Kevin Johansen planeja gravar no Brasil um CD com canções nacionais

Argentino e parceiro musical de Jorge Drexler faz show em SP

João Fernando, O Estado de S. Paulo

12 Setembro 2014 | 19h00

Só o fato de ter chegado à final da Copa deste ano seria motivo para um argentino querer tirar sarro de um brasileiro. A regra, entretanto, não se aplica ao hermano Kevin Johansen. "Acima dos folclorismos estúpidos e desportivos da rivalidade dos vizinhos, há a música, que unifica. Com ela estamos mais próximos do que nunca", sentencia, com sotaque portenho, o cantor, que vem a São Paulo para se apresentar ao lado de sua banda, The Nada, no palco do Bourbon Street, na próxima quinta.

Apesar do recém-lançado DVD Bi(Vo) en México, gravado no país que dá o título, Johansen não dará destaque para as canções inéditas no show. "Como não vamos tanto ao Brasil, não dá para tocar músicas que as pessoas não conhecem. Senão, vai ser algo entre a demagogia e a festa. Sempre colocamos a camisa do país aonde vamos. Tocaremos o que gritarem e quiserem escutar. Para mim, chegar ao Brasil é sempre uma festa. É a única parte da América Latina que fala outra língua, é uma conquista", comemora.

Entusiasta da produção nacional, o argentino cita uma lista de artistas favoritos que vai de Tom Jobim e João Gilberto a Marisa Monte e Seu Jorge, passando por Skank e Cidade Negra. Ele reconhece que a música latina não chega aqui com a facilidade que as brasileiras alcançam os países vizinhos. "O Brasil é uma espécie de império musical e é um imperialismo cultural em todo o mundo", analisa o cantor, que gravou com Daniela Mercury e seu parceiro de longa data, Paulinho Moska, no último disco, Bi (2012).

O título remete à formação de Johansen, que apesar do jeitão portenho, nasceu no Alasca, filho de pai norte-americano e mãe argentina. A mistura e o tempo em que viveu em Nova York, antes de partir para Buenos Aires, se refletem em sua discografia, repleta de canções cantadas em espanhol e inglês.

"Sou meio gringo, meio latino. Isso resulta numa curiosidade. Como também canto em inglês, isso me amplia o público", palpita o artista, badalado em terras hermanas e ainda não tão conhecido aqui. "Tive colaborações de amigos. Paula Toller cantou Anoche Soñé Contigo. São coisas que ajudam que o público mainstream queira me ver. Eu me surpreendi que, no ano passado (quando tocou no Sesc Vila Mariana), havia tantos brasileiros na plateia, não somente os latinos que estão aí."

Embora se derreta por composições tupiniquins, Kevin Johansen evita canções nacionais no palco. "Sempre me dá um 'negocinho' cantar uma música brasileira, pois seria como alguém vir aqui e cantar um tango", justifica ele, que perdeu uma oportunidade durante o primeiro show no Rio. "Na segunda fileira estava o Caetano Veloso. Eu sabia várias músicas dele. Tinha vontade de cantar, porém, me disseram que ele não gostava que cantassem músicas dele. Depois, me senti um estúpido. Ele veio e nos chamou para comer uma pizza. É bem capaz de que, se nós tivéssemos tocado, ele gostasse. Eu me senti intimidado."

Johansen foi um dos escalados para o projeto Encuentros en Brasil, série de TV veiculada na América do Sul para incentivar o turismo por aqui. Além de visitar pontos como Ouro Preto e Fernando de Noronha, ele compôs uma música "inspirada na alma brasileira". No time de cantores estava ainda seu parceiro musical Jorge Drexler. Desde o ano passado, ele promete uma turnê com o colega uruguaio. "Estamos vendo os problemas de agenda. No final de 2015 ou no começo de 2016 faremos algo juntos."

Brasuca. De Buenos Aires, de onde falou com o Estado por telefone, Johansen revelou o plano de gravar por aqui um CD só de canções nacionais. "Estamos conversando para fazer no verão, com sabor brasileiro. Tenho muita vontade. Todos nós que tocamos violão temos uma fraqueza pela música brasileira. É o instrumento que marca o samba, a bossa. A música brasileira é muito poderosa", elogia. Antes de desligar, o hermano fez questão de dar um recado. "Queria esclarecer que a letra da Copa (grito da torcida argentina para provocar os brasileiros "Brasil, decime que se siente/ Tener en casa tu papá") estava errada, vocês que são o nosso pai."

KEVIN JOHANSEN+THE NADA

Bourbon Street. Rua dos Chanés, 127, Moema, 5095-6100. 5ª (18), 21h45. 80 min., 18 anos. De R$ 75 a R$ 95. 

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