados Unidos, estudando na Juilliard School de Nova York. Dali em diante, fez história. Gravou todo o repertório canônico para violino. No século 21, sua carreira arrefeceu. Diminuiu drasticamente o ritmo de concertos. Tocou com piano na Sala São Paulo, cerca de dez anos atrás. Tinha uma cadeira ao lado da sua, com uma pilha de partituras de peças curtas, tudo música ligeira. Escolhia uma delas, quase ao acaso, e tocava. Estava visivelmente enfastiado da vida de músico concertista globetrotter.

Seu toque robusto e romântico é hoje fora de moda, dizem os especialistas de plantão. Os violinistas preocupados com a música historicamente informada reinventaram seu repertório preferido. Sinceramente, para que retirar todo o sangue de uma interpretação e trocá-lo por uma leitura de UTI, precisa, tentando nos restituir o impossível, ou seja, os sons de três, quatro séculos atrás?

A verdade é que o mundo, a humanidade, precisa de grandes músicos como ele, que não só venceu como instrumentista clássico. Extrapolou os limites de seu ofício. Lutou pelos direitos dos deficientes físicos, mostrou que nada é impossível quando coexistem talento e força de vontade. 

Basta ouvir as três partitas e três sonatas de Bach, registro de 1988. Compostas há três séculos, permanecem como o maior desafio para todo violinista (se quiser, acrescente outro Himalaia, os 24 Caprichos de Paganini, que ele também gravou de modo eletrizante em 1972). Duas horas e meia de música extraordinária. Aqui, como nas seis sonatas para violoncelo solo, Bach constrói intrincadas e inesperadas harmonias para estes instrumentos essencialmente melódicos. 

A caixa com 18 CDs da Sony é do período em que gravou para a RCA e a Columbia. Foi seu vulcânico início de carreira nos anos 1960. São performances memoráveis dos concertos de Prokofiev, Sibelius, Tchaikovski e Dvorak – sempre com a Sinfônica de Boston, e o maestro Erich Leinsdorf, entre 1963 e 1969. Na capa dos LPs, ele aparece quase adolescente. Foi também o glorioso período em que, ao lado dos amigos Pinchas Zukermann e Daniel Barenboim, fez gravações camerísticas excepcionais. Em duo, seus parceiros preferenciais eram Vladimir Ashkenazy, Barenboim e Zuckerman. A Sony acaba de relançar as sonatas de Prokofiev com o primeiro; as de Brahms com o segundo; e com o terceiro um delicioso disco com peças para violino e viola de Mozart e Leclair.

Todas estas gravações estão há tempos disponíveis nas plataformas de streaming. Então, para você ter uma ideia do talento deste músico extraordinário, faça duas degustações. Primeiro, a Chacona da Partita no. 2, BWV 1004. São 15 minutos mágicos, onde Bach, segundo uma musicóloga alemã, chora a morte de sua primeira mulher, Maria Barbara, ao voltar para casa após uma viagem de meses. Não é por acaso que músicos como o nosso André Mehmari, autor de uma versão preciosa para piano, diz que “esta música salva”. E depois encante-se com os 11 minutos incendiários do Adagio Sostenuto – Presto, movimento inicial da Sonata nº. 9 para violino e piano de Beethoven, apelidada Kreutzer. Registro de 1998. Perlman e Martha Argerich nos fazem entender por que Leon Tolstoi escreveu sua Sonata a Kreutzer a partir desta música vulcânica.

 

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