Sergio Castro/Estadão
Sergio Castro/Estadão

Karina Buhr evoca a figura da guerreira em novo disco autoral

'Selvática' reúne 11 canções inéditas da cantora

Adriana Del Ré, O Estado de S. Paulo

30 de setembro de 2015 | 05h00

Existem significados diferentes para ‘selvática’. Ela pode remeter tanto a passagens da Bíblia, como também àquilo que se cria nas selvas. A cantora, compositora e escritora Karina Buhr queria tudo isso para o título - e para o conceito - de seu novo disco, Selvática (independente; R$ 20), o terceiro da carreira da artista baiana, que cresceu no Recife e vive em São Paulo há mais de dez anos. Desde terça-feira, 29, o álbum está disponível para download gratuito no site oficial da cantora e em suas redes sociais. Ela fará também show de lançamento do novo repertório nos próximos dias 2 e 3, no Sesc Pompeia.

“Eu estava relendo o Gênesis, porque piro na Bíblia como história, e as mulheres estão num lugar bem definido nela. Sempre que tem mulher envolvida, há uma situação esquisita, de tentação, de fraqueza, a não ser Maria, mãe de Jesus, que é virgem e com ela está tudo certo”, conta Karina, em entrevista ao Estado, em um espaço cultural na Vila Madalena. “Tem a história da criação dos animais selváticos, que são os bichos escrotos, peçonhentos, e depois é criada a mulher. E comecei a estabelecer esse paralelo das mulheres selváticas, a pirar nessa coisa das guerreiras de todas as épocas, as da mitologia, as reais.”

Karina Buhr tem o physique du rôle da guerreira contemporânea. E, assim como os índios que se pintam para ir à guerra, ela parece carregar na sombra colorida e no lápis preto em seus olhos para lutar pela música que quer fazer, e enfrentar polêmicas, como a censura, pelo Facebook, da capa de seu disco, em que aparece com os seios à mostra e as represálias de feministas mais radicais, que chiam do “maiôzinho” que ela usa nos shows e de seus requebrados no palco. 

Ela tem estofo para chegar onde chegou. E, em Selvática, delineou um trabalho pungente, forte, tanto na poética quanto na sonoridade, com a assinatura de Bruno Buarque, MAU, André Lima e Victor Rice na produção - juntamente com a própria Karina, que não aparece como produtora na ficha técnica, mas sua mão e suas ideias estão ali. É um disco integralmente autoral, com alguns poucos parceiros, como Guizado, em Conta Gotas e Pic Nic. Nesses casos, o processo é o habitual: Karina Buhr já chega com letra e música prontas, e os parceiros colaboram nos arranjos. 

A exceção ocorreu justamente com a faixa-título. A cantora conta que já havia escolhido o título do disco, mas não tinha uma música com esse nome. Karina, André Lima, Bruno Buarque e MAU, então, iniciaram, do zero, Selvática. “Só que foi passando o tempo, faltava uma semana para acabar o disco, e a gente gravando, gravando. E eu não parava para fazer a letra.” Em cima da hora, ela ficou pronta. Karina chamou Denise Assunção e Elke Maravilha para colocarem suas “vozes selváticas” na canção. “Elas são musas da vida. Elke é desde que me entendo por gente, desde que ela era jurada do Chacrinha. Depois, passei a conhecer ela realmente quando fiz o show da Caixa Preta, de Itamar Assumpção (em 2010). Eu já a achava maravilhosa e passei a achar muito mais”, descreve a cantora. “Denise também participou do show. Eu a conheci no Teatro Oficina, fizemos Bacantes juntas e foi uma coisa muito impressionante também.” 

No rock pesado de Selvática, o texto é recitado, com nuances vocais entre o agressivo e o gutural, à la Vincent Price. “Gravamos lendo, e a ideia era ser meio pregação.” Selvática, a canção, fecha o disco, que, ao longo de sua audição, segue predominantemente nessa toada sonora mais contundente. Como Cerca de Prédio (parceria dela com Cannibal), numa levada punk, com apropriada participação da banda pernambucana Devotos, para protestar contra o crescimento imobiliário desordenado no Recife. “Foi uma gravação para o programa Joinha Lab, do China, que chama uma dupla de músicos para fazer uma canção. Minha dupla foi o Cannibal (vocalista do Devotos). Gravamos lá ao vivo com Devotos tocando e Victor (Rice) remixou para o disco, para ter uma conversa com as outras canções. Achei que essa música ficou massa.” 

