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Lalo Schifrin, autor de grandes trilhas para Hollywood, completa 80 anos

Músico espera apenas um convite para retornar ao Brasil

Antonio Gonçalves Filho - O Estado de S.Paulo,

17 Fevereiro 2012 | 21h00

Lalo Schifrin, popular compositor de trilhas hollywoodianas, detentor de seis indicações para o Oscar e 21 para o Grammy (ganhou 4), completa 80 anos no dia 21 de junho. Para comemorar a data, o músico argentino organizou uma turnê mundial que começa na Europa e bem poderia acabar no Brasil, se algum empresário estiver lendo esta entrevista. Respeitado no mundo da música erudita e do jazz, Schifrin foi pioneiro na gravação de bossa nova nos EUA, nos anos 1960, discos até hoje em catálogo e que não param nas prateleiras das lojas brasileiras. "Fico feliz de saber disso, adoro o Brasil, país onde ouvi pela primeira vez um músico formidável, de nome estrangeiro, que cantava bossa nova." Schifrin se esforça, mas a memória não ajuda. Finalmente, lembra o nome da canção, Uma Loira ("Uma loira é um frasco de perfume/que evapora"). Digo que o autor é Dick Farney. "É ele mesmo, foi quem me revelou a bossa nova", confirma, em entrevista exclusiva, por telefone, de Los Angeles.

Em 1961, Schifrin já havia gravado Desafinado com o trompetista Dizzy Gillespie, um ano antes do famoso concerto do Carnegie Hall com Stan Getz e João Gilberto, que lançou oficialmente a bossa nova nos EUA. Foi um pioneiro bossa-novista, mas não pisa no Brasil há 40 anos. "Ninguém me convidou", justifica com desconcertante simplicidade. Parece inacreditável que isso aconteça com alguém que compôs uma música dedicada a São Paulo há exatos 50 anos (An Evening in São Paulo, faixa do disco Lalo: Brilliance) e gravou com tantos brasileiros nos EUA (Luís Bonfá, Oscar Castro Neves, Laurindo Almeida). Schifrin é um monumento musical não só como autor de trilhas (Missão Impossível, Bullitt, Mannix, além de toda a série Dirty Harry). Ele é também compositor de peças eruditas, arranjador de Sarah Vaughan e Peggy Lee, além de parceiro de Quincy Jones e dos três tenores (no concerto parisiense de julho de 1998).

Mais recentemente, retomou o caminho que o tornou conhecido nos anos 1960 pela ousadia de cruzar a música barroca com o jazz. Em 2010, gravou Invocations: Jazz Meets the Symphony (volume 7 da série) com a Orquestra Sinfônica Nacional Checa. Na abertura do concerto, uma peça, Bach to the Blues, evoca os tempos do antológico Marquis de Sade (1966), disco em que faz uma releitura jazzística da sintaxe bachiana. "Não há diferença entre a estrutura barroca e o jazz, que dependem fundamentalmente da capacidade de improvisar em torno de colcheias e semicolcheias", observa, ao comparar cadências de duas épocas.

Schifrin, que já assinava arranjos quando Dizzy Gillespie, de passagem por Buenos Aires, levou-o para os EUA, nos anos 1950, treinou como pianista numa trilha do lendário Kenyon Kopkins (The Yellow Canary, 1963) antes de perceber que poderia mudar igualmente a linguagem musical de Hollywood. "Nos anos 1940 e 1950, os compositores em voga no cinema americano eram europeus que tinham uma formação clássica, como Franz Waxman, tentando se adaptar ao idioma local." Schifrin percebeu que os filmes de ação, nos anos 1960, precisavam de uma dose sonora mais explosiva. Quem viu a série Dirty Harry, do detetive interpretado por Clint Eastwood, certamente lembra dos metais cortantes e dos efeitos inauditos criados pela percussão. São desse período as trilhas das séries de televisão Missão Impossível (cujo tema principal continua o mesmo nos filmes de Tom Cruise) e Mannix. No entanto, os fãs parecem mesmo preferir a trilha de Bullitt (há três regravações diferentes disponíveis), vibrante peça jazzística que contou com a participação de monstros do jazz (o baixista Ray Brown, o flautista Bud Shank e o guitarrista Howard Roberts, entre eles). "Tive a sorte de topar com um produtor que tocava saxofone e que aceitou a ideia de usar o jazz, que é o meu idioma."

Schifrin, filho de um violinista judeu do Teatro Colón, começou a aprender piano aos 6 anos com Enrique Barenboim, pai do maestro Daniel Barenboim. Descobriu o jazz aos 16 e ganhou uma bolsa para estudar no Conservatório de Paris (com Olivier Messiaen) aos 20. "Era louco pelo gênero, sempre vivia cercado por jazzistas", conta. Ele tinha 24 anos quando Dizzy Gillespie e Quincy Jones o viram tocar, em Buenos Aires. Schifrin encantou Jones com seus arranjos. O resto da história ele conta na autobiografia Mission Impossible: My Life in Music (2008, Scarecrow Press, 264 págs., US$ 42) e no recente Music Composition for Film and Television (2011, Berklee Press, 272 págs., US$ 34).

No último livro, ensina técnicas de composição de trilhas e oferece ao leitor a partitura completa de Fanfare for Screenplay and Orchestra, peça encomendada pela Sinfônica de Chicago que resume, de algum modo, o pensamento musical de Schifrin. Curiosamente, ele não se considera um experimental, apesar dos discos que provam o contrário (There’s a Whole Lalo Schifrin Goin On, 1968, que tem até gritos de uma torcida de futebol misturados a riffs jazzísticos). "Não experimento", diz, categórico. "Isso é coisa de amadores." Quem é profissional "simplesmente faz". A única obrigação de um compositor, conclui o maestro, é a de ser versátil. "Não existem escritores que só escrevam romances e desprezem outros gêneros", argumenta.

Parceria. Foi assim que ele usou compassos quíntuplos recorrendo a uma métrica inusual em Missão Impossível (tema com um compasso 5/4, o mesmo da clássica Take Five, de Paul Desmond, imortalizada pelo quarteto de Dave Brubeck). E também em Cool Hand Luke (Rebeldia Indomável, 1967), que ele considera sua melhor trilha. O filme, sobre um presidiário (Paul Newman) perseguido por um guarda obsessivo, foi dirigido por Stuart Rosenberg, amigo de Schifrin, considerado ao lado de Don Siegel (diretor dos filmes de Dirty Harry) seus parceiros ideais, como Nino Rota e Fellini.

"Trabalho de maneira autônoma, sem discutir com os diretores." Isso tem suas vantagens, mas uma desvantagem enorme. Com todos os prêmios, ele não guarda as melhores lembranças do cineasta Wlilliam Friedkin, que rejeitou sua trilha para O Exorcista e acabou usando peças do polonês Krzysztof Penderecki, do alemão Hans Werner Henze e do inglês Mike Oldfield. "Mozart e Beethoven também trabalhavam com encomendas e tinham ideias incríveis rejeitadas por seus patronos." Como muitas trilhas rejeitadas, esta poderia ser lançada por uma gravadora como a Aleph Records, que a mulher de Schifrin, Donna, criou para relançar discos antigos do marido fora de catálogo. Mas ele não detém os direitos dessa. "Não controlo as edições", diz. "É ela quem faz isso."

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