Kaiser Chiefs canta o desamor em disco de estréia

A cidade de Leeds não manda apenas extremistas muçulmanos explodir em Londres. Nos anos 80, partiu de lá o Wedding Present, a cultuada banda de David Gedge que, no começo de 2005, voltou à ativa com o álbum Take Fountain. No ano passado, Leeds despachou para Londres o quinteto Kaiser Chiefs, cujo saboroso CD de estréia, Employment, britpop da cabeça aos pés, está sendo lançado no Brasil pela Universal.Na Inglaterra, a banda causou furor com seu segundo single, I Predict a Riot. Predição não do tipo de confusão promovida por células da Al-Qaeda, mas da que nasce de um cenário urbano deteriorado. ?Ver as pessoas ficarem encurraladas/ Não é muito bonito eu vos digo/ Andar pela cidade é bem assustador/ E também não é muito sensato/ O amigo de um amigo apanhou/ Ele olhou da maneira errada para um policial?, canta Ricky Wilson. ?Se ainda há alguém aqui/ Que não quer estar lá fora/ Eu predigo uma baderna.? (Talvez, no seu papel de artista-como-antena-da-raça, Wilson estivesse predizendo o já visto e acertando o que não podia ver ainda.)Batizado a partir de um time de futebol da África do Sul, de vistosa camisa amarelo-ovo, os Kaiser Chiefs se formaram na lógica jaggeriana do ?o que mais pode um garoto pobre fazer a não ser tocar numa banda de rock?n?roll??: para se divertir e fazer dinheiro. O vocalista volta e meia brinca que seu sonho é pôr uma obturação nova no dente. No seu som, entretanto, os Stones são menos presentes do que os Kinks ou os posteriores Clash e Jam, Oasis e Blur. Sobretudo este. Escute Na na na na naa e What Did I ever Give You?No exterior, Employment saiu com 12 faixas. A última, Team Mate, excluída da edição nacional, lembra ainda mais a banda de Damon Albarn. É uma boa influência, digna de nota. Embora os sensos de melodia e de marketing tenham conferido mais popularidade à sua ?rival? Oasis (influência entreouvida no CD dos Kaiser Chiefs na faixa Modern Way), o Blur tem sido a mais inventiva banda do britpop nos últimos 15 anos.Por isso, mais do que no som propriamente dito, os Kaiser Chiefs parecem se espelhar é na diversidade da produção do Blur, que se espraiou pelos Gorillaz virtuais de Albarn e pela carreira-solo do ex-guitarrista Graham Coxon. Unificadas pelo sotaque nortista de Wilson, nenhuma das 11 (ou 12) faixas parece cópia carbono da outra, como nos CDs do Oasis. O guitarrista Andrew White, o tecladista Nick ?Peanut? Baines, o baixista Simon Rix e o baterista Nick Hodgson fornecem harmonias vocais e levadas pop-roqueiras, grudentas, sejam elas rápidas, médias ou lentas, que, além das referências britânicas, às vezes atrelam a banda aos americanos Beach Boys (na suave You Can Have It All e em Caroline, Yes).Um ponto distintivo dos Kaiser Chiefs é a qualidade das letras. A da faixa de abertura, a obsessiva Everyday I Love You less and less, constitui uma das melhores e mais divertidas canções de desamor já escritas. Ok, desconte a empolgação: uma das melhores e mais divertidas canções de desamor escritas nos últimos tempos. ?Não posso acreditar que um dia eu e você fizemos sexo/ Porque a cada dia eu a amo menos e menos/ Me deixa enjoado imaginar você despida/ Porque a cada dia eu a amo menos e menos/ Você está virando algo que eu detesto?, canta o narrador estressado, que rejeita o amor da namorada porque se sente ?um camundongo numa roda?. Bingo. Grande imagem para uma relação que não se resolve. Assim fica fácil fácil predizer: esses caras vão aprontar muitas.P.S.: Com o lançamento no Brasil de Franz Ferdinand, Bloc Party e Kaiser Chiefs, ficam faltando os Futureheads para o público ter uma idéia razoável da boa fase britânica.

Agencia Estado,

26 de julho de 2005 | 21h45

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