Serjão Carvalho/ Estadão
Serjão Carvalho/ Estadão

Kendrick Lamar pede e recebe a coroa e faz o grande show do Lollapalooza Brasil 2019

Rapper americano pisou pela primeira vez no País para provar que o Brasil está pronto pra receber as maiores estrelas do rap global

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

07 de abril de 2019 | 22h31

I got, I got, I got. O começo de DNA, um dos hits de DAMN, foram as primeiras palavras que Kendrick Lamar falou em cima de um palco no território brasileiro na história.

Ele fechou o Lollapalooza Brasil 2019 com um show de rap explosivo repassando as fases de sua carreira, mas com o repertório centrado no disco mais recente — o que lhe rendeu um Pulitzer.

O começo com DNA é a primeira parte de um triplete com Element e King Kunta (single de To Pimp a Butterfly, seu disco mais bem acabado, de 2015), um conjunto de canções de abertura de fazer inveja em qualquer tipo de ato musical no globo. Uma banda enxuta de quatro outros músicos faz suas bases no palco.

"Demorei muito pra vir ao Brasil", admite.

Kendrick Lamar veio ao Lollapalooza botar à prova se o modelo de festivais do Brasil, de preços elevados e acesso complicado, consegue bancar grandes artistas do gênero mais ouvido na América do Norte hoje em dia: o hip-hop.

Sempre baseados ao redor de artistas estrangeiros, os festivais timidamente caminham na direção de escalar os rappers hoje na primeira linha do gênero: a dúvida que sempre existiu foi se os cachês encorpados refletiriam em ingressos adquiridos. O público de hoje, que viu mais cedo o show animado do rapper carioca BK e o desfile de hits de Gabriel, o Pensador, foi de 76 mil pessoas segundo a organização.

Kendrick Lamar vem ao Brasil em seu momento mais glorioso — ainda que Good Kid M.A.A.D City (2012) e To Pimp a Butterfly (2015) sejam realizações artísticas mais completas, DAMN. segue sendo um disco de rap brilhante.

Lamar é um dos pilares da plataforma que tornou o hip hop o maior gênero do mundo em relevância artística na década de 2010, porque seguiu aprimorando os fundamentos do estilo (flow, lírica, rimas, sintaxes complexas) mas levou as estruturas rítmicas do gênero a novos patamares ao aliar beats ambiciosos com habilidades de músicos revolucionários do jazz como Kamasi Washington e Thundercat.

No palco, ele também apresenta um par de participações suas em músicas de colegas: goosebumps, de Travis Scott, e Collard Green, de Schoolboy Q (anote este nome: ele vai lançar um disco este ano que tem muita expectativa ao seu redor, o seguinte a Blank Face, de 2016). Scott, por sua vez, lançou o bombástico Astroworld em 2018.

Voltando a Kendrick. Ainda antes da metade do show ele manda um par de canções do Good Kid, Swimming Pools (Drank) e Backseat Freestyle, que provam que há anos ele apresenta um tipo de visão mais agressiva filosoficamente do restante do mainstream com quem convive: "toda a minha vida quis dinheiro e poder / respeita a minha mente ou morra com uma chuva de chumbo".

Loyalty, sua parceria com Rihanna, dá um respiro no show com uma mensagem romântica. Em Lust, também do DAMN, uma amostra do flow milimétrico que aqui ele apresenta agachado. "Olhem isso", avisa antes de engatar uma palavra na outra como uma máquina de costura super cool em velocidade avançada.

Mais à frente, ele exibe vídeos condenando violência policial contra pessoas negras, e seu personagem, Kung Fu Kenny aparece na tela aprendendo uma missão de um mestre oriental. É possível que ela seja "salvar o mundo" e o incrível é que, se ele não conseguir sozinho, ajuda muito com o senso de justiça social apurado que existe em praticamente qualquer um dos seus versos.

Depois de fazer todo mundo acender o celular numa reflexiva Pride, ele se emociona ao dizer que "tem algo especial rolando entre nós" (o público) e as lágrimas que caem do seu rosto provam que não há demagogia nas palavras. Love é a última calmaria antes do empurrão final.

Bitch Don't Kill My Vibe e Alright fazem a passagem das últimas almas que ainda não se entregaram. A última parte do filme, Kung Fu Kenny, acaba com uma piscadela transcedental do personagem resultando na abertura de Humble, sua faixa com mais de um bilhão de streamings no Spotify, uma linha de baixo derivada do funk americano acrescida de elementos eletrônicos do hip hop e o refrão inesquecível: "senta aí, seja humilde".

"Ole ole ole olá, Kendrick, Lamar", pede um animado público brasileiro diante de uma estrela do rap de nível global, antes do bis.

Ele termina com All The Stars, parceria com SZA da trilha sonora de Pantera Negra indicada ao Oscar.

Kendrick Lamar provou no Lollapalooza que Brasil está pronto para receber os maiores rappers do mundo.

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