Daniela Yohannes/ECM Records
Daniela Yohannes/ECM Records

Keith Jarrett confronta um futuro sem o piano

Depois de anos, o pianista de 75 anos quebrou o silêncio, declarando claramente o que aconteceu com ele: um AVC no final de fevereiro de 2018, seguido por outro em maio

Nate Chinen, The New York Times

24 de outubro de 2020 | 11h00

A última vez que Keith Jarrett se apresentou em público, seu relacionamento com o piano era a última de suas preocupações. Isso foi no Carnegie Hall em 2017, várias semanas desde o início do mandato de um novo polêmico presidente nos Estados Unidos.

Jarrett – um dos mais aclamados pianistas vivos, um artista galvanizador do jazz que também gravou uma riqueza de música clássica – abriu a apresentação com um discurso indignado a respeito da situação política e fez uma crítica implacável durante o concerto. Ele terminou agradecendo ao público por levá-lo às lágrimas.

Ele estava agendado para voltar ao Carnegie no mês de março de 2018 para outro dos recitais solo que mais contribuíram para criar sua história — como o capturado na gravação Budapest Concert, que será lançada em 30 de outubro. Mas o retorno ao Carnegie foi abruptamente cancelado, junto com o resto de sua agenda de shows. Na época, a gravadora de longa data de Jarrett, ECM, citou problemas de saúde não especificados. Não houve nenhuma atualização oficial nos dois anos desde então.

Mas neste mês, Jarrett, 75 anos, quebrou o silêncio, declarando claramente o que aconteceu com ele: um AVC no final de fevereiro de 2018, seguido por outro em maio. É improvável que ele volte a se apresentar em público.

“Fiquei paralisado”, disse ele por telefone de sua casa no noroeste de Nova Jersey. “Meu lado esquerdo ainda está parcialmente paralisado. Eu consigo tentar andar com uma bengala, mas demorou muito para isso, demorou um ano ou mais. Não estou andando muito pela casa, na verdade. "

Jarrett inicialmente não percebeu o quão sério tinha sido seu primeiro AVC. “Definitivamente me pegou de surpresa”, disse ele. Mas depois que mais sintomas surgiram, ele foi levado para um hospital, onde gradualmente se recuperou o suficiente para receber alta. Seu segundo AVC aconteceu em casa e ele foi internado em uma clínica de repouso.

Durante sua estadia lá, de julho de 2018 até maio deste ano, ele usou algumas vezes o piano do local, tocando algum contraponto com a mão direita. “Eu estava tentando fingir que era Bach com uma mão”, disse ele. "Mas isso foi apenas para brincar com alguma coisa." Quando ele tentou tocar algumas músicas conhecidas de bebop em seu estúdio caseiro recentemente, descobriu que as havia esquecido.

A voz de Jarrett está mais suave e fina agora. Mas ao longo de duas conversas de aproximadamente uma hora, ele mostrou-se lúcido e compreensível, exceto por lapsos ocasionais de memória. Frequentemente, ele pontuava uma declaração pesada ou estranha com uma risada, como uma exalação rítmica fraca: Ah-ha-ha-ha.

Criado na fé da Ciência Cristã, que defende evitar o tratamento médico, Jarrett voltou a essas amarras espirituais — até certo ponto.

“Eu não me entrego ao 'por que eu' com muita frequência”, disse ele. "Porque, como um cientista cristão, seria esperado que eu dissesse: ‘Afasta-te de mim, Satanás’. E eu estava fazendo isso de alguma forma quando estava na clínica de repouso. Não sei se tive algum êxito, porque veja como estou."

“Não sei qual será o meu futuro”, acrescentou. “Não me sinto neste momento como um pianista. Isso é tudo que posso dizer a respeito."

