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Lady Laura: discreta, modesta, religiosa

Mãe de Roberto Carlos ficou conhecida por conta da música que o filho fez em sua homenagem

Jotabê Medeiros, de O Estado de S. Paulo

17 de abril de 2010 | 23h36

SÃO PAULO - Discreta, avessa a badalações, religiosa, modesta. Mas, apesar do temperamento, o País inteiro a conhecia por meio de uma canção, Lady Laura: "Lady Laura, me leve pra casa/Lady Laura, me conta uma história/Lady Laura, me faça dormir".

 

Filha de português com cabocla, nascida em Mimoso, Minas Gerais, a costureira Laura Moreira Braga deixou sua cidade natal já casada com o relojoeiro Robertino para ir morar em Cachoeiro do Itapemirim, no Espírito Santo. Ele abriu uma loja de uma porta, ela costurava em casa para toda a cidade, e os filhos costumavam dormir ao pé da máquina de costura, embalados pelo barulho da engenhoca.

 

Laura, que tinha aprendido a tocar violão quando adolescente (numa época em que não era aconselhável que moça estudasse violão), transmitiu o gosto pela música aos quatro filhos: Roberto Carlos, Lauro Roberto, Carlos Alberto e Norma. "Mostrei para os meus filhos as primeiras posições e ensinei-lhes notas como o lá maior, fá menor e assim por diante. A partir daí, o talento natural de Roberto se impôs e ele buscou se aprimorar", contou.

 

"Todas as mães sabem que o filho caçula é o que custa mais a crescer", dizia dona Laura, explicando porque dedicava tanta (e especial atenção) ao filho mais novo. Essa atenção redobrou-se a partir do acidente que marcou a vida do 'Rei', em 29 de junho de 1947, quando um trem na Estrada de Ferro Leopoldina Railways, que cortava toda a cidade de Cachoeiro, passou por cima da perna do menino durante um desfile escolar.

 

Em 1954, Laura Braga matriculou o filho Roberto Carlos no Conservatório de Música de Cachoeiro, no qual ele teria aulas com as professoras Helena Gonçalves e Elaine Manhães. "Vivíamos quase sempre sem dinheiro, mas o que nos faltava em dinheiro minha mãe compensava em carinho e compreensão", disse Roberto, que se referiu à mãe em outras músicas além de Lady Laura.

 

"Naquela casa simples, você falou pra mim/ Que eu tivesse cuidado/ E não sofresse com as coisas desse mundo/ Que eu fosse um bom menino/Que eu trabalhasse muito." Os versos de Aquela Casa Simples (1986) foram dedicados a Laura. "Minha mãe disse isso aqui", contou Roberto Carlos em Cachoeiro do Itapemirim, no dia 19 de abril de 2009, durante o show que celebrava seu aniversário de 68 anos e 50 de carreira (ao qual a mãe não compareceu, já com alguns problemas de saúde).

 

A casinha azul da rua onde o filho do relojoeiro da costureira veio ao mundo, ainda hoje lá como um símbolo de sua história, é uma espécie de síntese da humildade. Um telhado de uma caída só, aposentos espartanos, quintal verde e reduzido. "Recordo a casa onde eu morava, o muro alto, o laranjal, meu flamboyant na primavera, dando sombra no quintal", canta Roberto Carlos na letra de Meu Pequeno Cachoeiro.

 

"Vivíamos quase sempre sem dinheiro, mas o que nos faltava em dinheiro minha mãe compensava em carinho e compreensão", disse Roberto. Ali naquela casa, Roberto iniciou e confirmou o objetivo de ser músico. Aos 8 anos de idade, logo após sua primeira apresentação na Rádio ZYL-9 Cachoeiro de Itapemirim, à qual compareceu por recomendação da mãe, procurou dona Laura e comunicou: "Pois é, mãe: eu não quero mais ser médico, não. Agora eu quero ser cantor!". Ela respondeu: "É mesmo, meu filho? Então está bem. Vamos ver se você vai continuar com essa vocação".

 

Roberto Carlos Braga, que nasceu no Dia do Índio, 19 de abril de 1941, trocou Cachoeiro do Itapemirim por Niterói e começou a ir embora para sempre no início de março de 1956, um mês antes de completar 15 anos. Lá, algum tempo depois, encontraria Erasmo, "filho único de mãe solteira", como se definia, e escreveria parte substancial da história da MPB.

 

Roberto despediu-se de Dona Laura e de Robertino apenas por algum tempo, porque um ano depois, em 1957, toda a família resolveu que era hora de se mudar para o Rio. Dona Laura, segundo conta Paulo César Araújo no livro recolhido Roberto Carlos em Detalhes, desembarcou primeiro, sozinha, na estação ferroviária da Barão de Mauá (o marido ainda ficou um tempo em Cachoeiro). De certa forma, Roberto nunca se separou definitivamente de Laura. Ele a manteve por perto até o fim, sempre cantando a bela canção, talvez uma das mais bonitas que alguém já fez para uma mãe: "Tenho às vezes vontade de ser novamente um menino/E na hora do meu desespero/Gritar por você/Te pedir que me abrace e me leve de volta pra casa/E me conte uma história bonita/E me faça dormir".

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