Kléber Albuquerque amadurece em segundo CD

Kléber Albuquerque nasceu, cresceu e vive no ABC paulista. Começou faculdade, mas desistiu. Perambulou pelo circuito dos festivais do interior e ganhou muitos prêmios. No júri de um desses festivais, estava um mecenas e o dono de uma gravadora alternativa, a Dabliú. Kléber fez o primeiro disco, de título estranho, 17.777.700 (o número de sua carteira de identidade) em 1997. Agora, sai o segundo, também pela Dabliú, sem mais necessidade de mecenato, chamado Para a Inveja dos Tristes.Ele está classificado no Festival de Música Brasileira, da TV Globo, com um número muito forte, uma embolada de levada pop, parceria com Rafael Altério, outro vencedor de festivais do interior: Xi! De Pirituba a Santo André. Quem viu a vinhetinha que a televisão está mostrando sabe da força do número. Calcula que, mesmo que não vença, Kléber entra para o rol das estrelas.Nada menos merecido. Com idade próxima dos 30 anos, Kléber é o mais original poeta da geração surgida nos anos 90 - e que só começa a aparecer agora. Uma consideração importante: nos anos 60 e 70, época dos festivais, os novos autores surgiam para o grande público com 20 anos, um pouco mais ou menos. A partir dos anos 80, sem vitrine para exibir-se, os novos precisaram cavar caminho em vias paralelas - os festivais do interior foram a estrada principal.Foi assim com Chico César, Zeca Baleiro, Lenine, Celso Viáfora, entre muitos que se poderiam citar. Será assim com Kléber, é inevitável. Do primeiro disco para o segundo, ele amadureceu. Tornou a lâmina de sua poesia ainda mais afiada. No primeiro, dizia, em Sete Luas: "Eu tenho a idade escassa/ Eu tenho a noção do espaço/ Eu tenho a saliva espessa (...) Esperança rasa/ Eu tenho razão". Consegue ser mais incisivo em A Chave Certa, do novo disco - insistindo em conjugar os verbos na primeira pessoa: "Eu tenho a chave certa para cada porta/ A resposta exata pra qualquer pergunta/ O olhar atento na paisagem (...) É que eu sou feito do metal que me fere/ É que a pele do tambor é a minha pele".Para a Inveja dos Tristes acentua o sotaque pop já anunciado no CD anterior, mas esse pop é uma vestimenta, como poderia haver outra qualquer, pois melodia, harmonia e poesia seguem a tradição da grande música popular: o misto de sofisticação e simplicidade assoviável, de elaboração poética e clareza de discurso, como em Espera, com suas rimas internas e suas inversões na ordenação frásica: "Arrumei a casa, espanei o pó do peito/ A tristeza, dei um jeito de escondê-la no capacho/ Areei os olhos, me quarei lá no riacho/ Tirei a roupa do tacho e botei tudo no lugar (...) A casa eu arrumei, comi os dedos no rosário/ Eu rasguei o calendário, eu chorei bastante/ Enforquei os olhos na linha do horizonte/ Mas olhei mais adiante e botei tudo no lugar/ Para o ano, não se espante, meu amor vai voltar!"É um tema de sempre, é uma sintaxe nova. Essas coisas já foram ditas, não dessa forma, não nessa construção; percebe-se a existência do novo poeta, do poeta novo (são poetas, os letristas da música brasileira) quando surge um que consiga tal feito. Além do mais, Kléber é um melodista excepcional, capaz de momentos emocionantes, como mostra em Eu não Sei Falar de Amor, uma balada triste, em tom menor - e a mulher que tem "uns dez mil sapatos, um pra cada passo em falso", de Uns Dez Mil Amantes?Kléber, que é ótimo cantor (às vezes lembra Caetano Veloso, que é, de fato, uma referência, mas atualizada), incorpora palavras novas ao repertório poético, outro mérito ("Hoje ninguém me segura/ Hoje mereço a mirra, o incenso, o alcalóide", em A Ópera do Rinoceronte). Fugiu, corajosamente, dos caminhos simples que o talento lhe permitiria trilhar em busca de fama rápida e dinheiro mais fácil. Está construindo uma obra e brilhará, de qualquer forma, mais cedo ou mais tarde, pois a força de sua criação é irresistível, como todos veremos.

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