Sebastian Vuagnat/AFP
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'Kurt Cobain sintonizou algo que ajudava as pessoas a se sentirem menos estranhas', diz biógrafo

Kurt Cabain morreu no dia 5 de abril de 1994; seu ex-empresário Danny Goldberg acaba de lançar 'Serving the Servant: Remembering Kurt Cobain', a biografia de Kurt Cobain nos 25 anos da morte do líder do Nirvana

Redação, AFP

05 de abril de 2019 | 08h00

Décadas depois de a inesquecível voz rouca de Kurt Cobain ser ouvida pela primeira vez nas emissoras de rádio do mundo, o líder do Nirvana continua encantando gerações de jovens que nem haviam nascido quando ele morreu.

 Depois de 25 anos do devastador suicídio do símbolo da contracultura da década de 1990, seu antigo empresário Danny Goldberg disse estar finalmente pronto para refletir publicamente sobre o legado do pioneiro do chamado rock punk.

Em seu livro Serving the Servant: Remembering Kurt Cobain, publicado esta semana em lembrança ao aniversário de 25 anos de morte de Kurt Cobain, aos 27 anos de idade, do cantor de Seattle, Goldberg lembra um artista que estava à frente da sua época, cujo talento e humanidade brilharam através de sua personalidade melancólica e sombria.

“Sua imagem nos meios de comunicação foi um pouco distorcida, com um foco de maneira desproporcional na sua morte, não tanto na sua vida e na sua arte”, disse Goldberg. “Ele foi um cantor incrivelmente enternecedor, sua voz transmitia uma vulnerabilidade e uma intimidade raras”, disse o empresário à AFP.

Segundo Goldberg, Kurt Cobain “sintonizou alguma coisa que ajudava as pessoas a se sentirem menos estranhas, menos solitárias”.

E por isso exatamente sua obra continua relevante, disse o empresário, inclusive para adolescentes que vivem num mundo muito diferente daquele angustiante da costa noroeste do Pacífico, onde Cobain nasceu.

“Ele faz parte de um grupo de artistas cuja arte transcende o seu tempo”, disse Goldberg, acrescentando que há jovens que hoje o reconhecem na rua como um membro do círculo mais íntimo de Cobain.

 O culto de Kurt Cobain

 O depressivo, mas singular, talento que cresceu nos úmidos bosques a duas horas a oeste de Seattle se transformou num deus do rock repentinamente quando Nevermind, o segundo dos três álbuns de estúdio do Nirvana que projetou o grupo de rock alternativo foi lançado e alcançou uma fama estratosférica, dando origem ao culto de Kurt Cobain.

Goldberg conheceu o guitarrista Cobain em 1990 quando o Nirvana ainda não era uma banda muito conhecida e esperava ter mais sucesso com a mistura peculiar do punk, metal e músicas inspiradas nos Beatles.

Nevermind conseguiu exatamente isto e se transformou num dos álbuns de maior sucesso de todos os tempos, desbancando a então estrela pop Michael Jackson do topo dos rankings, com o Nirvana mudando o rumo da cultura pop, com uma nova inspiração não apenas na música, mas também na moda e no comportamento dos jovens.

Nos três anos e meio em que trabalhou com Cobain, Goldberg testemunhou o salto do Nirvana para a fama, da selvagem, mas cálida, relação dele com a tempestuosa cantora punk Courtney Love e as intervenções para ele tentar abandonar sua dependência da heroína.

“Não tenho ideia do que desencadeou as últimas semanas de desespero de Kurt”, escreve Goldberg em seu livro. “Talvez tenha sido a cristalização das depressões que por muito tempo o atormentaram”.

“Já não tenho mais a paixão, assim é melhor queimar do se apagar aos poucos”, escreveu Cobain em uma carta deixada ao lado do seu corpo, citando a letra de uma música do roqueiro canadense Neil Young.

Kurt Cobain era um gênio da música

Mas segundo o ex-empresário do Nirvana, que Kurt Cobain considerava “um segundo pai”, por trás do consumo de drogas e da depressão havia “um gênio musical”. Ele era também um bobo romântico, disse Goldberg, acrescentando que Kurt era proprietário de quatro cópias de Chipmunks Sing the Beatles Hits com os personagens do desenho animado Alvin e os Esquilos cantando músicas dos Fab Four.

O cabelo loiro e desgrenhado de Cobain, seus olhos claros e seu lendário suéter esfarrapado lhe davam um ar de sujeito folgazão, mas Goldberg garante que isso “ocultava um intelecto altamente sofisticado”.

“Sempre soube que havia profundidade na energia e os sentimentos com os quais compunha, era mais profundo do que um simples estribilho, embora tenha composto grandes refrãos”, afirmou.

O empresário dá crédito a Cobain pela defesa das mulheres e ajudar a ‘redefinir a masculinidade’ no mundo da música.

“Ele podia ser muito poderoso e convincente e ao mesmo tempo sensível, carinho, uma ruptura com a ortodoxia do rock da época”, disse ele.

Um etos contrário ao machismo

Em suas memórias, Goldberg lembra um show na Argentina no qual Cobain se enfureceu porque a multidão vaiou a banda Calamity Jane, integrada por mulheres, que abriu o espetáculo. O líder do Nirvana se vingou e se negou a cantar o sucesso do Nirvana,  Smells Like Teen Spirit.

“A plateia não merecia que a tocássemos”, disse Cobain na ocasião.

“Ele estava comprometido com um ideal feminino e o respeito por todos”, lembra Goldberg que também sublinhou o compromisso de Cobain com a defesa dos direitos dos homossexuais.

A brilhante estrela supernova que era o Nirvana se apagou a com a morte de Cobain, mas ecos da sua curta vida persistem e o colocam numa lista junto com grandes ícones musicais, como Bruce Springsteen, John Lennon e Bob Dylan, disse Goldberg.

O empresário não quis especular sobre o que estaria fazendo Cobain hoje, se ainda vivesse, mas acha que seria algo inovador, já que “ele estava sempre evoluindo, não apenas copiando a si mesmo”. / Tradução de Terezinha Martino 

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