Kuarup festeja 25 anos com "Cantoria Brasileira"

Dois encontros antológicos marcaram a trajetória da gravadora carioca Kuarup. Em 1984, com Cantoria, Elomar, Geraldo Azevedo, Vital Farias e Xangai subiram ao palco do Teatro Castro Alves, em Salvador, para mostrar ao País os sons do sertão nordestino. Em 1992, foi a vez de Renato Teixeira e os irmãos Pena Branca e Xavantinho fazerem o mesmo pela música caipira, de Tatuí, no interior de São Paulo.Ambos os encontros ganharam registro ao vivo que, além de antológicos, fizeram - e ainda fazem - uma bela carreira nas lojas. Renato Teixeira & Pena Branca e Xavantinho - Ao Vivo em Tatuí chegou a conquistar o Disco de Ouro (o único da Kuarup) e o Prêmio Sharp (um dos muitos da gravadora). Em 2002, para festejar seus 25 anos, a veterana das independentes brasileiras decidiu juntar a linha de frente de seu catálogo num só encontro, Cantoria Brasileira, cujo registro em CD (ao vivo, claro), chega agora ao mercado.Dos cantadores sertanejos, comparecem Elomar e Xangai, ambos baianos da região de Vitória da Conquista. Da vertente caipira, chegam Renato Teixeira e Pena Branca. Fazendo o meio de campo, aparece a recifense Teca Calazans. E tem ainda as participações especiais de Chico Lobo (viola caipira), Heraldo do Monte (viola sertaneja), Natan Marques (violão de 12 cordas), Oswaldinho do Acordeon e Paulo Sérgio Santos (clarinete).Este encontro de sotaques é um antigo sonho de Mario de Aratanha, fundador e dono da gravadora, ao lado de Janine Houard. Já havia sido esboçado em compilações (a série Cantorias e Cantadores) e algumas parcerias. Mas um encontro assim vultoso, é a primeira vez.As estéticas caipira e sertaneja que o trabalho aproxima são diferentes, claro, em sua forma e execução. Então não é bem esta a unidade estética que se pode esperar de Cantorias Brasileiras. O interessante aqui é reconhecer a proximidade poética entre eles todos, um estado-de-espírito comum a Pena Branca e Elomar, Xangai e Renato Teixeira, com Teca Calazans, há anos radicada em Paris, costurando tudo em sua voz mais distanciada e universalista.O resultado põe em evidência a riqueza da música que se faz no "Brasil de Dentro", como diz Aratanha, uma definição menos geográfica ou estética, que existencial. É justamente um hino deste Brasil que abre o disco, Luar do Sertão, de João Pernambuco e Catulo da Paixão Cearense. Na seqüência, Elomar desfia duas composições próprias. Em seguida, em dueto com Xangai, faz um novo registro de Arrumação, que está também em Cantoria.Xangai segue sozinho na divertida O Homem tem que ter Mulher e, com Natan, canta de Renato Teixeira Pequenina. Paulo Sérgio e Heraldo fazem depois a instrumental Bebê, de Hermeto Paschoal. Entra Teca em cena com Caicó e Acauã. Pena Branca aparece em seguida com Chico Lobo para fazer Vaca Estrela e Boi Fubá, de Patativa do Assaré, que também está no Ao Vivo em Tatuí. Chico Lobo segue com Carlinhos na moda de viola Vazante. Volta Pena Branca, em Tropa. Renato Texeira surge com seu maior clássico, Romaria (também em Ao Vivo em Tatuí). Segue ao lado de Natan e Oswaldinho do Acordeon com Balanceando e depois Tocando em Frente.Voltam todos ao palco para fazer Canoeiro, de domínio público. E é num improviso desta música que se frisa o parentesco estreito entre eles. Canta Xangai: "Saí pra cantar uma moda/junto com Elomar Figueira/vortemo cantando Amora/que é de Renato Teixeira/Canoeiro, canoeiro..." Para encerrar o álbum, mais um hino do Brasil de Dentro, Vida de Viajante, de Luiz Gonzaga e Hervê Cordovil.O disco é resultado de shows - lotados - no Rio, Niterói e Poços de Caldas. Mas a Kuarup quer levá-los para outras bandas. Aratanha diz que está em negociações adiatandas para apresentar Cantoria Brasileira em São Paulo e Belo Horizonte, em março. Quem não quiser esperar, pode encomendar o disco pelo site (www.kuarup.com.br) da gravadora. Há ainda um outro lançamento que Aratanha sublinha fazer parte das comemorações. É Villa por Chorões - Os Melhores Chorões Tocando Villa-Lobos, que também recém chegou às lojas. O disco remete à fundação da Kuarup, em 1977, e sua estréia com a reunião dos choros de câmara de Villa-Lobos.O sucesso da casca de noz - Trabalhar com este Brasil de Dentro é o grande mérito da Kuarup. Mas é daí também que vêm as dificuldades. Para explicar como a Kuarup sobrevive num mercado em que até as gigantes andam colecionando notícias e balanços ruins, Aratanha recorre à metáfora de uma casca de noz na tempestade. "Às vezes uma casca de noz tem mais chance de sobreviver que um transatlântico", diz. "Mas vai se molhar bastante."Assim, a Kuarup chega aos seus 25 anos em boa forma, com cerca de 150 títulos em catálogo e um ritmo de 15 a 20 novos discos ao ano. O segredo? Fazer uma política realista, muito jogo de cintura e, principalmente, "acreditar na música brasileira", diz Aratanha. O resultado é que os discos da Kuarup vendem de pouco em pouco, mas sempre, e por isso não saem de catálogo. Os Cantoria, em conjunto, já venderam cerca de 200 mil unidades. Ao Vivo em Tatuí beira os 250 mil, sozinho. Agora é aguardar mais uma boa carreira para este belo Cantoria Brasileira.Cantoria Brasileira - Kuarup, R$ 18.

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