Koellreutter comemora 85 anos com Acronon

A música que transcende a própria música na busca da interdisciplinariedade, reflexo de um processo criativo que coloca as etapas de criação antes mesmo do resultado em si. A preocupação com o tempo vivencial em detrimento do cronológico. A liberdade na busca de uma nova estética, capaz de fazer as pessoas construírem um novo mundo de referências, baseado na experiência e na hierarquia não absoluta. Essas são algumas das idéias que marcaram a vida do homem, compositor e maestro alemão Hans-Joachim Koellreutter, e que estão presentes no disco Acronon, que ele lança amanhã, pouco dias depois de completar 85 anos (fez aniversário no dia 2).O disco, que tem a participação do pianista Sérgio Villafranca, faz um apanhado da produção musical do maestro nos últimos 50 anos, reunindo composições de diversos momentos de sua carreira. "Não quisemos, no entanto, organizar as peças de modo cronológico uma vez que, para Koellreutter, o tempo que vale não é o de relógio, mas sim o vivencial", conta Villafranca. Dessa forma, ele acredita que o disco se encontra em completa harmonia com o modo de vida e a ideologia do maestro.O título Acronon deriva do grego, em que "cronos" significa tempo e o "a", alfa privativo, que não nega, mas dá margem à superação, à transcendência. "O ponto final de uma obra, em que não haveria mais nada a dizer sobre ela, é uma ilusão: tudo deve ser nova interpretação e o processo de execução é mais importante do que o resultado", afirma Koellreutter, que aponta o papel do intérprete como fundamental. "O intérprete não deve executar a partitura dos compositores, mas co-participar de um processo de comunicação entre ele, o compositor e o ouvinte."Para ele, Villafranca é um dos poucos pianistas brasileiros capazes de "interpretar criativamente". "Ele é, para mim, o protótipo de um mitógrafo musical, que interpreta, ou melhor, traduz o conteúdo onijetivo de uma obra musical, isto é, um texto que desconhece a divisão rigorosa entre as realidades subjetiva e objetiva da obra."Nesse contexto, no qual a interpretação aparece como processo de criação, é importante ressaltar a esfera acronon de Koellreutter, reproduzida na capa do disco, como ponto central. "Minha visão de mundo me faz sentir tudo o que vivemos como se fosse um todo transparente e só por meio de uma esfera isso poderia se transformar em música", relata Koellreutter.Hierarquias - A esfera tem três diferentes tipos de marcação, que indicam diferentes andamentos. Em vermelho, estão os andamentos mais rápidos. Em preto, os mais lentos e, em verde, os moderados. Apesar disso, Koellreutter e Villafranca fazem questão de ressaltar que não há hierarquias na música. "A música, assim como a arte em geral, do passado é hierárquica", lembra o pianista. "Aqui não há hierarquias absolutas, tudo se constrói a partir de escolhas", completa o maestro.Assim, o resultado sonoro é multidirecional. "Trata-se de uma música polifonica, não por possuir várias vozes, mas pelo número de figurações possíveis", explica Villafranca. "O mesmo som pode ser agudo e grave, simples e complexo, o que exige muita improvisação, colocando o intérprete, de certa forma, também como compositor." Essa possibilidade múltipla de significados fez com que, em busca de alcançar dimensões maiores de interpretação, o pianista tocasse, na gravação, em dois pianos diferentes. "Ao fazer duas versões diferentes da mesma peça em instrumentos diferentes, fica mais fácil sentir as múltiplas possibilidades que a interpretação permite", mostra Koellreutter.Sérgio Villafranca - Recital de piano com peças de Koellreutter. Amanhã, às 20 horas. Grátis. Museu da Imagem e do Som. Avenida Europa, 158, em São Paulo, tel. 852-9197.

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