Após uma pausa, ele reconsiderou. “Mas quando ouço música de piano tocada por duas mãos, é muito frustrante, do ponto de vista físico. Se eu escuto Schubert, ou algo tocado suavemente, é demais para mim. Porque eu sei que não poderia tocar. E não se espera que eu me recupere disso. O máximo que se espera que eu recupere da minha mão esquerda é possivelmente a capacidade de segurar uma xícara com ela. Portanto, não é algo como ‘atire no pianista’. É: eu já levei um tiro. Ah-ha-ha-ha. ”

Nasce um prodígio

Se a perspectiva de um Keith Jarrett que não se considera mais um pianista for chocante, pode ser porque quase não houve um tempo em que ele não tenha sido um. Crescendo em Allentown, Pensilvânia, ele foi um prodígio. Seguindo a tradição da família, ele tinha três anos quando uma tia mostrou-lhe um riacho próximo e disse-lhe para transformar seu borbulhar em música — sua primeira improvisação de piano.

Ele alcançou o amplo reconhecimento do público no final dos anos 1960, quando estava em um grupo que capturava o espírito da época liderado por Charles Lloyd, um saxofonista e flautista. O brilhante baterista desse quarteto, Jack DeJohnette, ajudou Miles Davis a se lançar no rock e no funk. Jarrett fez o mesmo, juntando-se a uma edição incandescente da banda de Davis; em gravações ao vivo, seus interlúdios no piano elétrico lançavam um feitiço.

Jarrett logo encontrou algo semelhante em seus próprios shows, permitindo que passagens improvisadas se tornassem o momento mais importante das apresentações. Ele estava há alguns anos nessa proposta em 1975, quando executou o que se tornaria The Köln Concert — um marco sonoro e hipnotizante que ainda permanece como um dos álbuns solo de piano mais vendidos. A gravação também foi saudada como uma lição prática do triunfo sobre a adversidade, incluindo a dor física de Jarrett e a exaustão na época, e sua frustração por um piano inferior.


Essa sensação de superar obstáculos intransigentes é uma característica duradoura do mito de Jarrett. Às vezes, ao longo dos anos, pode até parecer que ele criou seus próprios obstáculos: transformando concertos em provas de intensidade hercúlea e, como é sabido, interrompendo-os para advertir seu público por tirar fotos ou por tossir excessivamente. Um perfil da New York Times Magazine em 1997 trazia uma manchete irônica: “O Mártir do Jazz”. No ano seguinte, Jarrett anunciou que estava lutando contra uma doença devastadora e misteriosa conhecida como síndrome da fadiga crônica.

Enquanto recuperava as forças, ele gravou uma série de baladas em seu estúdio caseiro (mais tarde lançadas como o comovente e requintado álbum The Melody at Night, With You). Em seguida, ele reuniu seu trio de longa data, um grupo magicamente coeso com DeJohnette e o virtuoso baixista Gary Peacock.

Seu primeiro show de retorno, em 1998, apareceu recentemente como gravação, juntando-se a uma discografia volumosa. Ela captura um espírito de reunião alegre não apenas para Jarrett e seus parceiros do trio, mas também entre um artista performático e seu público. Ele chamou esse álbum de After the Fall; a ECM o lançou em março de 2018, não intencionalmente na época de seu primeiro derrame.

O luto tomou conta do círculo musical de Jarrett ultimamente. Peacock morreu no mês passado, aos 85 anos. Jon Christensen, o baterista do influente quarteto europeu de Jarrett na década de 1970, morreu no início deste ano. Jarrett também liderou um quarteto americano inovador nos anos 1970, e seus outros integrantes — o saxofonista Dewey Redman, o baixista Charlie Haden e o baterista Paul Motian, todas figuras importantes do jazz moderno — também se foram.

Diante dessas e de outras verdades difíceis, Jarrett não encontrou exatamente consolo na música como antes. Mas ele tem satisfação com algumas gravações de sua última turnê solo europeia. Ele orientou a ECM a lançar o concerto de encerramento da turnê no ano passado, como Munique 2016. Ele está ainda mais entusiasmado com a abertura da turnê, Budapest Concert, que ele brevemente considerou chamar de The Gold Standard.

