REUTERS/Mario Anzuoni/File Photo
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Kendrick Lamar mereceu o Pulitzer porque o rap é a música mais relevante do nosso tempo

Rapper de Compton se tornou o primeiro músico pop a receber a distinção

Chris Richards, The Washington Post

17 Abril 2018 | 10h45

“Damn!”. Kendrick Lamar acabou de vencer o Prêmio Pulitzer de música. O que isso significa? Muitas coisas.

Primeiro, isso confirma que esses dias estranhos têm sido puro ouro para a cultura pop negra. Pantera Negra fez história na bilheteria, Beyoncé fez história no Coachella, e na segunda-feira, 16, um dos principais candidatos a Voz De Sua Geração fez história ao vencer uma medalha que só havia sido pendurada sobre o coração de músicos clássicos e de jazz. Com sorte, aquele museu mais ou menos novo no National Mall ainda tem algum espaço nas paredes.

O que significa além disso: Que a música rap é o idioma pop mais relevante do nosso tempo. É o som da vida americana no século 21 — uma forma de arte negra com um público preto-e-branco-e-todo-o-mais. A música é uma conversação implícita sobre os legados conjuntos da escravidão, segregação, brutalidade policial e outros injustiças medonhas que a nossa sociedade não se importa em resolver. Nesse sentido, o rap é o som de uma nação rachada lutando para entender a si mesma.

E Lamar entende isso. Quando ele dispara para dentro de um verso virtuoso, ele não está tentando confundir nossas orelhas, mas sim vocalizar sua própria hiper-consciência do estado da nação em tempo real.

Em DAMN., seu espantoso álbum de 2017, ele explora uma paisagem esfumaçada e deixa a frustração quicar da sua língua: “É assassinato na minha rua, na sua, nas ruas de trás, em Wall Street, escritórios, bancos, empregados e patrões com pensamentos homicidas”. Em um momento de profunda desorientação nos Estados Unidos, aqui estava um álbum de rap que soava de olhos abertos e de pés no chão. Na segunda-feira à tarde, ele rendeu o primeiro Pulitzer para um sujeito de 30 anos de Compton.

Não vamos esquecer que DAMN. não venceu a categoria álbum do ano na 60.ª edição do Grammy Awards, em fevereiro — um tipo de choque deprimente, até você lembrar que a Academia de Gravação só concedeu seu principal prêmio para um disco de rap uma vez. A derrota marcou a terceira vez consecutiva que Lamar foi esnobado na categoria álbum do ano, e foi o bastante para fazer você pensar por que uma indústria que lucra tão generosamente com arte negra inflexivelmente se recusa a celebrá-la.

Alguns prêmios significam mais do que outros, porém, e enquanto prestígio frequentemente tende a calcificar nossas ideias sobre o que constitui grandeza, o comitê do Pulitzer deu um passo a frente em reconhecer o valor do trabalho de Lamar. Fazendo isso, nossa definição comum de “boa música” instantaneamente se torna mais flexível.

Talvez Lamar soubesse disso o tempo todo. Ele sempre namorou o prestígio, e em 2015, quando seu galvânico To Pimp a Butterfly foi indicado a álbum do ano no Grammy 2016, ele não hesitou em solicitar o reconhecimento pelos poderes em questão.

“Em última análise, para a comunidade hip-hop, eu amaria que nós ganhássemos tudo”, Lamar disse ao The New York Times sobre as nove categorias a que foi indicado naquele ano. “Porque nós merecemos.”

A verdade é que ele merecia mais. E segunda-feira foi um bom começo. / Tradução Guilherme Sobota

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