Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

Kiko Dinucci 'enfim' lança primeiro disco solo depois de 17 colaborações

Álbum 'Cortes Curtos ' dialoga com a influência do artista com o cinema e expõe uma São Paulo caótica e cinza

Pedro Antunes , O Estado de S.Paulo

20 Janeiro 2017 | 05h00

Kiko Dinucci tinha 15 anos quando assistiu a Terra em Transe, de Glauber Rocha, no Museu da Imagem e do Som (o MIS). Não entendeu bulhufas e deixou o cinema tonto com a câmera do ícone do Cinema Novo. Tinha visto Deus e o Diabo na Terra do Sol, também de Glauber, e o resultado foi o mesmo. Ainda assim, o garoto deixava Guarulhos e, de ônibus, vinha a São Paulo para frequentar os cinemas paulistanos atiçado pela ideia de compreender a sétima arte. Guri fã de punk rock, ainda distante do samba que viria a conhecer em seguida, Kiko descobria novas linguagens, saboreava cores, diálogos, longos silêncios e narrativas inventivas projetadas na tela grande.

Não é surpresa, 24 anos depois daquela sessão no MIS, a narrativa cinematográfica escancarada em Cortes Curtos, o primeiro disco solo do artista que já lançou 17 álbuns., que chega 7 de fevereiro. Dinucci, guitarrista dos mais inventivos de uma geração instigada pelo torto, pelo descompasso e pela transmutação que se espalha pelas ruas paulistanas (veja outros nomes ao lado), buscou no cinema a inspiração para interligar as 15 canções que compõem seu álbum. 

Cortes Curtos era prometido há muito tempo: desde 2011. Para entender o motivo pelo qual o disco, tão citado por Dinucci em entrevistas, só agora foi concretizado, é preciso voltar àquele ano. Foi em 2011 que ele estreou dois projetos que mantém até hoje, Passo Torto (com Rodrigo Campos, Rômulo Fróes e Marcelo Cabral) e Metá Metá (com Thiago França e Jussara Marçal). São bandas com seus primeiros discos elogiados pela crítica, que geram frutos até hoje – cada um deles tem três álbuns cheios lançados –, além de projetos derivados, desaguando no brilhante A Mulher do Fim do Mundo, de Elza Soares. 

Com álbum atrás de álbum, turnê atrás de turnê, Dinucci foi testando as 40 canções criadas para Cortes Curtos em shows esporádicos na pequenina Casa de Francisca, em São Paulo. Chegou a 15 faixas e, em 2015, entrou no estúdio Red Bull Station, no centro da cidade, para gravar o disco. Em cindo dias, Cortes Curtos estava pronto – sendo dois deles usados para registrar as participações. 

O título do trabalho já é uma dica direta à influência do cinema ao derivar de Short Cuts – Cenas da Vida, dirigido pelo norte-americano Robert Altman, de 1993. O longa apresenta histórias distintas, baseadas nos contos do escritor Raymond Clevie Carver Jr., que retratam diferentes aspectos da Los Angeles naquela virada dos anos 1980 para 1990. 

Em 2011, Dinucci mergulhava por discos do protopunk, de músicos como Iggy Pop, Lou Reed, New York Dolls, David Bowie, cujo cenário era uma Nova York barulhenta, de ratos nas ruas, com heroína nas veias e ruídos de guitarra brotando de inferninhos esquisitos. Transformer, o segundo disco de Reed após o Velvet Underground, de 1972 e produzido por Bowie e Mick Ronson, era a obsessão de Dinucci na ocasião. O disco trazia um retrato da Manhattan da época em canções como Walk on the Wild Side, Perfect Day e New York Telephone Conversation. “Pensei em fazer uma espécie de Transformer paulistano”, conta Dinucci. “Não como uma referência musical direta, mas sobre estética, conceitualmente.”

Com letras curtas, “como haicais”, como Dinucci gosta de brincar, o álbum constrói essa São Paulo numa intersecção clara entre a versão paulistana de Carver Jr. e a narrativa de Reed. A história contada no disco, ao longo das 15 faixas, é contínua, sem quebras, como se fosse projetada na tela de cinema. A guitarra de Dinucci grita mais alto do que as vozes, dele ou dos convidadas, Juçara Marçal, Tulipa Ruiz e Ná Ozzetti. O alto volume do instrumento de Dinucci era uma vontade do artista que, mesmo nascido musicalmente em berço punk, sempre se incomodou com a ausência de força da guitarra nos discos gravados no Brasil desde os álbuns de punk e rock dos anos 1980. “É uma herança da Passeata Contra a Guitarra Elétrica”, ele analisa, referindo-se à marcha realizada em julho de 1967, em São Paulo, com apoio de Elis Regina e Jair Rodrigues. 

Cortes Curtos instiga uma reflexão sobre a São Paulo cinza, caótica, perturbadora e contemporânea. Uma canção como A Morena do Facebook, a nona do álbum, pode ser uma versão cibernética e pessimista de Perfect Day, de Reed. O disco é punk, como diz ele, mas não em seu estado puro. Cortes Curtos só existe após Dinucci se aventurar pelo samba, pela cultura afro e pelos outros 17 discos que vieram antes dele. “É como se eu encontrasse aquele Kiko de 14 anos e dissesse: ‘Ficar só ouvindo essas bandinhas punk não vai ser suficiente, não dá para passar a vida tocando hardcore’”, ele diz. Até para explicar seu punk-samba torto, Dinucci recorre à linguagem cinematográfica – essa cena daria um belo filme. 

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