'Uma espécie de tristeza existencial'

À medida que ele começa a aceitar sua obra como um fato estabelecido, Jarrett não hesita em fincar uma bandeira.

“Sinto que sou o John Coltrane dos pianistas”, disse ele, citando o saxofonista que transformou a linguagem e o espírito do jazz nos anos 1960. “Todos que tocaram o instrumento depois dele estavam mostrando o quanto deviam a ele. Mas não era a música deles. Foi apenas uma espécie de imitação. ”

Claro, a imitação — até de si mesmo — é um anátema para a invenção pura e vazia que Jarrett ainda afirma ser seu método. “Não tenho ideia do que vou tocar pouco antes do início de uma apresentação”, disse ele. “Se tenho uma ideia musical, digo não a ela.” (Descrevendo esse processo, ele ainda favorece o tempo presente.)

Além de seus próprios recursos criativos, as condições de cada show são únicas: as características do piano, o som no salão, o humor do público, até mesmo como se sente uma cidade. Jarrett havia se apresentado em Budapeste quatro vezes antes de seu concerto de 2016 no Bela Bartok National Concert Hall, sentindo uma afinidade que atribui a fatores pessoais: sua avó materna era húngara e ele tocou a música de Bartok desde pequeno.

“Eu sentia que existia algum motivo para me ser próximo da cultura”, disse ele.

O envolvimento com a música folclórica de Bartok e outros compositores húngaros levou Jarrett a uma qualidade sombria — "uma espécie de tristeza existencial, digamos, uma profundidade" — fortemente presente na primeira metade do show. A segunda metade, como os admiradores de The Köln Concert irão apreciar, apresenta algumas das improvisações mais arrebatadoras de Jarrett. Essas baladas, como Parte V e Parte VII, provocam peças vivamente atonais ou com pegada bop, construindo gradualmente o momento para uma expressão madura que poderia não ter sido possível no início de sua carreira.

Parte dessa evolução tem a ver com a estrutura dos concertos solo de Jarrett, que costumavam se desdobrar em arcos longos e ininterruptos, mas agora envolvem uma coleção de peças discretas, com pausas para aplausos. Frequentemente, a forma abrangente desses shows mais recentes só é aparente após terem acontecido. Mas Budapeste foi uma exceção.

“Eu vi isso enquanto estava acontecendo e é por isso que o escolhi como o melhor show de toda a turnê”, disse Jarrett. “Quer dizer, eu sabia. Eu sabia que algo estava acontecendo.”

O fator crucial, ele reconheceu, era um público excepcionalmente receptivo. “Algumas plateias parecem aplaudir mais quando há algo louco acontecendo”, disse ele. “Não sei por que, mas não estava buscando por isso em Budapeste.”

Dado que Jarrett fez tudo, exceto uma pequena parte de sua produção gravada, na frente de um público, sua reputação de rabugento pode ser melhor entendida como o lado turbulento de um relacionamento codependente. Ele colocou a questão de forma mais sucinta durante um concerto solo no Carnegie Hall em 2015, quando anunciou: "Aqui está o grande problema que ninguém parece perceber: eu não poderia fazer isso sem vocês”.

Conforme ele renegocia seu vínculo com o piano, Jarrett enfrenta a probabilidade de que outro relacionamento — aquele com o público — chegue ao fim.

“No momento, não posso nem falar sobre isso”, disse ele quando a questão surgiu, e deu sua risada evasiva. "Isso é o que eu sinto a respeito."

E embora a magnífica realização de Budapest Concert seja uma fonte de orgulho, não é difícil ver como também pode ser registrada como uma provocação cósmica.

“Só consigo tocar com a mão direita e isso não me convence mais”, disse Jarrett. “Eu tenho até sonhos em que estou tão perdido quanto realmente estou — então tenho me visto tentando tocar em meus sonhos, mas acontece o mesmo que na vida real.” / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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