Kremer, Jansons e O Quinteto D´Elas: semelhantes

Gidon Kremer e Mariss Jansons nasceram na mesma cidade, Riga, na Letônia. Kremer, em 1947; Jansons, em 1943. Ambos seguem a risca a linha profissional traçada originalmente. São talentosos, modestos, leais e sonhadores. Não se colocam acima da música. Ninguém lhes contesta esses atributos - seja a crítica ou os colegas de profissão.O Quinteto D´Elas nasceu em São Paulo. É formado por instrumentistas reconhecidamente competentes: a contrabaixista Ana Valéria Poles, idealizadora do grupo; a cellista Marialbi Trisólio; a violista Adriana Schincariol Vercelino; a pianista Helena Schefell e a violinista Betina Stegmann, spalla do conjunto. Todas elas dão um duro danado. Tocam em orquestra, fazem música de câmara em outras formações e se apresentam em recitais como solistas. Como Kremer e Jansons, são sonhadoras.O sonho que os une traduz-se numa frase simples: amor pela profissão e desejo permanente de descobrir novos caminhos. Kremer é um incansável pesquisador da música do século 20. Batalha pela divulgação de obras dos compositores Arvo Part e Luigi Nono, entre outros. Jansons, por sua vez, garantiu à Filarmônica de Oslo o status de megaorquestra. Não foi fácil chegar a isso. Ele a dirige desde 1979. E o Quinteto D´Elas atua numa faixa pouco desbravada, que é a música de câmara com piano.Versátil - Gidon Kremer é um dos mais importantes violinistas das últimas décadas. Alegre, mas nada performático, foge do espalhafato; ou seja, evita ao máximo os holofotes, o exibicionismo, quando se apresenta num concerto ou recital. Requisitadíssimo - seja por orquestras como as Filarmônicas de Berlim, Viena e Londres, ou por instrumentistas que desejam fazer música de câmara com ele - luta sempre pela integridade do repertório de sua escolha.Não cede ao espetaculoso, ao "show" do tipo "os três tenores". Em síntese, preserva os seus princípios. Um deles é desenvolver projetos com o Kremerata, criado por le para valorizar obras pouco ou nada divulgadas pelo grande mundo dos espetáculos. Com o Kremerata, Guidon Kremer tem liberdade. Revive, entre outras coisas, o melhor do compositor argentino Astor Piazzolla (1921-1992). Foram convidados a participar de algumas dessas gravações - já somam quatro CDS - os violonistas brasileiros Odair e Sérgio Assad, além de Caetano Veloso. O clima obtido nesse trabalho de reinterpretação de Piazzolla, considerado um músico de extrema sofisticação, é de causar espanto, pela riqueza de harmonias alcançada e pela integração dos instrumentos - que vão do bandoneón à harpa, violinino e clarineta.Kremer gosta de viajar. Transita no universo de Piazzolla da mesma forma que redescobre temas de cinema - de Chaplin a Nino Rota, e os transforma em surpreendentes arranjos para violino e piano. A facilidade (e a sensibilidade) com que passa do melodramático tema do filme Tempos Modernos, de Chaplin, para a composição Nostalgia, do japonês Toru Takemitsu, escrita em memória do cineasta Andrey Tarkovsky, é digna de reverência. Sem exagero e medo de errar: Gidon Kremer obreia-se a fantásticos músicos do século 20, como David Oistrakh, Yehudi Menuhin e Isaac Stern.Jansons, Um Leão - Em suas apocalípticas investidas conra a vaidade dos músicos - especialmente maestros -- o escritor inglês Norman Lebrecht poupa Mariss Jansons.O público está fugindo dos concertos por causa dos picaretas que tocam como burocratas. Não é o caso de Jansons, em cujas apresentações sente-se que está dando a vida pelos espectadores.Jansons é mesmo um incansável operário da música, a ponto de, em 1997, sofrer um enfarte por excesso de trabalho. Além de dirigir a Filarmônica de Oslo, com quem esteve no Brasil em 1999 é regente principal da Orquestra Sinfônica de Pittsburgh, que virá ao Brasil este ano - com ele, lógico. Tem mais. Jansons é adjunto da Filarmônica de São Petersburgo e principal maestro convidado da Filarmônica de Londres. Seu repertório - bem extenso - vai de Mozart a contemporâneos como Philip Glass. Aliás, aqui mesmo, no Teatro Municipal de São Paulo, no dia 3 de novembro de 1999, ele regeu o Concerto para Violino e Orquestra de Glass, tendo Gidon Kremer como solista.Sem receio de se expor e nem um pouco dado a lobbies, Jansons chegou a ser um dos cogitados para suceder o italiano Claudio Abbado na direção da Filarmônica de Berlim, em 2002. Os analistas das tramas de bastidores que envolvem esse jogo duro de fuxicos, maledissências e conchavos, são ânimes. Jansons perdeu para o inglês Simon Rattle - e perderia para outros indicados como Daniel Barenboim - porque é fraco de marketing.Paciência. O sucesso não é um fim em si mesmo na vida desse letoniano que já nos preminou com a edição de discos antológicos. Nesse acervo estão, por exemplo, magníficas revisões das sinfonias completas de Tchaikovsky.Recentemennte, Jansons lançou um divertido CD com trechos de obras famosas - que fazem uma bela volta ao mundo. O trabalho tem tanta qualidade que não deve jamais ser rotulado de descartável. Da Abertura de Candide, de Bernstein, à suíte do balé de Zorba, o Grego, composta por Theodorakis, a música soa encantadora, envolvente, interpretada com alegria pela Filarmônica de Oslo.Nas mãos leves de Marins Jansons, até a obra mais fácil e simplória ganha um toque de magia. Quinteto Inconformado - O Quinteto D´Elas, criado em 1995, tem como objetivo pesquisar e divulgar o repertório pouco conhecido para a sua formação: violino, viola, cello, contrabaixo e piano. Trata-se de uma estrutura incomum para um quinteto de câmara.O garimpo em busca de obras compostas para cordas e piano tem sido gratificante para o conjunto, que já gravou dois discos. O primeiro apresenta obras da francesa Louise Farrenc (1804-1875). O segundo, composições de autores ingleses do século 18: Johann Ladislaw Dussek (1760-1812); Ferdinand Ries (1784-1838); e Johann Nepomuk Hummel (1778-1837).Nos dois álbuns, ressaltam o bom gosto, a elegância, a afinação e o entrosamento do quinteto. Fazer música de câmara é o supra-sumo da realização artística. Quem defende essa máxima são os integrantes da Filarmônica de Berlim, que se exercitam ouvindo-se uns aos outros.Na música de câmara, o hábito de um instrumentista ouvir o outro é que apura, arredonda, descortina a interpretação. "Fazer música de câmara é fazer a verdadeira música", pondera o cellista brasileiro Antonio Meneses, hoje membro do Beaux Arts Trio, considerado um dos melhores grupos de câmara do mundo.As integrantes do D´Elas assimilaram esse conceito até o âmago. Não se conformam em fazer outra coisa no quinteto senão revelar jóias de compositores pouco ou nada conhecidos do grande público. É um trabalho pioneiro, paciente, meticuloso - e pouco notado, exceto por um contingente de iniciados. E, evidentemente pela gravadora que abraçou a causa.

Agencia Estado,

07 de janeiro de 2001 | 16h05

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.