Ou Pic Nic (dela e Guizado), em que uma empregada faz o retrato de seu massacrante cotidiano a serviço do patrão. “Não me importa de onde vem o dinheiro dele/ Vai ter churrasco não sei onde botou o gelo ele”, diz trecho da música. No reggae Dragão, em versão dub, emerge a figura da guerreira: “Enfrentar leões/Enfrentar/ Passar por cima de uma coisa que tá no lugar da outra”.

Nesse universo forjado por Karina, as personagens femininas não chegam a ser onipresentes por completo, mas exercem grande protagonismo. Essa figura selvática tem um cunho feminista no disco? “É engraçado, porque essa pergunta costuma ocorrer também com meu livro (‘Desperdiçando Rima’, da Rocco, cujos textos influenciaram seu disco). Não penso: ‘vou fazer um disco feminista, um livro feminista’”, avalia Karina Buhr. 

E, depois, continua: “Na verdade, torço pelo dia que a gente não precise ter mais nada para defender. Quando você quer simplesmente que as mulheres sejam tratadas como normais, você é feminista. Então, fico agoniada, porque é muito bom falar que é feminista, mas, ao mesmo tempo, me dá um certo desconforto, porque dá vontade de não precisar dizer que é nada, mas, por enquanto, precisa. Então, vamos nessa”.

Capa do disco foi censurada pelo Facebook

A capa do disco Selvática traz estampada Karina Buhr representando uma guerreira, com punhal cigano, colar de búzios, pulseiras e anéis, numa mistura de referências - e com os seios à mostra. A foto é de autoria de sua irmã, Priscilla Buhr. Foi o suficiente para o Facebook censurar a imagem e retirá-la do ar por considerar aquele “conteúdo que não segue os padrões da rede social em relação à nudez”.

Karina diz que já esperava por isso. “Imaginei que eles pudessem excluir, bloquear, isso já ocorreu comigo outras vezes com foto, com desenho meus.” Houve uma verdadeira comoção dos internautas a seu favor. O Ministério da Cultura também se manifestou, publicando nota de apoio à cantora e criticando a ação do Facebook. “Essa censura da capa acabou funcionando ao contrário. Todo mundo começou a repostar. Nunca uma capa minha de disco teve tanta visualização”, celebra ela. 

Ainda neste ano, a capa do disco da cantora Juçara Marçal, Encarnado, também foi censurada, no seu caso pelo iTunes, por trazer o desenho de uma mulher com os seios aparentes. “Não entendo essa proteção de ver gente nua, não entendo qual é o drama com isso?”, protesta Karina. “Vai em banca de revista tem mulher nua. Pode se você estiver dentro de um clichê machista.”

Faixa a faixa

Dragão'

“Era um perré, ritmo de caboclinho, e acabou virando reggae” 

'Eu Sou Um Monstro'

“Primeira canção que divulguei. Nasceram letra e música juntas”

'Conta Gotas'

“É sobre imigração, êxodo, pessoas em lugares que não são delas. O tema sempre foi atual”

'Pic Nic'

“Do ponto de vista da empregada doméstica na casa. Ela falando com o patrão, é seu dia a dia”

 'Esôfago'

“Um cara que matou a mulher e se matou. É ele cantando para ela. É inspirada numa notícia que li”

'Cerca de Prédio'

“Tem a ver com a atual especulação imobiliária não só no Recife, mas em todas as cidades”

 'Vela e Navalha'

“Tem uma coisa muito visual com ela, uma coisa cigana”

'Rimã'

“Foi para um projeto do fotógrafo Gilvan Barreto, em que fiz a música para fotos da minha irmã”

'Alcunha de Ladrão'

“O personagem é um ladrão. Mas não é ele contando, sou eu ou sei lá quem, é uma observação”

'Desperdiço-Te-Me'

“Um romantismo depressivo”

'Selvática'

“Foi totalmente de última hora, mas não no sentido de ser feita nas coxas. Pelo contrário, ela tinha risco de não acontecer” 

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