JB Neto/AE
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Kraftwerk inaugura era 3D nos megashows

Banda alemã coloca 15 mil pessoas de óculos especiais para ver um concerto histórico no Anhembi

Jotabê Medeiros, O Estado de S. Paulo

12 de maio de 2012 | 11h36

SÃO PAULO - Às 23h30 de sexta-feira, 11, o Kraftwerk subiu ao palco do Sónar - Festival Internacional de Música Avançada e Arte New Media, no gigantesco galpão de exposições do Anhembi, com seus uniformes fosforescentes que lembram o futuro do filme Tron (1982), a primeira animação da era pré-computadorizada, um esboço do que seria o atual mundo digital. Mais de 15 mil pessoas com seus óculos testemunharam o primeiro show em 3D no Brasil, o primeiro com esse grau de tecnologia visual.

A banda alemã abriu com (We Are) the Robots, cartão de apresentação de um tempo de euforia espacial, um passado o qual eles foram os primeiros, na música, a enxergar com os óculos da distopia, da antiutopia. Depois de uma hora de show, havia quem assistisse já sem os óculos, interessado mais na música do que nas projeções. Um lugar menor talvez potencializasse mais os efeitos (a banda fez isso há pouco mais de um mês em Nova York, no Museu de Arte Moderna, o MoMA, com grande impacto).

Radioatividade, desumanização, Hiroshima, Fukushima, alimentação artificial, transgênicos, o carro ocupando o lugar do homem: tudo isso já tinha sido advertido pelo Kraftwerk em finais dos anos 1960, início dos anos 1970. Foram os primeiros a buscar o som de uma voz humana engolida pela máquina. Ao lado de Kubrick com seu 2001, Uma Odisseia no Espaço, eles denunciaram que o mistério não estava no monolito da tecnologia, mas na própria natureza humana.

Curioso que o Kraftwerk tenha proibido fotógrafos profissionais de registrarem seu show no Sónar - não há mais fotógrafos profissionais, todo mundo agora fotografa e grava com seus celulares e essa fronteira foi demolida. O protótipo de um computador de mesa antigo, um desktop, surgia na tela durante a música Computer World, enquanto no público as pessoas com iPads e celulares filmavam o show, um tipo de choque proposital entre obsolescência e atualização tecnológica.

O set list era uma compilação dos clássicos da banda (Man Machine, Autobahn, Radioactivity,Trans Europe Express, Numbers, Tour de France), e a performance dos quatro alemães em seus púlpitos de neon (que lembram os de pregação religiosa), com a voz "vocoderizada" de Ralf Hutter soando de vez em quando, lembrava porque a contribuição artística do Kraftwerk se equipara, em provocação, às de Joseph Beuys, Stockhausen, Marcel Duchamp, Andy Warhol, Gropius e outros que escanearam o futuro de forma irônica.

Não era apenas uma banda pop que estava ali, mas funcionava como tal, porque ao longo do seu percurso, os alemães institucionalizaram a dance music e foram responsáveis pelo surgimento de bandas como Human League, Depeche Mode, New Order, entre outros filhos do synth-pop.

O show do Kraftwerk foi histórico, mas o Sónar resolveu "abolir" a lei antifumo em recinto fechado e todo mundo começou a fumar alucinadamente, sem nenhuma atenção às recomendações da Prefeitura. O galpão virou um fog imenso. Havia banheiros em quantidade suficiente, mas muito longe dos palcos, especialmente o palco principal, e as diversas locações estavam mal sinalizadas.

A retrospectiva do Kraftwerk não foi igual à da sua última visita, quando abriram para o Radiohead, na Chácara do Jockey, em 2009. Foi modernizada, a batida é mais forte, o apelo dance ainda mais emprenhado pela tecnologia digital. Muito da força artística do Kraftwerk vem também de sua capacidade de enxergar o layout da pré-modernidade, de retirar as linhas mestras de trens, linhas férreas, usar o conceito primário de aerodinâmica como base de sua arte gráfica visual. Isso nunca foi equiparado na música pop.

Ao se despedirem, saindo um de cada vez, ao som de Music Non Stop, era como se ficasse um grande vazio no espaço, um vazio que nem toda a música que o Sónar projetasse para as próximas horas, os próximos dias, pudesse preencher. Alguns garotos diziam que pintou um certo tédio no final, mas o que é o Kraftwerk senão a reiteração crítica de nosso tédio metropolitano?

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