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Keith Richards, setentão

Mais icônico dos guitarristas de rock vivos, ele moldou uma lenda de genialidade e doideira

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

18 de dezembro de 2013 | 07h48

Durante mais de meio século, seu rosto sulcado, seu cigarro eternamente caído e meio apagado no canto da boca, seu sorriso cínico e os riffs de guitarra precisos moldaram a ética e a estética de gerações.

Keith Richards, guitarrista dos Rolling Stones, o "Cigano Selvagem" (como o chama Mick Jagger), ou o pirata pai de Jack Sparrow (como preferem os caçulas), está completando 70 anos nesta quarta-feira. Para o rock and roll, ele é uma espécie de Dante Alighieri, um fundador de uma linguagem. Os riffs de Satisfaction, Start me Up, Jumpin' Jack Flash e Honk Tonk Woman são praticamente sintaxes inaugurais de um gênero artístico.

Keith Richards nasceu em 18 de dezembro de 1943. No verão de 1944, quando Keith só tinha completado o primeiro ano de vida, Dartford (a cidade a cerca de 20 minutos de Londres de trem onde ele e Mick Jagger nasceram) ainda era um alvo constante das bombas nazistas durante a Segunda Guerra mundial. Sua casa quase foi partida ao meio por uma bomba, e ele cresceu em meio a ruínas.

"A vizinhança era dominada por gangues", ele lembrou. No subúrbio cortado ao meio por uma linha de trem, Keith esquivava-se como podia para apanhar menos dos valentões, e absorvia a cultura americana do rock and roll por meio da rádio que escutava, a Luxembourg. Vestia-se de caubói e era fascinado por Chuck Berry e Muddy Waters.

Mas é muito mais espantosa a sobrevivência de Richards ao ambiente de desregramento sensorial que eles viveram no Sul da França (onde gestaram o seu maior disco, Exile on Main Street) do que à sua infância proletária e problemática.

Na Wentworth Primary School, o garoto Richards conheceu Mick Jagger (por sua vez, fissurado em Jerry Lee Lewis, Little Richard e Buddy Holly), o dândi que se tornaria seu duplo. Essa parceria também é definidora de um antagonismo fundamental do rock. Mick e Keith nunca se largaram, mas também nunca deixaram de se estranhar. A primeira vez foi quando Mick foi escalado para viver num filme orgíaco cenas tórridas com a então namorada de Keith, a liberada atriz Anita Pallenberg (que Keith costumava até pagar para que evitasse certos roteiros). Mick foi acusado de continuar as cenas de sexo fora da tela. Estremeceu pela primeira vez a relação.

Sugere-se que a saga meio cavaleiro solitário de Richards parece não ter sofrido altos e baixos ao longo desses últimos 50 anos, mas não é tão verdade. Ele sentiu o baque de certos movimentos de renovação do rock, como o punk. "Eles não sabiam tocar e nós sabíamos. Eles só sabiam ser punks. Esses Johnny Rottens da vida. Eu adoro bandas novas, mas quando eles só sabem cuspir nas pessoas, sinto que dá para fazermos algo melhor", desabafou, em 1977, no auge do punk rock e no momento do lançamento do disco Some Girls, dos Rolling Stones.

A saga de Richards nos Rolling Stones é amplamente conhecida. Seus problemas com álcool, drogas e mulheres renderam inúmeros livros, biografias e até uma autobiografia, Life, de 2010 (a qual, dizem, o autor James Fox recebeu um adiantamento de US$ 7 milhões para escrever). Mais adiante, ele pediria desculpas pelos comentários depreciativos que fez sobre Mick no livro.

Até o que é mistério na vida de Richards também é amplamente conhecido. O fim trágico de um de seus parceiros originais, Brian Jones, morto numa piscina, por exemplo. "Os problemas de Brian não eram musicais. Havia algo nele que, se as coisas iam bem, ele deveria fazer algo para embaralhá-las. Eu conheço a sensação: há um demônio em mim também, mas eu só tenho capacidade de possuir um deles; Brian provavelmente tinha 45 demônios a mais", diz Keith Richards.

Com os Stones, ele veio ao Brasil diversas vezes (especula-se que voltarão em 2014, mas parece que é só esperança). Contam que foi aqui, inclusive, que o candomblé de Salvador, em 1969, teria fornecido régua e compasso para o ritual percussivo de Sympathy for the Devil. E que em Honk Tonk Woman, Richards teria tido inspiração direta da viola caipira do interior de São Paulo, inspiração "surrupiada" durante visita a Matão.

Numa das visitas ao Brasil, em 1998, enquanto estavam hospedados na ilha do cirurgião Ivo Pitanguy, Keith e o guitarrista Ron Wood levaram um belo susto. A bruxa andou solta. Além de torcer o pé, Keith teve de ser socorrido por jornalistas brasileiros quando a lancha em que passeavam com Elcius Pitanguy (filho do cirurgião Ivo), sofreu um curto-circuito.

Hilariante a história que Tom Waits contou ao Pitchfork sobre como se deu sua colaboração com Keith Richards no disco Bad as Me (de Waits). Ele brincou com o cara da gravadora quando este perguntou que convidados gostaria de ter. Disse apenas: "Keith Richards". E não é que eles convidaram mesmo? "Eu fiquei nervoso. Ele chegou com 600 guitarras numa picape. Estávamos num desses estúdios gigantes em Nova York, como se fosse As Aventuras do Poseidon. Colossal, com tetos tão altos quando os de campos de futebol. Eles enchem essas coisas com orquestras, e nós éramos apenas cinco caras. Tava esquisito. Ele me aniquilou. Foi de derrubar quando ele tocou em todas aquelas coisas".

A lenda de Richards não cessa de produzir estilhaços. Ele escandalizou o mundo recentemente contando que cheirara as cinzas do próprio pai, cremado. Vive em Connecticut com a mulher, Patti Hansen, e também faz suas incursões pelo mundo sem os Stones com sua banda, The X-Pensive Winos. Há um vídeo de dois anos atrás em que aparece fazendo uma jam com o bluesman James Cotton. Sua voz, nas raras baladas que canta com os Stones, é quase um fiapo de um lamento alcóolico, como se pode ouvir em Losing My Touch.

Uma vez, com sua refinada ironia, ele brincou, ao lado de uma garrafa de vodca e maços e mais maços de cigarro. "As pessoas deveriam dizer: não é maravilhoso que esses caras se movimentem dessa forma? É um sinal de esperança para todos vocês". Após uma pausa, concluiu: "Só não sigam a minha dieta."

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